O Museu de Arte do Paço Municipal guarda mais do que obras de arte: a antiga sede da prefeitura de Porto Alegre também abriga segredos e espaços pouco conhecidos do público.
No porão, a antiga cela onde ficavam os detentos ainda pode ser vista, com as grades preservadas. Uma sala com pilares de tijolos lembra um pequeno salão, e corredores levam a outros espaços. Os tijolos da fundação são originais da construção. Em alguns, há estrelas estilizadas — representando a marca da olaria responsável por sua fabricação.
Um robusto cofre Berta, modelo Phenix, destaca-se no lado mais próximo da Rua Uruguai. No espaço onde antes o dinheiro ficava protegido, agora cabem várias pessoas. Fundada por Emmerich Berta e depois assumida por Alberto Bins, no final do século 19, a Fundição Berta foi pioneira na cidade e ficava localizada na Rua Voluntários da Pátria.
Outra relíquia da história da cidade pode ser apreciada no porão: a cuba superior da Fonte Talavera de la Reina, danificada durante uma manifestação em 2005. Concebida pelo artista Juan Ruiz de Luna e produzida em Talavera, na Espanha, a peça teve sua montagem sob responsabilidade do arquiteto Fernando Corona, espanhol radicado na Capital.
Após a parte superior da fonte ter sido quebrada por um manifestante, uma nova cuba e o eixo foram encomendados à Artesania Talaverana. Porém, foi impossível reproduzir a bacia maior, que acabou substituída por uma peça similar. A parte original danificada está no porão do Museu.
O espaço abriga ainda esculturas de artistas como Vasco Prado, Ernesto Frederico Scheffel e Carlos Tenius. Deste último, encontra-se ali a maquete do Monumento aos Açorianos, que deverá passar por restauro em razão dos danos causados pela enchente de maio de 2024. Por enquanto, a peça permanece coberta por uma lona preta.
— O porão pode ser visitado pelo público. Mas no momento, em função da enchente, está fechado temporariamente. As obras serão restauradas no segundo semestre — explica o museólogo Luiz Mariano.
Conforme o profissional, a cheia inundou completamente o porão e chegou até o teto do pavimento, que ficou com água por cerca de um mês. Tudo já foi limpo, e a ideia é voltar a utilizar o espaço para novas exposições.
Outra curiosidade: o filme Legalidade (2019), dirigido por Zeca Brito e estrelado por Leonardo Machado, Cleo Pires, Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto, entre outros, teve cenas filmadas neste porão.
Em 2025, o Museu de Arte do Paço recebeu 90 mil visitantes. Aberto de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, o espaço tem entrada gratuita e não funciona nos fins de semana. Fica na Praça Montevidéu, 10, no Centro Histórico de Porto Alegre.
O gato que passa despercebido
No segundo pavimento do Museu de Arte do Paço Municipal, há uma escada metálica em caracol. Também da marca Berta, ela leva o visitante ao sótão do prédio. A partir dali, é possível chegar ao telhado, percorrer as quatro fachadas e subir, por meio de outra escada mais rústica, até o torreão, que lembra um campanário.
Por questões de segurança, porém, esses espaços superiores não estão abertos ao público.
— Tem versões de que essa escada de ferro em caracol foi fabricada aqui ou trazida de fora e montada pela Fundição Berta — compartilha o museólogo.
A reportagem de Zero Hora percorreu o caminho até o sótão, acessou o telhado e ainda o contornou. Na fachada voltada para a Praça Montevidéu, diversas estátuas se destacam (confira, mais abaixo, seus significados).
Chama a atenção um detalhe em particular, impossível de ser visualizado do chão. Junto aos pés da estátua da República (situada à direita do torreão e do relógio), um gato foi esculpido. O felino olha em direção ao Mercado Público.
Em dezembro de 2013, o historiador da arte José Francisco Alves abordou a presença do gato na fachada em texto publicado na revista Tes xOH, do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs):
"Os artistas ou artífices porto-alegrenses da oficina de Pedro Gustavo Steigleder recorreram ainda mais aos clássicos, ao introduzirem o gato na representação, e mostraram seu conhecimento iconológico ao entenderem a República como uma alegoria moderna enquanto um desdobramento da alegoria Liberdade. (...) Ele está praticamente escondido, na barra do vestido da alegoria, o que o torna virtualmente invisível para quem observa a fachada, metros abaixo, na Praça Montevidéu".
História da edificação
O prédio onde hoje localiza-se o Museu de Arte do Paço foi construído por determinação do intendente José Montaury. No local, antes funcionava a chamada Doca do Carvão, que foi aterrada. O projeto da edificação é do italiano João Antônio Luiz Carrara Colfosco, tendo ficado responsável pela construção João Cattani.
Denominado Paço dos Açorianos, de acordo com lei de 1973, o imóvel foi projetado em linguagem historicista, com estatuária alinhada à doutrina positivista. No alto do prédio, foram instaladas as primeiras esculturas públicas do século 20 na cidade.
A edificação, declarada patrimônio histórico pelo município em 1979, foi sede da prefeitura e passou por uma grande reforma em 2003. Em 2022, a gestão do prédio foi transferida para a Secretaria Municipal de Cultura, transformando-o em museu de arte.
A Pinacoteca Aldo Locatelli fica em suas dependências. Os vitrais de Joseph Wollman e as pinturas de Carlos Scliar, no Salão Nobre, são outros destaques.
Ornamentos do prédio
Segundo afirma José Francisco Alves, em A Escultura Pública de Porto Alegre, "os ornamentos escultóricos do prédio já foram atribuídos a diversos autores e procedências, conforme cada pesquisador".
Na parte superior da fachada, podem ser vistas figuras que representam a Agricultura (Ceres), o Comércio (Mercúrio) e a Indústria (à esquerda, junto à Rua Uruguai). No outro extremo, junto à Avenida Borges de Medeiros, aparecem a Liberdade, a Ciência e a Arte. Há ainda duas figuras mais próximas ao torreão, no centro: a Justiça (à esquerda) e a República (à direita).
Ao centro, é possível ver o brasão da República e os bustos de José Bonifácio (E) e Deodoro da Fonseca (D). Mais abaixo, foram reproduzidas as efígies do presidente do Estado, Júlio de Castilhos (E), e do presidente da República, Floriano Peixoto (D).
Quatro leões em mármore de Carrara, na Itália, aparecem em frente às escadarias e portas laterais. Teriam sido executados por Carlos Fossati, nascido em Turim e falecido na Capital. As esculturas foram instaladas no local em 1911.
"Tendo em vista as referências de Doberstein (Arnoldo Walter Doberstein, professor e historiador), as estátuas da platibanda e os bustos da torre devem ter sido realmente executados até 1901 pela firma P. Gustavo Steigleder & Irmão (sendo sócios Pedro Gustavo Steigleder e Germano Steigleder Sobrinho). Seu material é argamassa de cimento sobre alma de ferro", escreve Alves na obra.
O que funcionou ali no passado
Conforme relata Sergio da Costa Franco em Porto Alegre – Guia Histórico, a construção teve início em 28 de setembro de 1898 e foi concluída em abril de 1901. A inauguração ocorreu em maio do mesmo ano. A área do Paço passou a ser chamada de Praça Municipal e, apenas em 1916, recebeu o nome de Praça Montevidéu, em homenagem à República do Uruguai.
Por sua vez, a construção e o ajardinamento do espaço em frente ao edifício – que por anos abrigou a fonte A Samaritana – foram obras do intendente Otávio Rocha, em 1927. Nas comemorações do centenário da Revolução Farroupilha, em 1935, foi instalada a Fonte Talavera de la Reina, oferecida à Capital pela colônia espanhola residente no Estado.
No passado, ainda segundo Franco, funcionaram na edificação o gabinete do intendente, o Conselho Municipal, a Secretaria, a Contabilidade, a Tesouraria e a arrecadação de tributos, além do Arquivo, da Inspetoria de Veículos, da Assistência Pública e do 1º Posto Policial, com o respectivo "xadrez".
