A Avenida Osvaldo Aranha é um patrimônio afetivo — material e imaterial — de Porto Alegre. Projetada como um dos eixos de expansão do município a partir do século 19, o desenvolvimento da via em muito extrapolou o simples avanço geográfico.
Polo comercial, reduto boêmio, letra de música e cenário de filme, a avenida, palco de manifestações culturais diversas ao longo dos anos, passou por momentos de transição nas últimas décadas, mas segue permeando o imaginário coletivo dos porto-alegrenses como uma das ruas mais emblemáticas da Capital.
— Muita coisa mudou no perfil da avenida, dos negócios, dos frequentadores — resume Fiapo Barth, fundador e sócio do Ociente, uma das marcas da Osvaldo.
Com extensão aproximada de 1,6 quilômetro, a avenida tem início na Praça Argentina, no Centro, e finda na esquina com a Rua Ramiro Barcelos, no Bom Fim. Nesta linha, conecta hospitais, igrejas, instituições de ensino, palmeiras, casas de shows, bares, restaurantes, o Parque da Redenção e uma parcela inescapável da história da cidade.
Dos móveis ao perfil diverso
Desde as primeiras décadas do século 20, o comércio foi um motor fundamental para o desenvolvimento da Osvaldo Aranha. Entre as primeiras operações comerciais que marcariam a história da avenida estavam as lojas de móveis.
— Vinha gente da cidade toda, até de fora. Os móveis vendidos na Osvaldo eram os mais valorizados do Estado — destaca o empresário Sergio Schwartz.
— Sempre foi uma característica marcante da avenida, esse comércio de móveis de valor agregado, de uma qualidade maior, sofisticados. Tinha um grande glamour associado às lojas de móveis da Osvaldo, a avenida estava para o setor moveleiro como a Oscar Freire estava para a moda em São Paulo — acrescenta Carlos Klein, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre.
Fatores como a dificuldade para estacionar e a falta de local adequado para depósitos de produtos nas lojas fizeram com que este polo se transferisse para outras regiões mais espaçosas da cidade, como a Avenida Ipiranga. No lugar, cresceram as operações com produtos e serviços mais práticos e que favoreçam um público que circula a pé.
— Nós mesmos também tentamos abrir loja na Ipiranga, mas o negócio não foi pra frente, nosso chão sempre foi mesmo aqui na Osvaldo — reforça Sergio Schwartz.

As lojas de móveis, outrora dominantes entre as operações comerciais, foram abrindo espaço para outros tipos de negócios, como bazares, livrarias, papelarias, lojas de roupa e, mais recentemente, farmácias. Há também um número grande de operações relacionadas ao mercado wellness, como academias.
Aproveitando este cenário, os empreendedores Lucas Braum e Victor Dellorto, ambos com 30 anos, inauguraram em março deste ano o Nolie Health Bar. Localizado na quadra entre as ruas João Telles e Santo Antônio, o estabelecimento oferece aos visitantes itens como sucos, sanduíches naturais e smoothies proteicos.
— Ter nossa operação aqui na Osvaldo Aranha foi um fator de atração especial para nós. Além de todo o significado histórico da avenida, está muito bem posicionada nesta interface com a Redenção, é um local de prática de esportes e também conecta muito bem com a nossa proposta e nossa marca — aponta Victor.

No terreno onde ficava o antigo cinema Baltimore, por exemplo, foi inaugurado um moderno prédio comercial, chamado Baltimore Office Park. Para o presidente da CDL, a Osvaldo Aranha ainda oferece diversos fatores de atração aos lojistas.
— A Osvaldo Aranha segue como ponto atrativo para lojistas de vários segmentos, está inserida em um bairro que tem um grande e constante fluxo de pedestres, tanto entre moradores quanto visitantes e os trabalhadores da região, dos hospitais, da universidade. Os moradores do bairro, ainda, já têm o hábito de circular e fazer suas compras na região, o que já pode garantir uma bora clientela — observa Klein.
Avenidas de Porto Alegre
Vida noturna também em transformação
Tão marcante quanto a relação da Osvaldo Aranha com o comércio é o desenvolvimento da avenida enquanto eixo cultural e boêmio. Também neste segmento, as transformações ditam o ritmo de quem vive a Osvaldo atualmente.
Na década de 1980, própria a abertura do Ocidente aconteceu durante um movimento de saída do polo da vida noturna da Esquina Maldita para uma parte mais central da avenida. Décadas mais tarde, novas mudanças marcaram a região.
Hoje, além da operação noturna do Ocidente, um café diurno funciona no térreo do imóvel — datado de 1877, é o segundo mais antigo da Osvaldo, só ficando atrás da capela do Bom Fim.
— Pouco antes da pandemia, se ensaiou a volta de um movimento maior na rua, mais localizada na João Telles, mas estava bem desorganizado. Com a pandemia, terminou. Hoje, o movimento da Osvaldo fica muito longe do que era, o bairro ainda até segue com um bom movimento relativo, mas esse fluxo migrou para as outras ruas, como a Fernandes Vieira e a Vasco da Gama — destaca Fiapo Barth.

A intensidade da vida noturna também arrefeceu após seguidos conflitos com a polícia, moradores e mesmo brigas entre os frequentadores. A via ainda ganha um pouco mais de movimento em dias de shows no Araújo Vianna, mas ainda fica muito distante do fluxo observado no passado.
— A Cidade Baixa começou a aparecer. E daí começou a migração para lá. A migração foi rápida, o Bom Fim esvaziou — diz Fiapo.
— O fim da Osvaldo como grande centro da boemia se deu por uma conjunção de fatores mesmo, o desgaste da relação com os moradores, o ambiente que foi ficando mais pesado, com brigas na rua, e alguns dos principais bares começaram a fechar — relata Milton Gerson, vice-presidente da Associação dos Amigos do Bairro Bom Fim.
Na Lancheria do Parque, que conquistou o público nos anos 1980, entre outros fatores, por funcionar até o avançar da noite, a percepção de mudança também é concreta.
— Hoje (o público) é mais família. A gente tem ainda o foco forte nos fins de semana e quando tem os shows do Araújo Vianna. Então, dá as explosões. A galera vem, se encontra na lancheria para comemorar e depois ir ao show no Araújo — destaca Mauri Fachini, um dos sócios do estabelecimento.
A história da Osvaldo
A via foi projetada, em meados do século 19, como uma das cinco principais radiais que desenvolveriam o município a partir de seu núcleo principal, centralizado até então nos arredores do Mercado Público e do Cais do Porto. Chamada inicialmente de Estrada ou Caminho do Meio, era vislumbrada como uma via de ligação até o município de Viamão.
— A criação da Avenida Osvaldo Aranha se estabelece em um contexto de expansão de Porto Alegre após o fim da Guerra dos Farrapos. Foram projetadas essas cinco avenidas principais para espraiar a cidade, duas mais direcionadas à região norte, duas mais à região sul, e a atual Osvaldo — afirma o urbanista Maturino Luz, professor da graduação de Arquitetura na PUCRS.
Em 1867, foi lançada a pedra fundamental daquela que seria a primeira construção da via, a capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim. Mais tarde, a igreja acabaria também por estender seu nome ao bairro que a abriga e temporariamente também à própria avenida.
Nessa época, a Redenção ainda era um vasto campo alagado, que só viria a ser oficialmente estabelecido como Parque Farroupilha em 1935, ano em que ocorreram grandes celebrações por ocasião do centenário do início da Guerra dos Farrapos.
Já com bondes circulando, em 1916, a rua passou a se chamar Avenida Bom Fim. Nos anos seguintes, começaram trabalhos de calçamento e arborização no local — é nessa época que foram instaladas as primeiras palmeiras na avenida, hoje símbolos indissociáveis da via. Também no início do século 20, começa a ganhar força a imigração judaica na região.
— Os novos imigrantes construíram residências, sinagogas e sedes de estabelecimentos comerciais por toda a região, o que também colaborou para um maior dinamismo e para uma aceleração do desenvolvimento da avenida — explica o historiador Bruno Segatto.
Um dos marcos deste período foi a inauguração, em 1928, do Mercado Bom Fim, localizado onde fica hoje o Hospital de Pronto-Socorro (HPS) de Porto Alegre. Em 1930, a avenida ganharia o seu nome atual, Osvaldo Aranha, em homenagem ao político gaúcho que fora um dos principais apoiadores de Getúlio Vargas no movimento que encerrou a República Velha.
Desde sua origem, a avenida já tem uma ligação fundamental com a Santa Casa de Porto Alegre, seu limite máximo na margem inicial. Em 1944, foi inaugurado o HPS e, em 1972, o Hospital de Clínicas, no limite final da avenida.
Pujança cultural
A relação da Osvaldo Aranha com instituições de ensino também é digna de nota, influenciando outra face de sua história.
Entre os últimos anos do século 19 e primeiros do século 20, foi instalada no início da avenida a hoje chamada primeira geração de prédios históricos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1935, outro prédio marcante seria inaugurado, o Instituto de Educação General Flores da Cunha, um dos colégios mais importantes de Porto Alegre.
— A instalação dos prédios da UFRGS contribuiu para fazer da avenida um espaço pujante repleto de estudantes que viviam em repúblicas do Bom Fim e se encontravam nos bares, cinemas e discotecas que iam das imediações da universidade até o HPS — complementa o historiador Bruno Segatto.
O Araújo Vianna, instalado na Redenção em 1958, rapidamente se consolidou como um dos principais locais para shows de música e espetáculos em geral em Porto Alegre. Até meados da década de 1990, o auditório tinha um formato nos moldes de um anfiteatro grego, sem cobertura, e as apresentações ocorriam a céu aberto. O evento de inauguração da cobertura do Araújo foi uma apresentação de João Gilberto em uma noite de sexta-feira, em outubro de 1996.

Um pouco mais acima na altura da avenida, mas do outro lado da calçada, a atração era o cinema Baltimore. Inaugurado em 1931, foi um dos mais famosos cinemas de rua de Porto Alegre, chegando a ter quatro salas na Osvaldo durante o auge de sua operação.
Ao lado do Baltimore, se instalava o sui generis Bar João. Durante o dia, era um local onde os moradores do Bom Fim iam tomar café, e os comerciantes faziam reuniões e fechavam negócios. Quando o sol se punha, toda sorte de figuras notívagas se direcionava ao bar, para tomar uma cerveja na calçada e observar o movimento da avenida, em busca de jogos de sinuca e carteado, ou imbuídos do desejo de experimentar algum dos incontáveis tipos de cachaça disponíveis atrás do balcão. Fundado por João Brum, um garçom do antigo Bar do Fedor, o estabelecimento funcionou até 2003.
— O Bar João era o lugar mais democrático da cidade, todo mundo frequentava e era tratado da mesma forma. No João, tu encontrava punk, médico, músico, malandro, advogado, universitário, hippie, militante, todo tipo de gente, dividindo o balcão e a calçada — lembra Milton Gerson.

O histórico da avenida como via principal de reunião da boemia porto-alegrense se consagra inicialmente nos bares da famigerada Esquina Maldita, junto à Sarmento Leite. Ponto de reunião de estudantes, artistas, jornalistas, professores, militantes políticos e entusiastas da vida noturna de modo geral, começou a ser mais frequentada ainda no final da década de 1950, quando foi aberto o pioneiro bar Acapulco, em 1958.
Nos anos seguintes, bares como o Alaska, o Copa 70 e o Mariu’s, o último destes a ser fechado, deram ainda mais força à boemia local. No auge dos tempos de repressão durante a ditadura militar, entre o fim da década de 1960 e a década de 1970, os bares da esquina era um refúgio para debates e confabulações sobre política, contracultura e assuntos relacionados.
Fiapo Barth foi um dos inúmeros frequentadores da Esquina Maldita naqueles dias. Em 1972, se mudou para Porto Alegre para estudar Arquitetura. Nas conversas entre o balcão dos bares e as calçadas da esquina, junto de cinco companheiros, planejou a abertura de um lugar para apresentações artísticas, o que julgavam estar em falta na cidade. Acharam o local apropriado em uma casa da Osvaldo, na esquina com a Rua João Telles. Em dezembro de 1980, abria as portas pela primeira vez o Ocidente.
— Desde que mudei para Porto Alegre, a Osvaldo Aranha foi o meu chão, porque eu morava na esquina da Ramiro e estudava Arquitetura na UFRGS, então percorria a avenida diversas vezes ao dia — conta Fiapo.
Do lado da Redenção, além do Araújo Vianna, já na esquina com a José Bonifácio, ficavam os icônicos Luar Luar e Escaler. No outro lado da rua, os espaços mais disputados nas calçadas ficavam entre Ocidente, o Lola e o Bar João.
— Uma noite de sexta ou sábado na Osvaldo, no auge da década de 1980, era sempre um acontecimento. Era um mar de gente na rua, de todas as tribos, com cervejas — diz Milton Gerson.
Também no início da década de 1980, surge na avenida um estabelecimento que até hoje ocupa um lugar especial no coração dos porto-alegrenses, a Lancheria do Parque. Fundada por Ivo José Salton, o Seu Ivo, vindo de Encantado, a Lanchera iniciou suas operações em 1982 e logo fez sucesso na região pela qualidade do xis, o sabor de comida caseira do buffet e pelo clima acolhedor.
— A lancheria começou a cair no gosto do público porque a gente trazia esse sabor do Interior na nossa comida, e porque a gente ficava aberto durante quase todo o dia, o que não era comum para a época. A gente começou a receber também muitos artistas, músicos, que vinham comer mais em horários alternativos, e sempre eram bem recebidos — destaca Mauri Fachini.
O Baltimore, assim como os outros cinemas de rua da Capital, sofreu com a popularização dos cinemas em shoppings centers. Suas atividades foram encerradas em 2000, e o prédio foi demolido em 2003. A demolição do Baltimore, inclusive, se relaciona de forma triste com o fim do Bar João. A edificação foi atingida por uma retroescavadeira durante a derrubada do cinema. O bar precisou fechar as portas e acabou nunca reaberto.
Em 2006, o Escaler também encerrou suas atividades de forma definitiva, mesmo destino do seu vizinho Luar Luar e do Lola.
A Lancheria do Parque segue aberta, diariamente. Se fechar a Lanchera, possivelmente a Osvaldo Aranha seria palco de uma guerra no Bom Fim.









