
A prefeitura de Porto Alegre sanciona, nesta quinta-feira (21), a política municipal de acolhimento a pessoas enlutadas por suicídio, intitulada “Vidas que Ficam”. O ato está previsto para as 14h, no Auditório do Centro Administrativo Municipal Guilherme Socias Villela. A lei é de autoria do vereador Marcelo Bernardi (PSDB) e foi idealizada pela psicóloga Samantha Sittart.
A proposta é oferecer apoio psicológico, social e informativo a familiares, amigos e demais atingidos por perdas por suicídio. A estruturação e o começo dos atendimentos está previsto para os próximos meses.
A autora do "Vidas que Ficam" é enlutada por suicídio e pesquisadora do tema. Há anos, ela perdeu um familiar. A psicóloga contextualiza que, além da experiência marcada pela dor, o preconceito e a vergonha costumam recair sobre os familiares de quem morre.
— Quem passa por uma perda de suicídio depara com burocracias, tem que lidar com órgãos públicos e privados ainda despreparados e até desumanizados. É comum que enlutados escondam ou até mintam sobre a causa da morte para evitar julgamentos — diz Samantha.
A nova política prevê que a porta de entrada e os encaminhamentos sejam prioritariamente por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) e Centros de Referência de Assistência Social(CRAS).
Trabalho intersetorial e conscientização
Ações intersetoriais envolvendo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o Conselho Municipal de Saúde (CMS), o Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio e organizações da sociedade civil devem integrar o grupo de trabalho.
Entre as medidas estão grupos de escuta e acolhimento, atendimento psicológico individual e familiar, capacitação de servidores, campanhas de conscientização e articulação com instituições como o Centro de Valorização da Vida (CVV), universidades e ONGs.
Segundo o boletim epidemiológico divulgado em 2025, a taxa parcial de mortalidade por suicídio na região da 1ª Coordenadoria Regional de Saúde (1ªCRS), sediada em Porto Alegre, foi de 12,44 mortes por 100 mil habitantes em 2024.
Na área de abrangência da coordenadoria, que inclui a Capital e municípios da Região Metropolitana, foram registrados 504 óbitos.
Conforme o mesmo boletim, 2,5 mil a 3 mil pessoas são diretamente enlutadas no seu círculo íntimo. O número é maior se considerar amigos, relações comunitárias e de trabalho.
Em todo o Rio Grande do Sul, o ano de 2023 apresentou o maior índice da série histórica, com 1.651 mortes por suicídio e taxa de 16,07 por 100 mil habitantes.
Trajetórias em comum
Assim como a psicóloga Samantha, o vereador proponente da lei também carrega o luto pela mesmo motivo. Ambos se encontraram para encampar a nova política municipal. Em 2017, Bernardi perdeu seu único irmão.
O vereador explica que o trabalho para transformar o projeto em lei busca educar e, principalmente, mostrar que o fortalecimento de uma rede de apoio é essencial para prevenir casos, reduzir o estigma e ampliar o cuidado às famílias.
— O sistema é falho. Precisamos tirar o sentimento de culpa dos familiares e oferecer escuta com sensibilidade. Esse é um luto que se estende e pode adoecer quem está à volta — reflete Bernardi.
A Organização Mundial da Saúde estima que cada morte por suicídio afeta diretamente, em média cinco pessoas próximas.
Cada pergunta, 'Morreu do quê?', 'Mas tão novo?', reabre a ferida e o trauma. Quem fica também corre risco: enlutados por suicídio têm até três vezes mais chances de desenvolver ideação suicida, mesmo suicídio sendo multifatorial.
SAMANTHA SITTART
Política contínua
A psicóloga defende, ainda, um trabalho contínuo, que prepare agentes da área da polícia e da perícia, médicos, psicólogos e servidores em geral e até do Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu) para lidar com essas situações de forma humanizada:
— É preciso educar a sociedade, pois o enlutado carrega essa dor não apenas nos primeiros momentos. A lei chega como passo importante para dar visibilidade, proteção e também salvar vidas.
Procure ajuda
- Centro de Valorização da Vida (CVV) - 188
Apoio emocional gratuito 24h pelo telefone chat e escuta acolhedora - Orienta familiares e pessoas impactadas pelo suicídio
Associação Brasileira de Apoio aos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) – (11) 93920-4893
- Oferece grupos de apoio, informação e acolhimento para familiares e amigos
UBS, Samu e CAPs
- Também é possível buscar atendimento UBS mais próxima pelo Samu, no telefone 192, ou em um dos CAPs do Estado.


