Uma média de 7,5 milhões de passageiros circula pelo Aeroporto de Porto Alegre a cada ano. Por trás da movimentação de pessoas, bagagens e pacotes, há olhos atentos em diferentes setores para garantir a segurança do que entra e sai dos terminais.
— A Receita Federal, como aduana no aeroporto, é responsável pela entrada e saída de mercadorias internacionais, o controle de bagagem dentro do aeroporto e o controle de aeronaves que chegam do Exterior — afirma Erno Edison da Cunha, chefe da equipe da aduana no aeroporto da Capital.
A fiscalização tem como objetivo localizar mercadorias acima da cota permitida e produtos ilegais, como drogas.
Para entender esse trabalho, a reportagem de Zero Hora foi conhecer os bastidores da área restrita do aeroporto.
O auxílio de cães farejadores

As vistorias contam com o auxílio de cães de faro. Os animais são acionados quando há suspeitas específicas de entorpecentes, identificadas pelo sistema de inteligência da Receita Federal. Eles também realizam rondas em setores do aeroporto, como o terminal de cargas, por onde passam mercadorias, e nas áreas de embarque e desembarque, tanto domésticas quanto internacionais, onde circulam passageiros.
Os cães atuam ainda em verificações em transportadoras e no centro de distribuição dos Correios.
Uma das K-9 (key-nine, um trocadilho para canine, ou seja, canino em inglês) é Sofia, uma pastor belga malinois de cinco anos.
A servidora da Receita Federal Ivy Roth, condutora de Sofia, explica que os cães buscam a recompensa e agem como se todo o processo fosse uma caça. Ao localizar o odor para o qual foram treinados, eles sentam ou deitam diante do alvo suspeito. O “prêmio”, no caso de Sofia, é a bolinha.
— Aí perguntam: eles são viciados? Não, eles não têm contato nenhum (com as drogas). Se tivéssemos ensinado para ela que, com achocolatado em pó ou café, sairia uma bolinha, ela identificaria café e achocolatado. Então, não são viciados em nada. São viciados em bolinha mesmo, em brinquedo — responde Ivy.
Durante a visita da reportagem, foi realizada uma simulação com Sofia. Uma caixa com droga foi escondida entre diferentes pacotes e, em um segundo momento, entre malas. Ao receber o comando, a cadela se mostrou ativa e cheia de energia, pronta para cumprir a missão. Em poucos minutos – ou nem isso –, indicou a localização do entorpecente.
Treinamento e comandos em alemão

No Aeroporto de Porto Alegre, Sofia tem uma colega canina, Astra – que estava em treinamento externo no dia da visita de Zero Hora. As duas foram treinadas para identificar entorpecentes. Em nível nacional, a Receita Federal também conta com animais especializados na detecção de tinta de dinheiro, munição e explosivos, entre outros.
Os cães farejadores passam por um centro nacional de treinamento ainda filhotes e, após “escolherem” um condutor, são direcionados a um local específico de atuação. Foi assim com Sofia e sua condutora, Ivy.
Os comandos são dados em alemão. Não há uma explicação única para isso, mas Ivy menciona duas hipóteses: uma aponta que o idioma é menos comum, o que reduz o risco de o cão se confundir com falas de outras pessoas, e a outra destaca a tradição e a força da escola alemã de adestramento.
Entre os cuidados, as duas servidoras caninas têm alimentação apenas com ração, consultas veterinárias a cada 15 dias e momentos para brincar e passear. Em Porto Alegre, fora do “horário de trabalho”, elas ficam em um canil nas dependências do aeroporto.
"Humanamente impossível"

Para os servidores, o auxílio dos cães farejadores traz uma certeza: se o animal indica um lugar, é porque, de fato, farejou algo ilícito por ali.
Como define a servidora Daiane Pilau, integrante da equipe de cães de faro, trata-se de uma “fiscalização não invasiva”. Ela acrescenta:
— Imagine nós, sem os cães, para analisar tudo isso. É humanamente impossível. Mesmo com o uso de scanner, não há como verificar caixa por caixa. Seria um atraso e um desgaste absurdos.
Os cães são aposentados por volta dos 10 anos.
No caminho dos passageiros

Além da verificação das mercadorias que chegam e saem do aeroporto, a Receita Federal também inspeciona as áreas de passageiros. Um dos pontos é o desembarque, onde a atenção, já existente, é redobrada em voos que chegam do Panamá e de países da Europa, por conta da probabilidade de transporte de drogas.
Após o avião ser descarregado, as malas são colocadas na esteira para os passageiros pegarem. Os cães de faro sobem em cima do local, analisando a sequência de bagagens.
No dia em que Zero Hora acompanhou o procedimento, um coro carinhoso ecoou assim que a cadela apontou a localização da mala suspeita que fazia parte da simulação.
Após pegar a bagagem, o passageiro pode se dirigir a dois corredores. Em um deles, voltado a quem tem mercadorias a declarar, as malas passam por um raio X. Se houver algum item suspeito, os servidores abrem a bagagem para análise.
No outro corredor, destinado a quem não tem bens a declarar, é feito um reconhecimento facial. Os servidores também selecionam algumas pessoas para que passem as bagagens pelo raio X.
— De 15% a 20% dos passageiros do voo são inspecionados, dependendo do tipo de voo — detalha Erno.
Essa escolha de passageiros pode ser aleatória ou baseada em informações já obtidas.
— Fazemos uma análise de risco prévia para ver quais pessoas podem ter algum interesse de fiscalização para Anvisa, para o Ministério da Agricultura e Pecuária. Na hora, também fazemos uma seleção, com base nos comportamentos — explica o auditor fiscal Ricardo Zanotto.
O que não pode
- O passageiro pode trazer, no máximo, US$ 1 mil em mercadorias do exterior. Acima desse valor, é necessário pagar taxa
- Se os itens têm destinação comercial, o passageiro perde tudo
- No caso do transporte de drogas, o passageiro recebe voz de prisão da Receita Federal, que atua em parceria com as polícias Federal e Civil
