A instalação dos contêineres verdes em Porto Alegre completou um ano. De acordo com a prefeitura, a avaliação acerca dos equipamentos destinados para o descarte de materiais recicláveis é positiva. No entanto, a eficácia ainda é vista com ressalvas por especialistas, que apontam a necessidade de melhorias em meio a desafios como a falta de estrutura em unidades de triagem e o alto índice de incêndios e atos de vandalismo.
Os modelos são compostos de Polietileno de Alta Densidade (PEAD), uma espécie de plástico atóxico e de alta resistência. O objetivo com a novidade, era de mecanizar a coleta seletiva na Capital e aprimorar o tratamento de resíduos, uma vez que boa parte da população descartava resíduos recicláveis em contêineres para materiais orgânicos, fazendo com que materiais que poderiam ser reaproveitados fossem jogados no aterro sanitário.
Ao longo desses 12 meses, foram instaladas 450 unidades contemplando quatro bairros: Cidade Baixa, Centro Histórico, Menino Deus e Praia de Belas. Essa era a quantidade prevista em contrato firmado com o consórcio Porto Alegre Ambiental, no valor de R$ 84,5 milhões. No momento, não há previsão para ser aplicada em outros locais. Para isso, é necessário fazer um aditivo de contrato.
Elogios e reclamações
Moradores e frequentadores dos bairros contemplados ficam divididos quanto a efetividade dos contêineres. Enquanto alguns reconhecem que a presença deles facilita o descarte, outros avaliam que a mudança não deixou a cidade mais limpa. No entanto, todas as pessoas ouvidas por Zero Hora concordam que a educação ambiental precisa melhorar.
— Funcionar funciona, agora tem que ter consciência das pessoas que tiram o lixo de dentro e esparramam pelo chão — afirma o servidor aposentado Paulo Pittigliani, 69 anos, morador da Cidade Baixa.
Já para Paulo Ricardo da Silva, zelador de um prédio na Rua Demétrio Ribeiro, no Centro Histórico, as novas lixeiras criaram um problema.
— Hoje tem muita gente que vive do lixo seco. E é um contêiner que não tem acesso, não tem como o pessoal pegar. Porque aqui passam 20, 30 pessoas por dia mexendo no lixo. Além disso, não existe uma educação. O pessoal bota lixo seco no orgânico. Eu já vi várias vezes fazerem isso — reclama.
Impacto positivo
Ainda não há dados concretos que indiquem uma alteração no tratamento de resíduos recicláveis na Capital por conta do novo modelo. Um balanço ainda está sendo realizado para avaliar o impacto. Mesmo assim, o diretor do Departamento Municipal de Limpeza Urbana, Carlos Hundertmarker faz uma avaliação positiva, a partir de uma percepção no comportamento da população.
— A sociedade percebeu essa qualidade, ela aderiu bem, entendeu que estava à disposição. Se nós olharmos dentro dos contêineres verdes, temos, na grande maioria, resíduos recicláveis, mas sempre há espaço para melhora — afirma.
Educação ambiental é fundamental
A professora e pesquisadora Joice Maciel, do Núcleo de Caracterização de Materiais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) discorda. Ela afirma que o modelo de mecanização precisa ser acompanhado de maior transparência e educação ambiental.
— Os contêineres para a coleta seletiva e rejeitos estão espalhados por diversos lugares da cidade, sem debate, sem educação ambiental. Uma prestação de contas sobre esse processo para a população ainda é algo que precisa ser bastante debatido.
Ainda conforme a professora, a mecanização da coleta seletiva é ineficaz sem um aprimoramento das Unidades de Triagem, que recebem todo o material para fazer a separação e destinação correta. Assim como na coleta que já existia, os materiais recicláveis são encaminhados para as unidades conveniadas, formadas por cooperativas de catadores.
— Nenhuma das cooperativas conveniadas possui uma infraestrutura para receber esse material. Então, quando o caminhão chega na cooperativa, ele precisa despejar esse material direto no chão. Hoje as unidades de triagem possuem um sistema com cestos (gaiolas) para receber os resíduos. Com esse sistema novo não foi feito nenhuma adequação na estrutura para receber o material — aponta Joice.
O relato é confirmado por quem atua nessas cooperativas. Eduarda Sant´Ana, da associação de catadores e recicladores Vila Chocolatão conta que chegaram a paralisar o tratamento dos materiais vindos dos contêineres.
— Como estávamos com pouco resíduos na gaiola, aceitamos algumas dessas cargas. Mas vale ressaltar que esses resíduos são descartados no chão, além de chegar muito material que não é reciclável misturado. Então paramos a produção, pois os outros caminhões colocam nas gaiolas, facilitando a separação.
A prefeitura avalia melhorias estruturais no processo de recebimento dos resíduos que vêm dos novos contêineres. Uma divulgação deve ocorrer até o final deste mês, conforme o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU).
A taxa de reciclagem em 2025, considerando apenas a coleta nas residências, foi de 5,7%. Já no ano anterior foi de 5,9%.
Outros modelos vigentes na Capital
- Contêineres metálicos antigos: utilizados para descarte de resíduos orgânicos. Estão presentes em 19 bairros. Foram implementados em 2011. Eles possuem tampa móvel que é aberta por meio de um pedal localizado na base. No ano passado, 2.050 de 2.750 foram substituídos por novos modelos.
- Contêineres metálicos novos: também são destinados exclusivamente para o lixo orgânico. A diferença é que a tampa é fixa, contendo uma abertura do tipo boca-de-lobo, o que dificulta o acesso ao interior do equipamento. O objetivo é evitar que os rejeitos sejam revirados, espalhando sujeira na rua. Ao todo, 450 modelos foram implementados em nove bairros: Azenha, Bom Fim, Centro Histórico, Farroupilha, Floresta, Independência, Moinhos de Vento, Santana e Rio Branco.
