
Brinquedos antigos despertam nostalgia. Memórias da infância surgem ao reencontrar carrinhos, videogames, bonecos e caixas de jogos fabricadas no passado. Em Porto Alegre, uma loja reúne milhares de itens que fizeram parte de brincadeiras nos anos 1970, 1980 e 1990. O espaço é frequentado tanto por colecionadores quanto por adultos que buscam realizar sonhos represados há décadas.
A Casa do Cacaredo foi inaugurada há 13 anos em um imóvel de dois andares no bairro Partenon. No início da operação, o proprietário e colecionador Ricieri Cunha, 38 anos, buscava rechear o acervo com itens quase centenários.
— Quando comecei a loja, buscava muita antiguidade: peças dos anos 1920, 1930. Lá no começo, vendia mais. Só que quem compra isso são pessoas de mais idade. Elas estão agora em um momento da vida de vender essas peças, não de comprar — lembra Ricieri.
Nos últimos anos, Ricieri diz que brinquedos que marcaram a "Geração X" e os "Millennials" passaram a ser os itens mais procurados na loja.
— Quem mais está comprando agora é o pessoal que era criança nos anos 1970, 1980 e 1990. No passado, essas pessoas queriam ter um brinquedo ou um videogame que só o primo ou o vizinho tinha. Hoje, eles têm condições para comprar. Buscam aqui o que não podiam ter na infância — completa o proprietário da Casa do Cacaredo.
Entre os brinquedos mais procurados estão bonecos do Comandos em Ação, do He-Man, do Forte Apache e do Falcon — este último chega a ser vendido por mais de R$ 1 mil. Itens na caixa e bem conservados são anunciados pelo dobro do preço do brinquedo sozinho.
Nas prateleiras também há autoramas e videogames de gerações passadas, como Super Nintendo, Sega Mega Drive, Tele Jogo e Nintendo 64. Cartuchos de Atari também são encontrados à venda.
— Muitas vezes, os adultos usam o filho como desculpa para vir aqui. Dizem que vão comprar para o filho, mas colocam (o produto) em uma prateleira e não deixam nem mexer — conta o caçador de raridades.
Daniel Magalhães, 45 anos, é um dos clientes mais fiéis da Casa do Cacaredo. Na tarde de segunda-feira (9), ele foi ao local para garimpar peças que ainda não tinha em seu acervo. Saiu de lá com três jogos de tabuleiro na sacola: Jogo da Operação, Armadilha e Imagem em Ação do Duck Tales.
Em uma sala de sua casa, há um altar para itens da década de 1980 que ele coleciona junto com o filho, de 17 anos.
— Como nasci nos anos 1980, paguei aquela fase do boom dos brinquedos. O que eu não ganhava, meus amigos tinham, então eu brincava com eles. Quando fomos ficando mais velhos, eles passavam esses brinquedos adiante ou colocavam fora. Eu fui pegando tudo para mim e iniciei minha coleção — conta Magalhães.
O melhor lote de brinquedos
Em janeiro deste ano, Ricieri foi surpreendido ao adentrar um apartamento na Rua Mostardeiro, no bairro Moinhos de Vento. Lá, encontrou o maior e melhor lote de brinquedos de toda a sua trajetória no ramo. O conjunto reunia cerca de 200 objetos guardados em caixas, além de bonecos, videogames e outros itens clássicos, principalmente dos anos 1980.
Conforme noticiou o colunista de Zero Hora Leandro Staudt, a venda foi feita pela escritora Carol Bensimon, que mora nos Estados Unidos. A coleção, que também tem itens dos anos 1990, estava guardada no apartamento da família na capital gaúcha.
O lote de brinquedos incluiu clássicos como Barbie, Moranguinho, Playmobil e Lego, além de videogames que marcaram época, como Master System e Mega Drive — todos em ótimo estado de conservação, segundo Ricieri.
— Geralmente, quando eu pego brinquedos neste estado de conservação, é porque eram brinquedos que não foram brincados. A criança ganhou, não gostou e guardou. Mas este não era o caso. A Carol disse que brincou muito com eles, mas tinha o hábito de guardar nas caixas depois — conta Ricieri.
A escritora disse que, em função do falecimento da mãe, o apartamento estava sendo esvaziado para venda. Questionada sobre os preferidos da infância, respondeu: Lego e Playmobil.
— Eles têm maior valor afetivo. Talvez me fizeram ser escritora, porque criava narrativas nas brincadeiras — disse à coluna.
Brinquedos fabricados pela Estrela no Brasil são procurados por pessoas de outros países, segundo Ricieri. Além da qualidade em comparação a produtos feitos na China, compradores de fora procuram a versão brasileira para completar suas coleções.
De colecionador a vendedor
Antes de ser vendedor, Ricieri colecionava itens antigos — paixão que foi incentivada pelo seu pai, Renato Cunha, 60. Em 2013, a dupla comprou o primeiro lote de antiguidades. Venderam todas as peças em três dias. Com o dinheiro arrecadado, reinvestiram em mais relíquias e montaram a Casa do Cacaredo em parte da casa da família.
Nos primeiros anos, pai e filho viajavam pelo interior do Estado caçando peças antigas para vender em Porto Alegre. Hoje, compram pela internet e só saem da loja caso alguém ligue avisando que tem um bom lote para vender.
— Nosso telefone toca o tempo todo. Somos como Os Caça-Fantasmas (filme da década de 1980). Toca a "sirene" aqui na loja e saio correndo para buscar. Não importa o horário. Ainda achamos bastante coisa em Porto Alegre. Quando o pessoal quer se desfazer, é porque está se mudando ou alguém faleceu — conta Ricieri.

Alguns itens também foram garimpados em viagens aos Estados Unidos e países da América Latina. Além de brinquedos, a Casa do Cacaredo conta com milhares de outros itens antigos: rádios valvulados, artigos militares, chaveiros, câmeras, louças usadas em antigas companhias aéreas, discos de vinil, facas e até cadeiras de ferro do antigo Estádio Olímpico.
Ricieri diz que já tentou, mas nunca conseguiu inventariar todo o acervo da loja — que se renova a cada dia. Contudo, acredita que passa tranquilamente dos 100 mil itens.
A Casa do Cacaredo também vende peças para outras empresas, que usam os objetos para decorar seus comércios, e aluga semanalmente itens antigos para gravação de filmes, novelas, seriados e comerciais.
Antiguidades em shopping
Em 2023, a Casa do Cacaredo abriu uma filial no Shopping Total, no bairro Floresta. Segundo Ricieri, a ideia era facilitar o acesso do público da região central aos seus produtos. O espaço é pequeno e, por isso, comporta bem menos peças do que a casa no Partenon.
— Aqui o pessoal compra muito presente para as pessoas. Quando passa na loja, lembra: "Naquela época, o meu amigo tinha esse brinquedo aqui". Daí acaba levando. Muitos acabam levando para si próprios. Vendemos muitos bonecos do Comando em Ação e fitas de Super Nintendo — diz o funcionário da loja Ricardo Duarte.
Na filial do Total, um Sega Mega Drive fica ligado em uma TV de tubo para clientes testarem o console e alguns cartuchos que estão à venda. O aparelho chamou atenção do corretor imobiliário Douglas Schneider, que entrou na loja acompanhado do filho, Miguel, nove anos.
— Nossa, como eu joguei esse jogo na casa de um amigo na infância. Hoje, nem sei mais onde ele está. Lembro que a gente se reunia todos os dias para jogar. Era meu sonho ter um em casa — disse Douglas logo antes de fazer uma pergunta ao filho:
— O que acha de a gente comprar?
Onde encontrar a Casa do Cacaredo:
- Matriz: Rua Rafael Clark 567 - Partenon
- Filial: Shopping Total - loja 1134
- Instagram: @casadocacaredo
- WhatsApp: (51) 99792-0613

