Barracas e lonas estendidas sobre o novo calçadão da Rua dos Andradas escondem parte da revitalização do Centro Histórico e servem de vitrine para comércios irregulares que vendem brinquedos, roupas e eletrônicos, entre outros produtos.
A volta da presença ostensiva de camelôs no coração da Capital é criticada por frequentadores e entidades lojistas, que dizem viver um flashback de décadas passadas. Ainda que, em 2022, no início das obras de revitalização do Quadrilátero Central, o prefeito Sebastião Melo tenha prometido que, quando os trabalhos ficassem prontos, ambulantes não poderiam mais usar as ruas do Centro Histórico para vender produtos.
— Quando o camelódromo (Pop Center) foi construído, tinha cliente para todo mundo no Centro. Agora, a disputa com os camelôs ficou ainda mais injusta. Eu pago imposto, eles não — diz o comerciante Amir Shan, dono de uma loja de roupas no Centro Histórico.
Melo manteve a afirmação ao passo que as intervenções ocorriam, ressaltando, inclusive, que esse era o seu compromisso e que vinha avisando aos ambulantes. Porém, findados os trabalhos no mês passado, a oferta nas calçadas segue a pleno, principalmente na Rua da Praia e na Avenida Borges de Medeiros.

O entorno do abrigo dos bondes, na Praça XV de Novembro, também é ponto de ambulantes. Ali, eles vendem produtos usados encontrados no lixo, como bolsas, sapatos e bonecas. Até aparelhos de ginástica são anunciados na calçada. Alguns estendem lençóis, roupas e toalhas em grades, o que indica que podem estar morando no local.
Quem fiscaliza o espaço é a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos. Procurada pela reportagem, a pasta disse que envia "constantemente" equipes ao local para coibir esses atos. A Brigada Militar, que inclusive tem um posto junto ao antigo abrigo dos bondes, diz o mesmo e acrescenta que recebe diversas queixas de ameaças feitas por estes ambulantes a frequentadores da região.

Prefeitura fala em contratação de novos ficais
Comerciantes no entorno dos locais onde os camelôs atuam acusam a prefeitura de ser conivente com a venda de produtos nas calçadas. Procurada, a gestão municipal diz que equipes circulam diariamente pela região central realizando ações de fiscalização.
"A expectativa é que o trabalho seja reforçado com a unificação do plano de carreira dos agentes de fiscalização e com a realização de concurso público para a contratação de 50 novos fiscais", diz trecho de nota enviada a Zero Hora.
Ainda de acordo com a prefeitura, em 2025 foram registradas 184 apreensões na região do Centro Histórico, no eixo das Rua dos Andradas, Avenida Borges de Medeiros e entorno do Mercado Público. Neste ano, já foram mais de 20 apreensões nas mesmas regiões.

Ambulantes indígenas
De acordo com o secretário geral do Governo de Porto Alegre, André Coronel, os atuais vendedores na Rua dos Andradas não podem ser retirados pela prefeitura por serem indígenas. Para este caso, a gestão municipal diz que há conversas com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para providenciar a realocação dessa população.
Por muitos anos famílias indígenas venderan artesanato em ruas do Centro Histórico, em especial em datas comemorativas. Ao circular pela Andradas na semana passada, contudo, a reportagem verificou que não há somente esses ambulantes, e quase não se encontra mais oferta de artesanato. A maioria das peças expostas são brinquedos falsificados e eletrônicos de procedência incerta.
Quando a informalidade cresce sem controle, cria-se uma concorrência claramente desigual. Enquanto alguns empreendedores assumem todos os custos e responsabilidades da atividade econômica formal, outros passam a atuar sem as mesmas obrigações, ocupando espaços públicos e competindo diretamente pelos mesmos consumidores.
CARLOS KLEIN
Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA)
No ano passado, a prefeitura chegou a levantar a ideia de construir um centro para venda de produtos de ambulantes indígenas na Rua José Montaury. A proposta, porém, foi recusada pelos vendedores informais.
— A gente sempre trabalha, em um primeiro momento, de forma orientativa. Tentamos uma interlocução com o Ministério Público Federal para construir uma solução para essas pessoas. Levamos isso para muitas reuniões — afirma o secretário geral André Coronel.
Zero Hora entrou em contato com a Funai, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

Local apropriado tem 200 lojas desocupadas
Em 2009, o então prefeito José Fogaça criou um centro comercial para abrigar camelôs em Porto Alegre. O espaço, apelidado de "camelódromo" e "shopping dos ambulantes" foi cedido, após licitação, para uma empresa privada administrar.
Depois, o espaço veio ser chamado de Centro Popular de Compras, conhecido como Pop Center. Prestes completar 17 anos em 2026, o centro comercial ainda abriga ambulantes que decidiram se regulamentar no passado — a maioria vende roupas, brinquedos e eletrônicos. Contudo, o local está hoje com mais de 200 lojas desocupas.

De acordo com a CEO do Pop Center, Elaine Deboni, já houve diversas tentativas de atrair ambulantes que estão hoje nas ruas para o centro comercial
Já tentamos de tudo para trazer esses novos ambulantes. Eles não querem. A gente senta para conversar e eles nem ouvem a proposta. Se fazem que não entendem o que a gente diz. Ainda são violentos com os fiscais.
ELAINE DEBONI
CEO do Pop Center
Hoje, o aluguel de um espaço no Pop Center parte de R$ 64 pelo metro quadrado. O pagamento deve ser feito semanalmente.
— Aqui, devem atuar dentro da lei. Estamos com esses espaços vazios porque vendedores se aposentaram ou por causa da enchente. Não fomos atingidos, mas alguns que estavam aqui perderam tudo e foram para o Interior — argumenta Elaine.
Um projeto de lei enviado pelo prefeito Sebastião Melo à Câmara de Vereadores autoriza que microempresários e microempreendedores individuais (MEIs) ocupem lojas vazias do Pop Center.

Presidente da Federação das Associações Gaúchas do Varejo (FAGV), Vilson Noer lembra o efeito da criação do camelódromo para o comércio do Centro Histórico. A ideia do shopping para ambulantes surgiu em viagens para outros Estados junto com o vereador Idenir Cecchim, ex-secretário municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) na gestão de Fogaça.
A Rua da Praia já foi um dos pontos mais caros de Porto Alegre. A presença de ambulantes afastou o nível de clientes que conseguimos atrair, que eram da classe média.
VILSON NOER
Presidente da Federação das Associações Gaúchas do Varejo
O representante varejista diz que, na época, enquanto presidente da CDL-POA, ele e outros interlocutores conseguiram atrair marcas como Renner, Marisa, Riachuelo, Hering e Beagle para a Rua dos Andradas. Nos últimos três anos, todas elas fecharam lojas na rua. Dessas, somente a Marisa mantém ainda uma das duas operações que tinha na via.
— Não adianta criar ruas bonitas, calçadas legais e encher de ambulantes e camelôs. No fim de tarde não se consegue nem caminhar. Falta vontade politica — conclui Noer.


