
Não é de hoje que o 4º Distrito entra na pauta de anúncios da prefeitura de Porto Alegre. A antiga área industrial que engloba cinco bairros da Capital voltou a receber investimentos nos últimos anos a partir de incentivos anunciados pelo poder municipal. Depois da enchente, a empolgação baixou em parte do empresariado, e pairou a dúvida se esta região seguiria sendo atrativa para investidores.
Apesar de relatos de empresários insatisfeitos com o atual cenário, dados mostram que o número de empresas abertas no 4º Distrito depois da enchente superou o de CNPJs em funcionamento antes da tragédia climática. Para reter esses empreendedores e atrair novos moradores, a prefeitura anunciou um novo pacote de melhorias na região, intitulado de Plano de Desenvolvimento Urbano Sustentável do Distrito da Inovação.
A iniciativa prevê a criação de um Distrito de Inovação e de um novo parque às margens do Guaíba (veja abaixo), buscando transformar uma área específica do 4º Distrito, com melhorias em urbanismo, infraestrutura, drenagem e sustentabilidade.
Segundo o secretário do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, Germano Bremm, a iniciativa busca criar um ecossistema para o desenvolvimento econômico, tecnológico e cultural nos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Humaitá e Farrapos.
— É uma região muito industrial e carente de alguns investimentos, especialmente com grandes desafios de drenagem. Veio a enchente, que configurou ainda mais a necessidade de fazermos esses investimentos. Ao mesmo tempo que foi um desafio, foi uma oportunidade para acelerarmos recursos que já vinham sendo demandados — diz o secretário.
Os investimentos na região serão executados com orçamento que ultrapassa a cifra de R$ 1 bilhão, anunciou a prefeitura no último South Summit em Porto Alegre. O aporte virá de recursos próprios e de financiamentos obtidos com bancos internacionais.
— Temos, em andamento, o maior plano de investimento em infraestrutura da história da Capital. Esse aporte começa a sair do papel ainda neste ano, com a contratação de obras vitais em toda essa área — garante o diretor-presidente do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Vicente Perrone.

Distrito de Inovação
Em um perímetro que inclui o Instituto Caldeira, a Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, o Museu de Arte Contemporânea e o Vila Flores, a prefeitura criará o que está chamando de "Distrito de Inovação". O objetivo é estabelecer condições urbanísticas que possam elevar a população desta região de 11 mil para 51 mil pessoas.
Segundo o secretário Germano Bremm, o Distrito da Inovação abrange uma área de 251 hectares entre a Avenida Farrapos e o Lago Guaíba, e entre a Travessa São José e a Rua Álvaro Chaves.
— É uma parte pública que entra agora no sentido de qualificar a urbanidade. Um corredor verde fará essa conexão pela Voluntários da Pátria e Farrapos até o Instituto Caldeira, com diversos caminhos com urbanismo tático no entorno dessas áreas mais estratégicas. É um trabalho de muitas mãos — explica Bremm.
O projeto prevê também uma parceria com o Instituto Caldeira, hub de inovação no bairro Navegantes que passa por um processo de ampliação neste momento. Por meio do Comitê de Desenvolvimento Urbano, o Caldeira desenvolverá projetos, diagnósticos técnicos e trabalhará para atrair novas empresas para o Quarto Distrito.
— Quando o Instituto Caldeira completa cinco anos, reforçamos nosso compromisso com o futuro, em parceria com todos que estiverem dispostos a reinventar nossa cidade com base na inovação — afirma o CEO do Instituto Caldeira, Pedro Valério.
Um novo parque
Dentro do pacote de melhorias a serem feitas no 4º Distrito, a prefeitura quer construir um novo parque às margens do Guaíba. Chamado de Parque do Porto, o espaço terá 370 metros de extensão e 20 mil metros quadrados de área total.
A área pertence hoje à Portos RS, do governo estadual, que, na semana passada, assinou um protocolo de intenções para ceder o terreno ao município.
— O parque será a entrada do Distrito da Inovação. Na procissão de Navegantes, poderá chegar de barco ali. Dá para fazer passeios. É um cartão-postal da cidade — explica o secretário Germano Bremm.
A criação do novo parque, aliada às obras de infraestrutura na região, animou o presidente da Associação dos Empresários do 4º Distrito Vítimas da Enchente, Arlei Romeiro.
— O projeto, em si, é fantástico. Queremos vê-lo fora do papel. Saber que há recurso para transformá-lo em realidade nos anima muito. Era um sonho muito grande termos algo similar à Orla do Guaíba aqui no 4º Distrito. Essa área é um ativo que precisava ser recuperado — diz Romeiro, que completa:
— Queremos usufruir isso, ter segurança em relação a cheias. Se tudo isso se transformar em realidade, nos tornaremos atrativos para receber empresas e mais moradias. Mais gente traz segurança, que é um gargalo que temos hoje — completa o líder da entidade.
Urbanismo tático
Em fevereiro, a prefeitura anunciou a instalação do Escritório de Gestão e Monitoramento +4D. O órgão, vinculado à Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), irá otimizar a articulação entre secretarias e órgãos municipais para atuarem de forma integrada no desenvolvimento de projetos para o 4º Distrito.
No foco dos trabalhos entre 2026 e 2027, estão obras de infraestrutura, incluindo a criação de corredores verdes com urbanismo tático (ruas com calçadas largas, com ciclovias e com paisagismo). Recentemente, a primeira fase de um boulevard que ligará a Voluntários da Pátria ao bairro Moinhos de Vento foi entregue pela construtora ABF Developments.
— Compramos a área do prédio há 12 anos. Quando morei em Barcelona, comecei a olhar distritos industriais que foram revitalizados. São áreas bem localizadas, perto dos centros históricos. Com o tempo, foram mudando a vocação e passando a ser uma das áreas mais valorizadas dessas cidades. Aqui não seria diferente. Por isso apostamos no 4º Distrito — afirma o CEO da ABF, Eduardo Laranja.
Veja abaixo as premissas para o desenvolvimento dos projetos da prefeitura:
1. Infraestrutura verde e azul
- Clima + qualidade urbana;
- Implantação de jardins de chuva e soluções de drenagem sustentável;
- Arborização intensiva com foco em sombreamento urbano;
- Incentivos para sistemas de retenção e reuso de água pluvial;
- Criação de microclimas urbanos confortáveis.
2. Infraestrutura energética e de baixo carbono
- Rede de carregamento para veículos elétricos;
- Incentivo à adoção de energia solar nos empreendimentos;
- Estratégias de neutralização de carbono no território;
- Monitoramento das emissões.
3. Mobilidade inteligente e ativa
- Prioridade ao pedestre;
- Rede qualificada de ciclovias e micromobilidade;
- Redução da dependência do carro;
- Integração com o transporte público;
- Implantação de ruas completas.
4. Qualificação do espaço público
- Calçadas acessíveis e qualificadas;
- Incentivo a fachadas ativas no térreo;
- Iluminação urbana qualificada;
- Mobiliário urbano contemporâneo;
- Espaços de permanência e convivência.
5. Urbanismo para inovação
- Mistura de usos (moradia, trabalho e lazer);
- Ambientes que estimulem interação e criatividade;
- Espaços para startups, hubs e coworkings;
- Densidade inteligente.
6. Distrito Inteligente
- Implantação de sensores urbanos;
- Plataforma de gestão territorial integrada e pública;
- Monitoramento em tempo real;
- Uso de dados para tomada de decisão;
- Transparência e governança.



