
Ruas planas, imóveis desocupados e proximidade com áreas importantes de Porto Alegre. O 4º Distrito é a menina dos olhos da prefeitura, que promete, desde gestões passadas, uma grande revitalização da antiga zona industrial por meio de investimentos públicos e parcerias com a iniciativa privada. Alguns projetos, de fato, saíram do papel. Outros, contudo, seguem na prancheta e sem previsão para serem entregues.
A enchente em maio de 2024 inundou os bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Humaitá e Farrapos, que formam o 4º Distrito. Empresas instaladas na região tiveram suas lojas destruídas e, desde então, vivem com medo de uma nova cheia. Somado a isso, furtos e roubos fazem com que empresários transfiram suas operações para outras regiões da cidade — ou até para fora da Capital.
Presidente da Associação dos Empresários do 4º Distrito Vítimas da Enchente, Arlei Romeiro afirma que, desde a cheia, a sensação de insegurança aumentou, fazendo com que menos gente circulasse pelas ruas. Segundo ele, dezenas de empresas deixaram a localidade para empreender fora dali. Entre elas, estão cervejarias, centros de distribuição, cartórios e casas de shows.
— Esse êxodo do comércio acaba afetando também os residentes. Muitos moradores também estão deixando o 4º Distrito. Estamos com ruas quase desertas. Isso dá condição para que delitos, roubos de carros e invasão de empresas ocorram em plena luz do dia — queixa-se Romeiro.
— Esperamos que as três esferas do poder público deem a devida atenção para o 4º Distrito, tendo em vista a relevância que a região tem para Porto Alegre e o Estado. É a entrada e a saída da Capital. Uma região rica em gastronomia, entretenimento e possibilidades culturais — completa o presidente da associação.

De mala pronta
A promessa de incentivos fiscais para empresas que se instalassem no 4º Distrito fez com que Marcelo Rosa transferisse seu negócio do bairro Sarandi para um imóvel no São Geraldo em 2023. Dono de uma empresa que vende panos para limpeza de maquinário industrial, ele comprou e reformou um galpão abandonado, com investimento de R$ 1,3 milhão. Na enchente, o prejuízo passou de R$ 800 mil somente com perda de estoque.
Rosa diz que já ensaia sua saída do 4º Distrito. Além do medo de uma nova cheia, ele cita o corte de incentivos fiscais da prefeitura para a região como motivo para a decisão. A medida foi tomada pelo prefeito Sebastião Melo no final do ano passado como reação ao adiamento da revisão da planta do IPTU na Câmara Municipal.
— Depois da enchente, demorou muito para conseguirmos retomar a empresa. Durante 60 dias, não sabíamos o que fazer para sair daquela situação calamitosa. Enquanto isso, seguíamos perdendo faturamento. O prejuízo está conosco até hoje. Meus vizinhos estão na mesma situação — diz o empresário.
Enquanto segue operando no 4º Distrito, Rosa diz que precisa baixar cedo os portões de seu negócio.
— A situação aqui é pesadíssima quando anoitece. Muitas pessoas drogadas rondando e roubando. Nós já sofremos muito com roubo. Arrancaram a minha fiação de cobre três vezes. Acabamos tendo que refazer toda a fiação com alumínio — conta Rosa.
O empresário diz estar olhando imóveis em Santa Catarina para transferir a sede de sua empresa, onde há incentivos fiscais para o seu setor. Contudo, pretende se instalar perto da divisa com o Rio Grande do Sul, onde está a maioria de seus clientes.
Fora do 4º Distrito, mas dentro de Porto Alegre
O empresário Marcelo Vaz fechou sua loja de carnes no 4º Distrito após seis anos atuando na região. A operação foi transferida para um imóvel no bairro Petrópolis, onde ele diz faturar mais, apesar de pagar o dobro do aluguel. Por enquanto, está valendo a pena, ele afirma.
O dinheiro que entra ainda é usado para pagar dívidas contraídas depois da enchente. A decisão de sair do bairro Floresta foi tomada no momento em que ele abriu o portão de sua loja pela primeira vez depois que a água baixou. Contudo, a mudança de endereço ocorreu apenas há quatro meses.
— Quando vi a loja daquele jeito, a vontade era de já entregar o ponto, mas tinha que cumprir o tempo de contrato para não pagar multa. Depois que reabrimos, eu estava pagando para trabalhar. Fiz dívidas e empréstimos para ficar lá e depois para vir para o Petrópolis. Agora, vou trabalhar um bom tempo para pagar tudo isso — completa Vaz, que trabalha no negócio com a esposa e os filhos.
A escolha pelo bairro Petrópolis se deu pelo perfil de clientes que já consumia em sua loja no 4º Distrito: a maioria composta por empresários e profissionais liberais.
— Quando decidimos nos mudar, fomos atrás de ver o cliente que tínhamos, porque cadastrávamos eles. Vimos que a maioria das pessoas se concentrava nesta região. Começamos a procurar imóveis e achamos esta casa — conta o empresário.
— Lá a gente recebia muitos donos de empresas no 4º Distrito que compravam carne para levar para casa no fim do expediente. As esposas deles nunca iam lá. Hoje, elas vêm conhecer a loja junto com os maridos — completa Vaz.
Abertura e fechamento de empresas
Apesar dos casos mostrados pela reportagem, a prefeitura diz que mais empresas foram abertas do que fechadas nos bairros do 4º Distrito desde a enchente. Dados levantados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (SMDET) mostram que o saldo foi positivo inclusive nos anos de pandemia.
Diretor do 4º Distrito na SMDET, Paulo Figueiró diz que, entre as aberturas de 2024 a 2025, estão restaurantes, empreendimentos imobiliários e microempreendedores individuais (MEIs). Segundo o coordenador da divisão, o crescimento se deu devido a incentivos — alguns cortados no final de 2025 — e pela dispensa de alvará para atividades de baixa complexidade.
— O ano de 2025 foi o ano da retomada. Modificou a característica em relação aos outros anos. O que antes eram bairros abandonados, com muitas oficinas mecânicas, estão agora voltados para economias prediais. Nosso foco é aumentar a densidade da região — diz Figueiró.
Apesar dos dados apresentados pela prefeitura, o presidente do Sindicato dos Lojistas de Porto Alegre (Sindilojas-POA) pondera que a situação não é favorável para todo tipo de negócio.
— Vimos muitos fechamentos na região pelo prejuízo que as empresas tiveram na enchente. As empresas levam muito tempo para fechar seus CNPJs por causa de dívidas e burocracias. Muitas redes fecharam filiais no 4º Distrito e no Centro, mas mantiveram em outros bairros — diz Piva.
Levantamento feito pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS) mostra que, de 2024 para 2025, houve aumento no número de imóveis entregues no 4º Distrito — tanto em residenciais como comerciais. O grande pico de pontos disponíveis para locação ocorreu em 2022, depois da pandemia.
Um termômetro da sensação de esvaziamento no 4º Distrito — sentida por moradores e comerciantes — é a atual situação de grandes avenidas que cortam a região. Voluntários, Benjamin Constant e Cristóvão Colombo já não vivem mais seus dias de glória. Na Farrapos, uma das mais extensas da Capital, a reportagem contou 211 lojas de rua desocupadas em outubro do ano passado.
Presidente do Secovi-RS, Moacyr Schukster diz que o estado de abandono de prédios antigos afasta interessados em investir nessas avenidas. Para que as estruturas sejam reformadas, o dirigente sugere que a prefeitura conceda incentivos fiscais.
— Teria de haver uma modificação na utilização dessa avenida, a começar por um estímulo fiscal ao retrofit (revitalização de prédios). Se a prefeitura estimulasse isso, teríamos o reaproveitamento de prédios. Outro grande problema é a falta de lugar para estacionar na Farrapos. Isso é fundamental para o comércio — afirma Schukster.

Futuro do 4º Distrito
Mesmo com as adversidades, centenas de empresas optaram por permanecer no 4º Distrito e até ampliar suas operações. A localização estratégica da região, que passa pela entrada e a saída da Capital, pesa na decisão.
Criados no Mercado Público, a Banca do Holandês e o Café do Mercado tiveram suas indústrias e seus centros de distribuição parcialmente destruídos pela cheia de 2024. Ainda assim, mantiveram-se nos bairros Floresta e Navegantes — e ainda há planos para investir mais nessas plantas.
Também no bairro Navegantes, o Instituto Caldeira será ampliado. O projeto prevê mais escritórios do hub de inovação no espaço onde ficava a antiga fábrica da Guahyba; e também torres comerciais e um hotel no espaço do DC Shopping.
Para atrair mais empresas para o 4º Distrito, a prefeitura promete grandes obras de infraestrutura a partir deste ano. Cerca de R$ 1 bilhão de financiamentos que o município obteve com bancos internacionais serão investidos no 4º Distrito e no Centro Histórico.
O arquiteto e urbanista Anthony Ling sugere que a revitalização do 4º Distrito comece por um polo definido — de seis a oito quadras —, para que depois as novidades sejam espalhadas por toda a região.
— O 4º Distrito é uma área gigante, são vários bairros. O empresário interessado vai dizer: "Legal, mas onde eu coloco minha loja?". Quem vai ser o primeiro a investir para recuperar um galpão? Isso já começou a acontecer, mas de uma forma dispersa. Cervejarias, bares, boates, mas que ficam longe um do outro. Não se tem ainda um núcleo claro de recuperação — diz o urbanista.
O secretário de Planejamento e Assuntos Estratégicos, Cezar Schirmer, destaca que o Programa de Revitalização da Área Central de Porto Alegre (Centro+4D) terá cerca de 150 intervenções nestes territórios. O cofinanciamento é feito pelo Banco Mundial e pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).
Na lista de projetos que receberão os recursos estão drenagem, recuperação do patrimônio, qualificação de espaços públicos, além de estudos para estímulo do turismo e aprimoramento da mobilidade urbana. Obras de proteção contra cheias devem entrar em outra linha de financiamento buscada pela prefeitura.
