É no Belém Novo, em meio ao silêncio do extremo sul de Porto Alegre, que existe um lugar que respira no ritmo da terra. Ali, o produtor rural Gilberto Luiz Toneze Antunes acorda antes do sol e entende que cada manhã é uma negociação com a natureza. Nos cinco hectares em que cultiva orgânicos, frutas cítricas e verduras dividem espaço com o que ele chama de “carro-chefe” da chácara: as flores.
São três décadas de cultivo. Durante 21 anos, Gilberto se dedicou ao plantio de alimentos no sistema convencional, até entender que algo precisava mudar. Os custos de produção passaram a superar os ganhos, e manter a propriedade tornou-se cada vez mais difícil. Com o apoio e a orientação da Emater, decidiu diversificar a produção. As flores surgiram como o caminho para recomeçar.
— Foi um momento em que pensei em manter apenas a lavoura de citros e não investir mais em verduras nem em nada. Financeiramente, foi bem difícil — relembra.
A partir dessa virada, a chácara iniciou a transição para o sistema orgânico, um processo que levou dois anos. Nesse período, a produção era vendida de forma direta: de porta em porta e à beira da estrada. Somente após cumprir todas as exigências do cultivo sem o uso de agrotóxicos, Gilberto recebeu as certificações e passou a participar das feiras orgânicas de Porto Alegre, entre elas a Feira Ecológica do Bom Fim, popularmente conhecida como Feira da Redenção.
No início, legumes e verduras não apresentavam o retorno esperado — produtos mais comuns, facilmente encontrados em outras bancas. As flores, por outro lado, foram rapidamente acolhidas pelo público. A aceitação impulsionou o aumento gradual da produção e consolidou um diferencial dentro do mercado ecológico. Assim nasceu a chácara Porto Verde Orgânica.
O caminho percorrido pelos produtos até chegarem à feira exige tempo, dedicação e cuidado constante com a terra e com o meio ambiente. Optar pelo cultivo de flores é também escolher um ritmo menos acelerado, que respeita os ciclos naturais e demanda atenção a cada etapa do processo produtivo.
Hoje, a Porto Verde conta com cinco funcionários contratados e trabalhadores terceirizados que auxiliam nas atividades de campo e nas vendas durante as feiras. Mais de 10 pessoas participam diretamente da produção — do plantio ao cultivo, da colheita à ornamentação, até a comercialização final das flores na banca.
Esse trabalho coletivo sustenta não apenas a produção orgânica, mas se propõe a ser um modelo de agricultura comprometido com a sustentabilidade e com a valorização do trabalho humano.
— Na medida em que você avança na produção orgânica e deixa de usar agrotóxicos, a fertilidade melhora, o solo entra em equilíbrio, voltam a aparecer fungos que antes morriam com fungicida. Isso favorece a qualidade do produto e a qualidade de vida de quem trabalha aqui. As pessoas não ficam expostas a agrotóxicos — avalia a engenheira agrônoma Miriam Trevisan, representante da Emater em Porto Alegre.
A chácara integra a certificação orgânica da Associação dos Produtores da Rede Agroecológica Metropolitana (Rama), obtida por meio de um Sistema Participativo de Garantia (SPG). Gilberto faz parte de um modelo colaborativo que reúne produtores, técnicos e consumidores. Além da certificação, o sistema promove trocas de experiência, compras coletivas de insumos, cursos e especializações. Também possibilita que um produtor esteja presente em diferentes feiras e exposições, por meio da parceria entre associados. Dessa forma, a Porto Verde marca presença em diversos eventos.
O universo das feiras livres de Porto Alegre me encanta desde que vim morar na cidade. A feira orgânica da Redenção foi uma forma de me sentir mais perto de casa. Nasci e tive uma infância interiorana, em uma pequena cidade do norte gaúcho. Casa cheia, família grande. Quase todo o alimento vinha da produção dos meus pais, tios e tias.
Foi passeando entre as bancas que conheci Gilberto. Eu ainda estava me adaptando à cidade, morava em um apartamento quase vazio no centro da Capital e sentia falta de vida naquele espaço. As flores pareceram uma solução natural.
Um dia, cheguei à banca já no fim da feira. Restavam apenas alguns ramalhetes despetalados, esquecidos no caminhão — o “refugo”, aquilo que costuma virar sobra. Perguntei se ainda havia algo. Gilberto não hesitou: reuniu as flores que restavam e montou um buquê enorme. Entregou-me de presente.

Germinava ali a semente não apenas de um futuro documentário, mas também de uma nova amizade.

