Marcada pela murada de pedra e pela construção em estilo ibérico, a antiga casa do célebre advogado gaúcho Oswaldo de Lia Pires abriu as portas no sábado (21) para uma pequena multidão interessada em ver de perto os itens de decoração e mobília que serão leiloados pela internet nos próximos dias.
Como o imóvel foi vendido e deve ser entregue vazio, os herdeiros de um dos mais importantes criminalistas do país, falecido em 2010, decidiram oferecer centenas de itens da propriedade às melhores ofertas — a lista de bens inclui desde uma caldeira a querosene listada inicialmente por R$ 10 até um tapete oriental com lance de R$ 6 mil até a sexta-feira.
Cerca de 200 pessoas lotaram as vagas disponíveis para visitar o interior da moradia icônica de estilo eclético e influência de arquitetura espanhola, localizada na esquina das ruas Dom Pedro II e Marquês do Pombal, e fazer uma incursão por uma parte da história da Capital. Outras 150 acabaram em lista de espera, tamanho o interesse gerado pelo leilão e pela oportunidade de entrar no palacete de três pisos. Conforme a gerente da casa de leilões Santayana, Julia Vazquez, os pertences do advogado e de sua esposa, Dinah (que morreu em 2024), somaram 917 lotes — como cada lote pode conter mais de uma peça, a exemplo de jogos de copos ou talheres, serão oferecidos milhares de objetos aos interessados a partir desta segunda-feira (23).
Sobrinho-neto do criminalista, Brunno de Lia Pires explica que nenhum dos herdeiros teve interesse em ficar com a casa após o falecimento da matriarca, que fez questão de seguir o exemplo do marido e passar seus últimos dias no imóvel. Os familiares selecionaram os bens de maior valor sentimental e, como não havia espaço para abrigar o restante do acervo formado por livros e itens de escritório, mobília, louças, itens de decoração e utensílios domésticos em geral, a decisão foi leiloar o acervo remanescente.
— Como os herdeiros todos já têm casas montadas, que não teriam espaço para guardar todos esses itens, ficamos com algumas coisas, e muitos livros foram para o nosso escritório (de advocacia), mas, infelizmente, tivemos de encaminhar o restante para venda para entregar o imóvel vazio — afirma Brunno, também advogado.
O familiar explica que não pode dar detalhes sobre a venda do imóvel que, há décadas, domina a paisagem da Zona Norte. Confirma, apenas, que foi negociado com um investidor. A casa foi erguida em 1953, por outro proprietário, e adquirida por Lia Pires em 1967. O leiloeiro José Luis Santayana revela que mais de 90% dos objetos listados para venda já tinham lances prévios até o final de semana:
— Em casos como esse, em que o leilão está ligado ao nome de uma figura muito conhecida, o interesse aumenta muito.

Lia Pires acumulou fama e fortuna como um mestre na defesa de clientes perante o júri. Nascido em Montenegro, em 1918, logo se tornou reconhecido pela oratória envolvente, pelas tiradas espirituosas e pelo estilo inovador de atuação, que passou a incorporar aspectos psicológicos na tese central de suas argumentações. Algumas de suas estratégias se tornaram célebres, como a utilizada para defender, nos anos 1970, um sapateiro acusado de assassinar um vizinho que o insultava todos os dias. Matou-o com um tiro de calibre 12. No julgamento, Lia Pires iniciou assim sua manifestação:
— Excelentíssimo senhor juiz, presidente destes trabalhos.
Repetiu a frase uma segunda vez, uma terceira e uma quarta. Quando se preparava para mais uma saudação, foi interrompido pelo juiz, visivelmente irritado com a reincidência do cumprimento. Lia Pires respondeu:
— Eu o elogiei quatro vezes, e o senhor se irritou. Imagine se, como o meu cliente, o senhor ouvisse um palavrão todo dia.
O sapateiro foi absolvido. Representou ainda réus em casos polêmicos e de grande repercussão, como o ex-deputado Antônio Dexheimer, suspeito de ter assassinado o colega de Assembleia José Antônio Daudt. O jornalista Alexandre Bach, que escreveu um perfil do advogado para Zero Hora nos anos 1990, conta que ele respondia com bom humor a avaliações de que "só defendia culpados".
— Eu estava fazendo um longo perfil dele, e deixei essa pergunta para o último momento. Quando fiz, o olho dele brilhou e me respondeu: "se tu estivesses com um câncer mortal, tu iria para a fila do SUS ou procuraria o melhor especialista?" — recorda Bach.
O sucesso como criminalista e a imponência da moradia atraíram, durante décadas, olhares curiosos para o número 1.334 da Dom Pedro.
— Eu passava ainda criança aqui pela frente, e meu pai dizia "essa é a casa do Lia Pires". Era uma figura do nosso imaginário. Mesmo assim, não imaginava que a casa fosse tudo isso que estou vendo agora — conta a advogada Júlia Martins, 27 anos, que conseguiu uma vaga para visitar o espaço ao lado da mãe, a também advogada Ana Lúcia Martins, 62 anos, na manhã de sábado.
O imóvel de mil metros quadrados conta com sala de reuniões, sala de TV, escritório, suítes, copa, cozinha e uma escada em espiral que, vista de fora, ocupa a estrutura circular no centro da propriedade. Nos fundos, há um espaço de lazer com churrasqueira.
Julia Vazquez chama a atenção para algumas peças do catálogo como um tapete de pouco mais de 40 metros quadrados que fica na sala principal, uma cômoda bombê (de corpo curvo) de madeira, em estilo francês e um lustre de bronze. Há ainda itens de prata como talheres e bandejas. Mas também objetos bem mais prosaicos, desde botijões de gás até pequenos descansos de copos. Os itens foram inventariados e organizados pelo especialista Julio Lovato. Veja mais abaixo outros detalhes sobre o leilão e como participar.
Atuações emblemáticas de Lia Pires
- Defendeu o ex-delegado Pedro Seelig, do extinto Departamento de Ordem Política e Social (Dops), e conseguiu absolvê-lo da acusação de participar do sequestro do casal de uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, em 1978.
- Na década de 1980, atuou como advogado do ex-prefeito de Tramandaí Elói Braz Sessim, acusado de corrupção e desvio de dinheiro público.
- Em agosto de 1990, em um dos casos mais rumorosos da crônica policial gaúcha, foi defensor do então deputado estadual Antônio Dexheimer e ajudou a absolvê-lo da acusação de ter assassinado o também deputado José Antônio Daudt.
- Atuou pela última vez no Tribunal do Júri em dezembro de 2009, já com 91 anos, quando participou da defesa do coronel Edson Ferreira Alves e do tenente-coronel Arlindo Rego, da BM, acusados de homicídio após uma ação que resultou na morte de dois homens que haviam matado uma brigadiana.
Outras peças de destaque no leilão
- Uma tapeçaria feita à mão, de Almir Tirelli.
Valor inicial: R$ 2,5 mil - Quadro de José Luztemberger.
Valor inicial: R$ 4,5 mil - Coleção de livros de Direito de Pontes de Miranda.
Valor inicial: R$ 800 - Lustre em bronze de sala de jantar.
Valor inicial: R$ 750 - Escrivaninha pessoal de Lia Pires, de madeira.
Valor inicial: R$ 500 - Escultura em bronze de Xico Stockinger.
Valor inicial: R$ 3,5 mil
Como participar do leilão
- Acessar o site da empresa de leilões
- Criar cadastro ou fazer login
- A lista de leilões ativos traz um link para a oferta dos itens da biblioteca pessoal de Lia Pires, e outro para o acervo residencial dele e da esposa Dinah
- É possível ver fotos, detalhes e fazer lances pelos itens
- Embora seja possível antecipar lances, os leilões ocorrerão nas seguintes datas e horários:
- Dia 23 de março, a partir das 14h - Leilão da biblioteca pessoal de Lia Pires
- Dias 24, 25 e 26 de março, a partir das 14h - Leilão do acervo residencial



