
Na ensolarada manhã de sábado, 21 de março, dezenas de interessados faziam fila para entrar no casarão que pertenceu ao célebre advogado Oswaldo de Lia Pires, em Porto Alegre, durante uma visitação pública aos bens domésticos que seriam leiloados. Um grupo de 15 pessoas preferiu se acomodar na calçada oposta, em cadeiras ou até no chão, com folhas brancas apoiadas sobre as pernas. Em um cartaz preso a uma placa de trânsito, lia-se: "Desenhe antes que destruam".
Uma semana depois, o imóvel icônico acabaria demolido de fato. Restaram os registros a lápis e tinta de sua fachada, feitos pelo grupo que tem como objetivo perpetuar, por meio da arte, referências arquitetônicas que desaparecem aos poucos da paisagem da Capital.
— Com frequência, somos surpreendidos pela notícia de que uma outra casa histórica será demolida. Tive a ideia de começar a desenhar esses casarões e levei a proposta para o pessoal do Urban Sketchers de Porto Alegre — afirma a artista visual Tina Perrone, mencionando o coletivo de artistas e arquitetos, com ação em diferentes países, que faz registros artísticos de paisagens urbanas.
O coletivo foi fundado na Capital em 2016, seguindo o exemplo de outras grandes cidades ao redor do mundo, e ganhou impulso após a pandemia, em 2022. Atualmente, de forma quinzenal, parte dos cerca de cem integrantes da iniciativa se reúne em algum ponto da metrópole para documentar uma edificação com relevância histórica ou arquitetônica.
O projeto Desenhe Antes que Destruam se tornou mais uma ação desenvolvida pelo coletivo com o objetivo específico de preservar a memória visual de Porto Alegre e estimular o debate sobre os limites da exploração econômica do espaço urbano.
Veja desenhos da casa de Lia Pires:
As obras são divulgadas por meio das redes sociais dos autores e do coletivo de artistas. Também já foram realizadas exposições com retratos de edifícios históricos da Capital.
— Tudo começou quando soubemos de um sobrado que seria demolido na Ramiro Barcelos. Começamos a desenhar enquanto a obra para destruí-lo já estava começando — conta a arquiteta e arte-educadora Veronica Daudt, 47 anos, em referência ao imóvel dos anos 1940 que se localizava no número 1.829 da rua e abrigou o café La Croissanterie até pouco tempo antes de vir abaixo.
Veronica é uma das coordenadoras do Urban Sketchers Porto Alegre, ao lado da aquarelista Sonia Benedetto e do arquiteto Ronaldo Mohr.
Nem a casa de Lia Pires, falecido em 2010, nem o sobrado azul e branco da Ramiro faziam parte da lista de mais de 2 mil imóveis sob a guarda do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre. A legislação estabelece duas formas principais de proteção:
- Tombamento: conforme documento da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (EPAHC) da Capital, busca "preservar integralmente as características originais de uma edificação, externas e internas, de acordo com sua importância", como o Paço Municipal ou o Mercado Público.
- Inventário: destinado a proteger as "características externas de conjuntos ou edificações consideradas de interesse sócio-cultural para a preservação de espaços referenciais de memória coletiva".
Como os imóveis recentemente destruídos não estavam listados em nenhuma dessas categorias, foram desfeitos sob permissão legal. Mesmo assim, o grupo de desenhistas critica a perda de locais que eram referências arquitetônicas e afetivas em diferentes regiões.
— Há um movimento mais amplo de especulação imobiliária que também atinge outras capitais como Curitiba, São Paulo. Acho que o papel da arte também é de denunciar isso, expor, incomodar às vezes. Quando é apenas bonita, acaba sendo apenas decorativa, e não sei até que ponto é arte mesmo — complementa Tina.
Arquiteta e presidente da seção gaúcha da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA/RS), Raquel Hagen defende a preservação de edificações que têm valor atestado por critérios técnicos, mas não vê uma destruição desenfreada na cidade:
— Demolições, construções e reconstruções fazem parte de uma cidade viva, que se movimenta e se adapta a novos contextos e realidades. Não acredito que exista uma tolerância excessiva a demolições. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que muitas edificações podem ter valor para uma família ou para a comunidade por razões que vão além das características físicas do imóvel. Por isso, a definição sobre o que deve ou não ser preservado precisa sempre ser feita com cautela, considerando tanto os aspectos de pertencimento e memória coletiva quanto os critérios técnicos da arquitetura e do urbanismo.
A despeito das questões legais, Veronica afirma que o grupo de artistas urbanos seguirá usando os pincéis e tintas para colocar em discussão a perda de outros casarões e edifícios antigos na Capital.
— Já estamos mapeando outros locais, recebemos informações de pessoas que entram em contato com a gente — garante a coordenadora do Urban Sketchers.

O que diz a prefeitura
"A Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Divisão de Patrimônio e Memória, atua na preservação do patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre, reconhecendo sua importância para a valorização da identidade e da memória da cidade. Atualmente, a Capital conta com mais de 2 mil imóveis protegidos por meio de inventário e cerca de 100 bens tombados na esfera municipal.
Os processos de inventário e tombamento seguem critérios técnicos rigorosos, fundamentados em estudos históricos, arquitetônicos e urbanísticos, além de observarem a legislação vigente. Esses procedimentos são conduzidos por equipe técnica especializada em patrimônio histórico, podendo também ser iniciados a partir de solicitações externas.
A proteção dos bens considera critérios estabelecidos nas leis municipais, sendo necessário o enquadramento do imóvel nas categorias previstas. O inventário é regido pela Lei nº 12.585/2019 (e alterações posteriores), enquanto o tombamento segue a Lei Complementar nº 275/1992. Atualmente, encontram-se em estudo os imóveis dos Sítios Rurais para avaliação dos bens que poderão integrar a listagem de proteção do município.
A Administração Municipal reafirma seu compromisso com o fortalecimento das políticas de preservação, com o objetivo de proteger e valorizar o patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre."
O que diz o Sindicato da Construção Civil
"O Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS) reconhece que compete à Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (EPAHC), vinculada à Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre (SMC), a gestão dos bens culturais de propriedade do Município, sejam eles tombados ou considerados de interesse para preservação.
Cabe a esses órgãos, no exercício de suas atribuições legais e técnicas, avaliar a relevância histórica, cultural e ambiental dos imóveis, definindo as medidas adequadas e factíveis para sua proteção.
Ao Sinduscon-RS, assim como ao setor da construção civil que representa, cumpre observar e respeitar as diretrizes estabelecidas pelas instituições competentes. Nesse contexto, a entidade também ressalta sua legitimidade para contribuir com o debate público, seja por meio de questionamentos, seja pela apresentação de sugestões relacionadas a processos de tombamento ou de interesse de para preservação."


