O Atelier Livre Xico Stockinger, em Porto Alegre, conta com um acervo histórico composto por cerca de 120 pedras litográficas pertencentes à antiga Livraria do Globo. Dos primeiros anos da livraria, fundada em 1883, até meados do século seguinte, as peças eram utilizadas como matrizes para imprimir materiais como calendários, rótulos e anúncios de publicidade.
Desenvolvida no final do século XVIII pelo ator e dramaturgo alemão Alois Senefelder, a litografia surgiu como uma solução quase mágica para um problema comercial: encontrar uma forma barata de reproduzir textos e imagens.
Até então, para imprimir algo semelhante, era preciso primeiro entalhar ou esculpir a imagem em algum material — como madeira ou metal — e depois pressionar o papel contra essa matriz.
Para imprimir suas peças, Senefelder teve a ideia de desenhar diretamente em uma pedra calcária lisa com um lápis gorduroso. Em seguida, a superfície é tratada (um químico faz com que a gordura entre nos poros da pedra) e levemente umedecida.
Como água e gordura se repelem, a tinta de impressão — também oleosa — adere apenas às partes desenhadas e é repelida pelas áreas úmidas. Ao pressionar uma folha de papel contra a superfície entintada, o desenho é transferido.
A partir do final da década de 1930, com a substituição gradual das oficinas litográficas pelos processos offset (com placas metálicas, técnica utilizada até hoje), as pedras começaram a cair em desuso e ficaram obsoletas. Porém, esses "anúncios da Idade da Pedra", se tornaram relíquias de Porto Alegre e do Estado.
— Essas pedras são um patrimônio. Contam muito da nossa história, da história da gráfica, do livro, do design. São rótulos de remédios, papéis de bala, cervejas, vinhos, bebidas gasosas, vinagres e tem até um de fósforos — conta a artista visual e ex-professora do Atelier Livre, Miriam Tolpolar.
Relíquias usadas para calçamento
Antes de irem parar no Atelier Livre, em determinado momento, cerca de 4 mil delas chegaram a ser usadas como calçamento, nos fundos da antiga gráfica da Livraria do Globo, no bairro Menino Deus.
Em 2001, parte do material que resistiu foi retirado e doado por intermédio do artista plástico Danúbio Gonçalves, já falecido, fundador de uma oficina de litografia no Atelier Livre. Cerca de 120 pedras chegaram com restos de cimento nas bordas.
Miriam começou um projeto de catalogação e restauro de 40 dessas pedras com auxílio do impressor Paulo Rogério Lopes da Rosa. A artista realizou uma triagem com as mais interessantes.
Dedicou-se ao trabalho durante dois anos. O serviço envolveu higienização, recuperação das imagens e retomada dos processos químicos. Na ocasião, as pedras foram catalogadas, numeradas e receberam um espaço de armazenamento adequado.
O trabalho foi registrado no livro Memória da Litografia: pedras raras da Livraria do Globo (Letra Editora, 2014), que contou com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) do governo estadual. Um trecho do prefácio, assinado por Luis Fernando Verissimo, dá uma ideia da riqueza do material:
Os artistas que trabalhavam nestas pedras certamente nunca desconfiaram que, para vender vinagre ou massas alimentícias, estavam fazendo o retrato de uma época, e que um dia reverenciaríamos suas pedras como achados arqueológicos, restos de uma civilização perdida.
LUIS FERNANDO VERISSIMO
No prefácio de "Memória da Litografia: pedras raras da Livraria do Globo"
Caça à origem dos rótulos em todo o Rio Grande do Sul
Entre as pedras litográficas, além de peças curiosas — como um diploma de Medicina de 1912 — Miriam percebeu que muitas traziam inscrições de litografias referentes a outras cidades.
— Muitas pedras eram gravadas no interior do Estado e vinham para serem impressas na oficina da Livraria do Globo — conta.
Ela deu início a uma pesquisa para buscar a origem dos estabelecimentos que encomendaram as artes grafadas em pedra. O levantamento foi feito na internet e no Museu Júlio de Castilhos, que mantém um setor com marcas registradas da Junta Comercial de Porto Alegre referentes ao período de 1896 a 1920.

Miriam acessou 57 volumes e encontrou diversos rótulos iguais e outros semelhantes aos que tinha no Atelier Livre. Também estendeu sua investigação a municípios distantes como Jaguarão, na Região Sul, onde foi atrás da Padaria Victoria citada em um dos rótulos litográficos.
A artista visual defende o tombamento das pedras. Ela sugere realocar as pedras para um local onde possam ficar expostas de forma permanente, como o Museu de Arte do Paço Municipal ou a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS. Apesar de algumas reuniões com secretários municipais e coordenadores de espaços, nenhuma sugestão evoluiu.
Pedras serão exibidas e utilizadas, garante diretora
As pedras litográficas passaram por um novo problema recentemente: elas ficaram submersas durante a enchente de maio de 2024. O Atelier Livre reabriu 40 dias depois da inundação, e as peças foram submetidas a processo de higienização e recuperadas. Atualmente, encontram-se em uma sala do local: uma parte enfileirada no chão e algumas em uma bancada.
A diretora do Atelier Livre, Thais Amaral de Souza, antecipa que parte das pedras serão expostas ao público em 2027. As demais seguirão sendo utilizadas pelos alunos do espaço.
Atualmente, o Atelier Livre não conta com cursos regulares ou professores de litografia. No final deste ano, o plano é lançar edital para a contratação de um professor de litografia. O curso deverá ser reaberto no próximo ano, diz a diretora.
— Vamos fazer um memorial com algumas delas e as outras vão seguir sendo recurso para que os alunos possam desenvolver suas atividades na litografia — afirma.
Segundo Thais Amaral de Souza, está descartada qualquer possibilidade de as pedras do Atelier Livre serem doadas para alguma instituição. Os planos englobam expor as pedras em prateleiras fixadas em paredes de dois espaços distintos, sendo um mais próximo da entrada e outro em um corredor fora da sala onde encontram-se armazenadas hoje.
— Essas pedras pertencem ao acervo do Atelier Livre. Nós vamos valorizá-las — assegura.

