
Reconhecido pela imponência, o palacete localizado na esquina das vias Cristóvão Colombo e Santo Antônio, no bairro Floresta, em Porto Alegre, chegou a 60% de conclusão da primeira etapa do processo de restauro. Essa fase inclui a recuperação do terraço e do sistema de coleta de água da chuva para acabar com infiltrações no prédio cedido à Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Fospa) e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae).
Depois que essas intervenções forem entregues, a um custo de R$ 1,4 milhão, em junho, a continuidade da restauração do chamado "palacinho" — que já foi utilizado como residência e gabinete de vice-governadores — vai depender da liberação de novos recursos. Conforme a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac), esses novos estágios ainda não foram orçados.
A documentação que fundamenta o pedido de tombamento, formalizado em 1996, explica que o imóvel de dois pavimentos, subsolo e terraço "é um dos últimos remanescentes situados na área central da cidade com características de arquitetura neoclássica italiana. Internamente, o prédio possui, como destaque, uma escadaria toda em mármore e vitrais de rara beleza."
Infiltrações e problemas de conservação levaram o governo estadual a anunciar, no ano passado, o início do restauro da edificação construída, segundo o processo de tombamento, "na década de 1930" com o curioso propósito de receber o genro do então ditador italiano Benito Mussolini (leia mais ao final do texto).
Conforme o Piratini, a recuperação iniciada na metade de novembro deveria se estender por cinco meses — prazo que se encerra em abril. Por meio de nota, porém, a Sedac informa que o contrato na verdade prevê seis meses de obras na primeira fase de intervenções, o que estende a data-limite para meados de maio. Atrasos provocados por questões climáticas, conforme a pasta, deverão adiar a entrega até junho.
O primeiro conjunto de melhorias envolve o conserto de infiltrações. Já foi instalada uma nova canalização pluvial e, no momento, está sendo feita a impermeabilização do piso do terraço. Depois disso, será colocado um novo piso de basalto.
De acordo com a nota da Sedac, essa primeira fase "é o início de um processo de restauração amplo, que deve contemplar outras etapas, como por exemplo, a recuperação das instalações elétricas e hidrossanitárias, instalações de acessibilidade, restauração de fachadas e de murais internos, e a restauração de pisos e esquadrias. A execução das próximas fases, que ainda não foram orçadas, depende da liberação de recursos do governo do Estado". Ainda não há data para a conclusão de todo esse processo envolvendo o Palacete Santo Meneghetti — nome oficial da estrutura em homenagem a seu primeiro proprietário.
A arquiteta e urbanista Flavia Boni Licht, neta do arquiteto italiano que projetou o edifício, Armando Boni, destaca a importância de recuperar esse item do patrimônio público gaúcho.
— Podemos e devemos sempre pensar em por que é importante preservar nosso passado. As cidades e suas edificações, e aí incluo o Palacinho, devem ser respeitadas pois nessas pedras, nos tijolos, azulejos e vitrais estão nossa cultura, nossa história, nossa memória. Sem elas, perdemos nosso sentido como sociedade — sustenta Flavia, organizadora do livro Armando Boni — Entre o Clássico e a Modernidade.
Boni é autor de outras obras icônicas da Capital, como o prédio da Livraria do Globo e o antigo auditório Araújo Viana, demolido para dar lugar à Assembleia Legislativa. Durante a obra, as funções administrativas da Ospa e da sua escola de música estão deslocadas para o Centro Administrativo.
A história do Palacinho
- O palacete é um projeto residencial do engenheiro Armando Boni, nascido em 10 de julho de 1886 em Castelfranco, região da Emilia Romagna, no norte da Itália, e que decidiu morar em Porto Alegre em 1910.
- No começo do século passado, o engenheiro lecionou a então inovadora disciplina de "Concreto Armado" na Escola de Engenharia de Porto Alegre, introduzindo essa tecnologia em obras como o prédio da Livraria do Globo, no Centro Histórico — também de sua autoria.
- O prédio foi construído na década de 1930 por encomenda do empresário italiano Santo Meneghetti. A intenção era receber no local o genro do ditador Benito Mussolini, conde Galezzo Ciano, em uma viagem que não chegou a ocorrer.
- Em 1954, foi desapropriado e passou a fazer parte dos bens públicos do governo estadual, para ser utilizado como sede do Departamento de Serviços Públicos.
- Durante alguns anos, foi utilizado pelo Conselho de Cultura e, um pouco mais tarde, pela então Secretaria de Planejamento. Apenas em 1971 passou a funcionar como gabinete do vice-governador. Foi ainda usado por outras instituições e permaneceu fechado por um período, até ser concedido para a Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre em 2017.
- Por sua importância histórica e arquitetônica, foi tombado pelo patrimônio histórico em 1995.
O prédio
- A estrutura fica em um terreno de esquina de 500 metros quadrados, com subsolo, dois pavimentos e terraço, e área total de 2.134 metros quadrados
- Construído em alvenaria no limite da calçada, apresenta porão alto com janelas gradeadas, fachada basicamente neoclássica com elementos mistos, o que confere aparência eclética.
- O prédio ainda é rico em ornamentos, frisos, vitrais e pinturas.





