Dono da rua mais bonita do mundo, o município de Porto Alegre tem 49 túneis verdes. A lista está em uma lei municipal de 2012 e engloba ruas, avenidas e até mesmo um bairro inteiro: Vila Conceição, na Zona Sul. Segundo a prefeitura, desde 2024, um "censo" é realizado, com contabilização das árvores e avaliação das condições.
Os túneis verdes surgem quando há plantios nos dois lados de uma via e as copas das árvores se unem. Na Capital, alguns dos lugares descritos na legislação não têm essa formação, mas ainda assim funcionam como uma espécie de corredor ou paredão de vegetação.
A responsabilidade de monitorar esses espaços fica a cargo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus). Conforme a diretora de Áreas Verdes da pasta, Verônica Riffel, o levantamento iniciado em 2024 mapeou 8.657 árvores.
O que o "censo" dos túneis mostra?
De acordo com o levantamento, do total, a maioria das árvores — 5.033 — está em estado fitossanitário (de saúde da planta) "bom". Outras 3.030 estão em condição considerada "regular".
Já 163 estão mortas. E 431 estão em condição "ruim". Neste último caso, Verônica explica que uma análise mais aprofundada deve ser feita. A previsão é de que seja finalizada ainda em 2026.
— A partir disso, vamos ter tomadas de decisão para vermos se essas árvores estão em risco, se precisam ser suprimidas ou ainda se vamos para o nível três de análise, que é mais profundo, com tomógrafo e equipamentos para tentarmos, dentro daquele caule, identificar alguma patologia que possa colocar em risco a árvore — acrescenta.
Na Rua Doutor Timóteo, a equipe também estuda um trecho da via para saber como preservar o túnel verde ali existente. Entre os desafios, ela cita a falta de espaço, a presença de fiação elétrica e de construções que talvez não existissem à época do plantio, além da própria dificuldade de uma nova árvore encontrar luz para se desenvolver, estando dentro de um túnel.
🌳O cuidado necessário

Os túneis verdes fazem parte da arborização do município. Neste quesito, ao longo dos anos, Porto Alegre caiu de posição entre as capitais do país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2010, a cidade ocupava o quarto lugar entre as capitais mais arborizadas. Em 2022, passou para sexto.
A bióloga, arquiteta e urbanista Luciane Teresa Salvi reforça que as árvores precisam de manutenção frequente, com podas que não favoreçam o apodrecimento ou interfiram nas raízes.
— Claro que uma árvore tem o seu ciclo de vida. Ela vai ter, dependendo da espécie, X anos de vida. Vai ter um momento em que ela vai começar a diminuir o metabolismo e vai morrer. Só que, para isso, nós estamos falando de décadas. O que acontece aqui em Porto Alegre é que vem o temporal e começa a desabar, a cair — avalia.
Ela explica que, por exemplo, após uma poda, deve haver um cuidado sanitário para que microrganismos não entrem na área que ficou exposta — o que pode levar à morte da planta até mesmo anos depois.
A lei municipal de 2012 destaca que deve ser realizado o manejo permanente da vegetação dos túneis. Também ressalta que fica proibida qualquer alteração que coloque em risco a integridade das espécies vegetais.
A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb) é quem realiza essa manutenção. De acordo com a pasta, "a Unidade de Podas e Remoção Vegetal executa o manejo preventivo e atende às solicitações de serviço na via através da Central do Cidadão (156), quando apontado através de laudo técnico respeitando à legislação".
As podas dependem, portanto, das solicitações e da avaliação de técnicos. No caso de cortes para substituição, a pasta explica que é necessário um laudo.
Em relação a casos em que há contato com a rede de alta tensão, a secretaria destaca que a responsabilidade é da concessionária de energia elétrica.
Em meio à rede elétrica
Consultada por Zero Hora, a CEEE Equatorial informou que atua em casos de podas de caráter emergencial, quando há interrupção no fornecimento de energia, assim como preventivo, a partir de avaliação técnica.
"As podas realizadas seguem critérios técnicos e ambientais rigorosos, com licenciamento dos órgãos competentes e atuação de equipes treinadas. A recorrência e o formato das podas são definidos a partir de fatores como espécie arbórea, crescimento, proximidade com a rede e histórico da região", ressalta a empresa.
A concessionária afirmou também que, em áreas reconhecidas como túneis verdes, "há atenção especial para evitar intervenções drásticas, priorizando técnicas que preservem a forma e a saúde das árvores".
A lei de 2012 declara que, nas vias com túneis verdes, a transmissão de energia deve ocorrer por meio de cabos ecológicos ou subterrâneo. Mas isso ainda não saiu do papel.
A CEEE Equatorial diz estar em diálogo com a sociedade civil "para criação de iniciativas e planos específicos voltados à preservação dessas áreas, incluindo a adoção de tecnologias que reduzam a necessidade de intervenções na vegetação". Exemplo disso, como pontua, é a substituição de redes convencionais por redes compactas, processo no qual foram investidos pelo menos R$ 21 milhões. Iniciativas como essa, segundo a empresa, contribuíram para uma redução de 47% na frequência de interrupções de energia na cidade.
🐦 Sombra, ar, chuva e aves
A maior sombra e o impacto na qualidade do ar em áreas arborizadas são só alguns dos papeis dos túneis verdes em meio à cidade. A bióloga, arquiteta e urbanista Luciane lembra ainda que a vegetação torna o solo mais permeável e amortece a queda da chuva, facilitando a drenagem.
Em 2008, a especialista fez uma pesquisa sobre os túneis verdes de Porto Alegre. Selecionando alguns, ela foi às ruas contar árvore por árvore, verificar como estavam as raízes, as copas e os troncos e descobrir a quantidade de carbono que cada unidade retirava da atmosfera. De acordo com Luciane, a presença de aves nesses espaços comprovou a importância do "trampolim ecológico":
— Tu tens a praça da Encol, a Redenção, vários ambientes, fragmentos maiores de vegetação que seriam completamente isolados, mas temos os túneis, a arborização das ruas, unindo esses ambientes. Isso para aves, e no trabalho comprovamos, faz uma grande diferença na sobrevivência.
A pesquisadora comparou vias com túneis verdes com aquelas paralelas sem esse tipo de vegetação. O maior achado da pesquisa, como destaca, se relaciona justamente a essa interação com a fauna.
— Conseguimos comprovar que, mesmo essa arborização urbana, que em termos de diversidade é bem pobre por serem praticamente as mesmas espécies, ela tem, sim, importância ecológica — ressalta.




