Por volta do meio-dia da última quinta-feira (26), Bibiana Matte, CEO e fundadora da empresa gaúcha Núcleo Vitro, havia acabado de fazer dormir o filho William, de quatro meses, quando recebeu uma ligação que mudaria o seu dia. Foi informada de que estava entre os 10 negócios que chegaram ao round final da competição de startups do South Summit Brazil. Bibiana ainda não sabia, mas era apenas o começo do ápice da presença do empreendimento no evento. A Núcleo Vitro é uma das cinco vencedoras dessa edição da batalha, levando o troféu de startup Mais Disruptiva.
O laboratório desenvolve modelos biológicos para testes de segurança e eficácia de produtos, o que elimina a necessidade de cobaias animais.
Durante os três dias de evento, Bibiana se dividiu entre os cuidados demandados por um bebê e a participação na competição, que incluiu duas rodadas de pitches e a apreensão nas fases de qualificação.
A reportagem de GZH acompanhou a empreendedora em parte de sua jornada na disputa do South Summit.
O caminho vivido por Bibiana sintetiza o primeiro passo de muitos finalistas da competição de startups do South Summit. A batalha é um dos palcos mais disputados e tradicionais do evento, que ocorre no Cais Mauá, em Porto Alegre, desde 2022 na edição brasileira.

Dia 1: o pitch
A competição de startups é dividida em cinco verticais. A rodada da categoria na qual a Núcleo Vitro se encaixa seria a primeira do evento, marcada para as 10h de quarta-feira (25). Prevendo movimento maior na cidade em razão do evento, Bibiana contatou um primo que tem uma empresa de transporte executivo para evitar desencontros ou imprevistos com outros tipos de transporte público. Mesmo assim, não escapou de uma dose a mais de emoção.
Morando na zona norte da Capital, o trajeto da empresária começou pelas avenidas Sertório e Voluntários da Pátria em direção à Avenida Mauá. Esbarrando em um tráfego mais abarrotado do que o normal, decidiram fazer um retorno e seguir pela região da Santa Casa e pela Avenida Loureiro da Silva para chegar ao outro lado.
Deu certo, mas ela chegou com apenas 15 minutos de antecedência na Arena The Next Big Thing, palco da sua apresentação. Era a nona e última a se apresentar, o que deu a ela a chance de ver o que funcionava e o que não estava saindo tão bem nos outros pitches, como a gestão dos três minutos de palco, durante os quais ela teria de resumir anos de trabalho, diante de centenas de pessoas, incluindo jurados.
Nessa primeira rodada, os representantes das startups precisam usar bem esse naco de tempo para aumentar as chances de estarem entre os 10 negócios que vão disputar a rodada final em busca dos cinco lugares no pódio.
Bibiana foi microfonada, falou com a equipe, recebeu as últimas instruções dos organizadores e aguardou sua vez. Calma e concentrada, apenas flertava com o nervosismo, esfregando as mãos e mexendo no cabelo.
— A sensação é aquela coisa de boca seca. Mas também estou muito animada. Minha equipe está aqui presente, pessoas muito conhecidas, queridas, que vão estar vibrando por essa biotecnologia nacional que a gente está expondo para um evento internacional — resumiu.
Pouco antes de subir ao palco, recebeu da mãe uma foto do filho tomando uma dose de leite materno na mamadeira. Amamentando praticamente em tempo integral, ficar horas fora de casa foi uma preocupação na rotina de Bibiana durante a competição. Ao ver o filho bem e alimentado, recebeu injeção extra de confiança para enfrentar o palco da arena.
Um pequeno imprevisto com o passador de slides roubou uma fatia do escasso tempo da empresária, tirando alguns segundos da apresentação. Rapidamente recalculou a rota, colocou esses segundos a menos na conta e acelerou a apresentação, mas nada que tenha prejudicado o pitch. Resumiu a atuação do laboratório, especializado em estudos de eficácia in vitro, como a produção de tecidos que mimetizam a pele humana para testes sem a necessidade de cobaias humanas ou animais.
— Não somos apenas um laboratório de testes. Construímos modelos biológicos relevantes para humanos para realmente avaliar a segurança e a eficácia do produto de uma forma mais rápida e preditiva — esclareceu em trecho da apresentação.
Também destacou o fato de a Núcleo Vitro trabalhar com mais de 350 clientes em 12 países, registrar crescimento anual consistente e ter plano de escalar globalmente nos próximos cinco anos.
Muito aplaudida após a apresentação, chegou o momento de responder aos jurados. Em dois minutos, recebeu três perguntas. O número de questionamentos acima da média demonstrou o interesse pela solução da empresa:
— Falar de biotecnologia é sempre um desafio, né? Explicar o que é cultura de células, construção de órgãos, organ-on-a-chip. Então, ter tido bastante perguntas dos jurados me mostrou que a gente conseguiu comunicar isso de uma forma muito clara.
Vencendo essa primeira etapa da incursão no South Summit Brazil, Bibiana aproveitou o restante do dia para conversar com outras startups, principalmente da área de saúde, sobre o cenário atual e os desafios atuais de cada uma. Também trocou palavras com investidores e entidades do exterior em busca de parcerias para acelerar a internacionalização da empresa.
Dia 2: top 10 e pitch final
Pouco mais de 24 horas depois, na mesma arena The Next Big Thing, a organização do South Summit estava prestes a anunciar os 10 finalistas que iriam para a rodada final em busca das cinco primeiras colocações. Esse grupo seleto é formado pelos dois melhores colocados em cada uma das cinco categorias. Bibiana não estava presente em razão dos cuidados do filho recém-nascido. Mas membros da equipe da Núcleo Vitro estavam no local.
Os primeiros finalistas eram do ramo Health, do qual a Núcleo Vitro faz parte. Os organizadores abriram o primeiro envelope e anunciaram o nome da primeira finalista: a Flomics, da Espanha. Uma pequena quebra de expectativa entre os membros da startup gaúcha aumentou a apreensão. Restava apenas mais uma chance, confirmada na abertura do segundo envelope, com o nome da Núcleo Vitro. Em frenesi, colegas de Bibiana ligaram para a empreendedora via chamada de vídeo. Com sorriso de orelha a orelha, disse que segurava o grito para não acordar o bebê, que dormia tranquilo no carrinho, sem saber ainda que a mãe vivia um dos momentos mais felizes na carreira empreendedora.
Nova apresentação
Três horas e meia após a festa pela chegada ao top 10, Bibiana já tinha de focar no desafio seguinte. As vencedoras de suas categorias agora precisavam realizar um pitch final. O palco também mudou, com a Arena Stage, galpão principal do evento, abrigando as últimas apresentações antes do veredito, que viria no dia seguinte.
Com plateia lotada, a reportagem teve dificuldade em localizar Bibiana. Após uma busca sem sucesso, a avistamos ao lado do palco, já microfonada e esperando sua vez. Naquele dia, ela seria segunda a falar. A executiva nos viu, deu um sorriso e abanou.
Parecia calma, mas voltou a dar sinais de inquietação e preparação. Bebia pequenos goles de água e mexia no cabelo com frequência. Logo em seguida, ajustou a postura, arrumou a roupa, como quem estava prestes a entrar em um ringue.
Durante três minutos, voltou a destacar os atributos da empresa e o setor de biotecnologia. Respondeu às perguntas dos jurados e demonstrou calma e leveza durante o processo. Depois da apresentação, prestes a falar com Zero Hora, foi interceptada por uma mulher que elogiou o trabalho da Núcleo Vitro.
Bibiana contou que ficou mais calma naquela segunda apresentação após quebrar o gelo do primeiro pitch. No entanto, as próximas horas não seriam tão tranquilas diante da expectativa pelo resultado final:
— Agora, confesso que a ansiedade vai correr solta até amanhã, até o anúncio final, mas estou muito animada. A gente vai curtir hoje o dia, comemorar principalmente, e amanhã, com troféu na mão ou não, estamos muito felizes com o reconhecimento.
Dia 3: os finalistas
A sexta-feira (27) começou com Bibiana acordando por volta das 6h30min. Esse foi o horário do despertar do filho. Tentando tirar da cabeça o anúncio das cinco ganhadoras da competição, que ocorreria entre 16h e 17h, ela passou por um encontro com investidores no evento pela manhã, retornou para casa para amamentar William, fez uma reunião em seu laboratório e voltou ao Cais Mauá para fazer uma foto com as finalistas. Nesse momento, sua ficha começou a cair e a ansiedade a aumentar.
Por volta das 16h, na segunda fileira de frente à Arena Stage, palco do anúncio, tentava se concentrar nos discursos das autoridades, mas a cabeça volta e meia retornava para a divulgação dos ganhadores. Quando chegou o tão esperado momento, foi muito rápido. A Núcleo Vitro foi logo a primeira campeã anunciada, levando o troféu de Mais Disruptiva. Sorridente e num passo largo, recebeu a distinção e ficou perfilada com as demais vencedoras dessa edição.
Quase não acreditei. Veio uma descarga de adrenalina muito grande, uma felicidade de poder subir no palco e receber o prêmio. Ainda mais como a mais disruptiva. Diz muito sobre o que a gente vem tentando fazer, transformar a inovação científica e a biotecnologia em uma ferramenta que melhora a vida para as pessoas.
BIBIANA MATTE
CEO e fundadora da Núcleo Vitro
Depois, foi para uma sala reservada, onde recebeu cumprimentos de autoridades e em seguida teve tempo de comemorar devidamente com a sua equipe, que não escondeu a emoção.
Bibiana destacou que o reconhecimento mostrou que a empresa está no caminho certo e impulsiona o plano de expansão internacional.
— A Núcleo Vitro foi uma forma de eu seguir trabalhando com pesquisa, com muita aplicação na vida das pessoas. Mas não foi um caminho fácil. Consegui explicar o que a gente faz, mas ao mesmo tempo segui inovando. Sempre foi um desafio, mas eu trabalhei um pouquinho todos os dias e acho que hoje a gente está tendo o reconhecimento de todo esse trabalho — reforçou Bibiana.
Os planos agora são comemorar com a equipe, com a família e, principalmente, com William, que ela carinhosamente chama de amuleto da sorte.
Presente pelo quinto ano consecutivo no South Summit, o Grupo RBS é strategic media partner do evento.
South Summit 2026
A empresa
- Fundada em 2019, em Porto Alegre, a Núcleo Vitro é uma empresa especializada em testes laboratoriais in vitro para avaliação de segurança e eficácia de produtos, principalmente nas áreas de cosméticos, farmacêutica e nutracêutica.
- Um dos principais formatos de testes são realizados em pele artificial, sem recorrer a animais ou cobaias humanas.
- A CEO da empresa destaca que a ideia de negócio surgiu quando ela estava fazendo seu doutorado na UFRGS e identificou demanda por modelos alternativos ao uso de animais.
Identifiquei que existia uma demanda por métodos alternativos ao uso de animais para cosméticos e eu vinha desenvolvendo modelos de engenharia tecidual durante meu doutorado, então eu quis levar a pesquisa realizada na universidade para o mercado.
- Após anos estudando mercado, decidiu fundar a empresa. A empreendedora destaca que o início foi bastante desafiador em razão da “complexidade e novidade do assunto”. Mas, com o passar dos anos, foram conquistando mercado.
- Hoje, a equipe conta com sete pessoas. Seis são mulheres.
- Nos último anos, a Núcleo Vitro participou de programa de startups da Amcham Brasil, passou por um processo de incubação envolvendo empreendedorismo feminino no Instituto Caldeira e ganhou o primeiro lugar na turma tração da Região Sul no programa nacional Mulheres Inovadoras, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).













