
Centenas de pessoas se reuniram neste domingo (1º) no Parque da Redenção, em Porto Alegre, para pedir justiça aos animais. O protesto foi motivado pela morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, no litoral de Santa Catarina. O caso gerou comoção nacional e ao menos outras seis capitais registraram atos: São Paulo, Florianópolis, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba.
O ato em Porto Alegre partiu da Avenida José Bonifácio às 10h30min. A manifestação seguiu até as proximidades do Auditório Araújo Vianna e terminou em frente ao Monumento ao Expedicionário. Cerca de 500 pessoas participaram, conforme a Brigada Militar.
Participantes levaram seus animais de estimação para a caminhada, além de carregarem cartazes pedindo justiça e o fim da violência contra animais, bem como imagens do cachorro Orelha. “Justiça por Orelha”, “não são crianças, são assassinos”, e “não à violência animal” foram algumas das palavras de ordem entoadas pelos protestantes.
— A gente tem que aproveitar o calor do momento, já que tantas pessoas estão indignadas e estão indo às ruas, e realmente exigir que isso pare, fazer algo efetivo. Temos que tentar garantir uma mudança drástica nas leis de proteção animal, que a gente consiga transformar maus-tratos em crime hediondo — argumentou uma das participantes, Mariana Machado dos Santos, 34 anos.
Os manifestantes destacaram o papel do Orelha como símbolo da luta contra maus-tratos. Uma das pessoas que mobilizou o evento, organizado pela sociedade civil, foi a educadora física Paula Schulze.
— Eu comecei avisando uma amiga e todas as protetoras. As protetoras começaram a avisar todas as veterinárias, e as veterinárias também convidaram voluntários. Assim, fizemos um grupo gigante. Nossa manifestação foi uma das maiores do Brasil — afirmou a organizadora.
Renata Zanardi e Luisa Sigaran, do Abrigo do Gasômetro, também participaram da organização da atividade, bem como a veterinária Graciela Giurni, do Movimento Lute Vet. Lia Rocha, ativista da causa animal, faz parte da ONG Patas do Bem LNI, que atua no bairro Hípica, e marcou presença no evento.
— Hoje nós temos em torno de 30 resgatados, e vemos a dificuldade para mantê-los. É muito triste ver uma coisa dessas, partindo de pessoas com dinheiro, que deveriam usar esse dinheiro para apoiar a causa animal. É muita crueldade. Tenho esperança de que seja feita alguma punição e que eles paguem de alguma forma pelas atrocidades que fizeram — disse Lia.
Conforme os participantes, o caso de Orelha evidencia a falta de políticas públicas consistentes para a proteção animal e a fragilidade da legislação. Para a advogada Faride Costa Pereira, enquanto não houver fiscalização e aplicação rigorosa das leis, a violência continuará sendo rotina:
— É importante dizer que existe um direito animal no Brasil, e, no geral, as pessoas não têm conhecimento. E esse direito, ainda que incipiente, pois começou há poucos anos, já consolidou uma belíssima jurisprudência, que entende que animal não é meio ambiente. O Orelha não é pedra, não é planta, é um sujeito de direito.
Mobilizações em todo o país
A causa gerou comoção nacional. Manifestantes também ocuparam a Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo, em um protesto por justiça pelo cão Orelha. O caso ganhou ampla repercussão nas redes sociais, reacendeu o debate sobre maus-tratos a animais e a responsabilização de menores envolvidos em atos de violência.
O ato em São Paulo ocorreu em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). Manifestantes levaram seus animais de estimação para a rua e também pediram pela redução da maioridade penal. Outras capitais do Brasil, como Florianópolis, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília também registraram manifestações.
Entenda o caso
Orelha tinha 10 anos e era um cão comunitário que vivia na região da Praia Brava, na capital catarinense. Ele circulava livremente pelo bairro e dividia o espaço com outros cães comunitários, que contavam com casinhas improvisadas e atenção de quem vive ou trabalha na região.
Neste mês, ele foi encontrado machucado, agonizando, e morreu durante um atendimento veterinário que buscava reverter o quadro clínico provocado pelas agressões. A morte de Orelha gerou forte mobilização nacional e repercutiu nas redes sociais.
Investigação
A Polícia Civil soube do caso no dia 16 de janeiro. As investigações identificaram ao menos quatro adolescentes suspeitos de ter agredido o animal. O caso levou à abertura de dois inquéritos: um para investigar a morte do animal e outro pelo crime de coação.
Na última segunda-feira (26), a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão nas casas dos suspeitos, mas ninguém foi detido.
*Produção: Laura Bender


