
Chamou a atenção do público que circulou pelo Shopping Praia de Belas na semana passada uma grande promoção dos produtos da livraria A Página. A loja, única unidade da rede no Rio Grande do Sul, fechou as portas definitivamente no domingo (29), após realizar uma megapromoção de 50% em todos os itens para acabar com o estoque. O setor, contudo, ainda enxerga o mercado de livrarias físicas em processo de recuperação.
A Página é uma rede de livrarias com origem no Paraná. Desde 2022, ocupava um espaço no terceiro piso do Shopping Praia de Belas. Conforme nota enviada pela direção da empresa, o fechamento da unidade em Porto Alegre ocorre em um contexto de "reestruturação estratégica do varejo físico, com o objetivo de aumentar a eficiência operacional e direcionar investimentos para frentes de maior crescimento da companhia".
O grupo afirma também que "a decisão faz parte de uma revisão planejada do portfólio de lojas, considerando critérios como desempenho, perfil de consumo e aderência ao novo posicionamento da empresa" (veja a nota completa ao final desta reportagem).
Em 2023, já havia sido fechada a tradicional loja da Saraiva, também no Praia de Belas. Desde então, A Página era a única operação de livrarias no shopping da Capital.
Segundo a direção do centro comercial, novas operações semelhantes deverão ser anunciadas em breve. "O Praia de Belas Shopping informa que a movimentação faz parte da prática setorial varejista e da renovação natural do mix de lojas do empreendimento. O shopping esclarece ainda que os segmentos cultural, educacional e literário fazem parte do compromisso do shopping e que novas operações serão anunciadas em breve", diz comunicado enviado a Zero Hora.
Setor vê mercado em recuperação no país
O impacto da pandemia, o crescimento do comércio digital e a atuação de novos grandes players, como Amazon, levaram algumas grandes e tradicionais redes de livrarias brasileiras, incluindo a Saraiva e a Cultura, a terem falência decretada. Mesmo assim, nos últimos anos, o mercado das livrarias físicas vem demonstrando sinais de adaptação e de recuperação.
Esse foi um movimento que aconteceu no mundo inteiro, e no Brasil não foi diferente. O mercado mudou, novos players e novas formas de consumo foram incorporadas, mas o que a gente vê hoje com muita clareza é que o livro, enquanto objeto físico, continua tendo muito valor, e que as livrarias físicas também continuam cumprindo um importante papel, de exposição dos lançamentos e como ponto de encontro para os leitores.
ALEXANDRE MARTINS FONTES
Presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL)
Para afinar o diagnóstico do momento do setor no Brasil, a Associação Nacional de Livrarias (ANL) realizou uma pesquisa neste mês de março. Segundo o levantamento, 44,4% das livrarias do país esperam crescimento do mercado livreiro neste ano, impulsionado pela retomada gradual do setor editorial — outras 33,3% projetam estabilidade e 18,5% acreditam em retração.
Na comparação entre janeiro de 2026 e janeiro de 2025, a percepção do mercado indica cautela e estabilidade. Conforme a pesquisa da ANL, 40,7% dos livreiros registraram estabilidade no fluxo de clientes, enquanto 25,9% observaram crescimento e 26% relataram queda. Nessa esteira, os dados também indicam que 66,7% das livrarias esperam crescer em faturamento em 2026, e apenas 3,7% projetam queda.
— Quando saíram as grandes redes, se abriu um vácuo no mercado, mas outras operações, aos poucos, estão retomando esse espaço. O mercado livreiro brasileiro tem mostrado sinais consistentes de recuperação, e existe sim mais espaço para crescer — reforça o presidente da ANL, Alexandre Martins Fontes.
Futuro do setor
Ainda conforme a pesquisa da ANL, 85,2% dos livreiros do Brasil apontam a concorrência desigual com gigantes do e-commerce como maior desafio atual, superando com grande margem preocupações como custos operacionais (11,1%) e impactos das novas tecnologias (3,7%).
Apesar disso, mesmo com o avanço do consumo digital, o livro impresso se mantém como principal motor de receita das empresas do setor. Para 2026, 52% dos entrevistados esperam crescimento nas vendas de livros físicos, enquanto 37% preveem estabilidade e apenas 7% projetam queda.
— A Leitura, maior rede de livrarias no Brasil, tem apostado muito nos shopping centers. O mesmo vale para outras grandes redes, como Travessa, Livraria da Vila, Paisagem. O grande fluxo de pessoas nos shoppings justifica, sim, o investimento, e para os shoppings é igualmente importante contar com boas livrarias, que são espaços de entretenimento para crianças, jovens e adultos de todas as idades — complementa Martins Fontes.
Movimentações no mercado em Porto Alegre
Apesar do fechamento da unidade da A Página no Praia de Belas, o mercado das livrarias em Porto Alegre também vem dando sinais de recuperação nos últimos anos. Um dos exemplos mais destacados é da Livraria Travessa, inaugurada em setembro de 2025 e que desde então atrai um grande número de visitantes, no Shopping Iguatemi.
— Nossos clientes pediam muito a volta de uma livraria importante e comemoramos o fato de trazermos o que há de melhor em termos de experiência de livraria para o Rio Grande do Sul, a Livraria da Travessa. Um ambiente totalmente diferenciado, que tem um janelão voltado para a rua e permite uma sensação gostosa para as pessoas ficarem lendo despretensiosamente. Temos muito orgulho disso e de confirmar que o gaúcho é um público que ainda aprecia o livro físico — afirma Nailê Santos, gerente-geral do Iguatemi Porto Alegre.
O movimento em outros shoppings da Capital e da Região Metropoliana também reforça esse momento. No BarraShoppingSul, um quiosque da Livraria Cameron foi inaugurado em junho do ano passado.
Outra marca nacional que vem apostando com força na Capital é a Paisagem, fundada há 44 anos no Rio de Janeiro. Além de ocupar o antigo espaço da Cultura no Bourbon Country e manter uma loja no Moinhos Shopping, a empresa inaugurou uma unidade no novo Bourbon Shopping Carlos Gomes, no final de 2025. Já nesta terça-feira (31), a Paisagem inaugura uma nova unidade no Estado, desta vez no ParkShopping Canoas.
— O Estado é uma praça que tem nos acolhido de forma muito positiva, e estamos muito felizes de chegarmos a Canoas e nos conectarmos ainda mais com os leitores e leitoras gaúchos — aponta Aguimério Silva, cofundador da empresa.
Leia a íntegra da nota do Grupo A Página
"O Grupo A Página está conduzindo um processo de reestruturação estratégica do seu varejo físico, com o objetivo de aumentar a eficiência operacional e direcionar investimentos para frentes de maior crescimento da companhia.
No contexto desse movimento, a unidade do Praia de Belas será descontinuada. A decisão faz parte de uma revisão planejada do portfólio de lojas, considerando critérios como desempenho, perfil de consumo e aderência ao novo posicionamento da empresa.
Importante destacar que essa iniciativa não representa uma retração do grupo, mas sim uma evolução do seu modelo de atuação, alinhada às transformações do mercado e às novas demandas de clientes e parceiros.
O Grupo A Página segue fortalecendo sua presença no mercado, com foco especial no segmento educacional e na expansão de sua atuação logística por meio da Booklog, com operação em São Paulo, ampliando sua capacidade de atendimento com eficiência, escala e qualidade para editoras e parceiros em todo o país. Reiteramos nosso compromisso com clientes, fornecedores e parceiros, mantendo o padrão de excelência que sempre caracterizou a atuação do grupo."





