A via que um dia abrigou o Cine Teatro Presidente e os cinemas Astor e Eldorado anda atualmente bem menos cultural. Hoje, o comércio da Avenida Benjamin Constant sobrevive do movimento daqueles que ainda vivem em seu entorno. Antes do espalhamento de negócios para outras regiões de Porto Alegre, o local era destino para quem procurava opções de lazer, lojas de móveis e outlets, além de moda masculina e som automotivo.
Atualmente, ao longo de 1,8 quilômetro de extensão, a via que atravessa os bairros São João, Floresta e São Geraldo mescla comércio popular com moradias. Grandes apartamentos ficam dentro de pequenos prédios — o que, segundo empresários e corretores imobiliários consultados por Zero Hora, torna a região menos densa do que poderia ser.
No térreo da maior parte dos edifícios na Benjamin Constant, há espaços para lojas, o que as construtoras chamam hoje de "fachada ativa". O conceito aparece em folhetins de lançamentos imobiliários, mas não foi inventado agora, já que grande parte das construções na avenida com este atrativo foi erguida na metade do século passado.
Contudo, o que se vê hoje são espaços ociosos. Nesta semana, a reportagem contou 103 pontos de lojas de rua desocupados ao longo de toda a Benjamin Constant. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA), Carlos Klein, lembra que o cenário já foi diferente.
— A Benjamin já foi protagonista. Perdeu esse protagonismo, tentou recuperá-lo e até hoje não conseguiu achar o seu nicho. É uma via bastante diversificada no que diz respeito aos tipos de negócios. Vemos ainda algumas lojas de vestuário, de móveis, restaurantes, mas ela ainda não conseguiu se consolidar como a Avenida São Pedro, por exemplo, que ficou muito forte no ramo de materiais elétricos — afirma Klein.
Apesar do apontamento, Klein reconhece que a avenida tem potencial para reverter a situação:
— A Benjamin é importante por fazer o cruzamento com importantes vias comerciais de Porto Alegre. Conecta a área central à Assis Brasil, por isso tem uma boa movimentação de carros. Por muitos anos, ela recebia o fluxo das pessoas que trabalhavam nas indústrias do 4º Distrito. O grande desafio é voltar a ser atrativa para o pedestre — conclui o presidente da CDL-POA.
O comércio da Benjamin
Apesar de estar inserida dentro da área do 4º Distrito, a Benjamin Constant fica colada em bairros onde estão alguns dos metros quadrados mais caros de Porto Alegre, como Moinhos de Vento, Higienópolis e Auxiliadora. Por anos, foram os moradores dessas regiões que abasteceram o comércio e a gastronomia da avenida vizinha.
Entretanto, desde a criação de novos polos em ruas como Padre Chagas, Dinarte Ribeiro e Nova York, o fluxo de clientes — em especial à noite — diminuiu significativamente na Benjamin Constant. Esse movimento foi sentido na pele pela empresária Kelly Pinheiro, que está à frente do Adega Pampulinha (antigo restaurante Pampulinha, criado em 1971), que hoje opera como um bar de vinhos.
Jaime Pinheiro, pai de Kelly, morreu em 2022, motivando o fechamento da cozinha pelas herdeiras. A ideia das filhas era vender o estoque de vinhos na adega, que ultrapassava os 70 mil rótulos, mas os planos mudaram.
— Como fiquei na loja vendendo vinhos, comecei a estudar e fiz curso de sommelier. Cheguei a receber propostas de empresas querendo comprar o prédio. Pensei na adega sendo destruída e isso me corrompeu. Decidi então fazer uma reforma, mudar a proposta da casa e nos fincar ainda mais no local — diz Kelly.
O Adega Pampulinha funciona diariamente das 16h às 22h. Kelly diz que gostaria de estender o horário, mas sente que a via fica insegura na medida em que a noite avança.
— Há uns 15 anos, a avenida ainda era muito movimentada. Naquela época o pessoal começou a ir para a Padre Chagas. Ainda temos uma clientela fiel que conhece o restaurante há muito tempo. O que nos ajuda são os hotéis — conta a empresária.
O movimento de pedestres à noite hoje praticamente não existe. Foi minguando até que chegamos como está agora. É a pior fase da Benjamin
KELLY PINHEIRO
Empresária
Poucos negócios estavam abertos quando a reportagem percorreu a Benjamin Constant na noite da sexta-feira (27). Nesse turno, a clientela procura bares e pubs. Não há mesas em calçadas, como acontece em outros points noturnos da Capital.
Para melhorar a sensação de segurança no entorno de seus restaurantes, o empresário Gerson Weissheimer instalou refletores que iluminam a esquina da Benjamin Constant com a Guido Mondim. O ponto abriga os pubs Weiss British Pub e O’Sullivan’s Irish Pub, com temáticas britânica e irlandesa.
— À noite, isso aqui fica tudo parado, escuro. Os vizinhos dizem que somos um ponto de luz na região. Nossa esquina é cheia de holofotes, que ficam ligados noite adentro. Isso dá um efeito tremendo. Só esse fato de iluminar afasta os criminosos — conta o empresário.
Weissheimer lembra que escolheu a esquina para abrir seus restaurantes justamente por ficar próxima ao Moinhos de Vento, onde está o perfil de cliente que ele busca atingir.
— Há 10 anos, encontrei uma rua escura habitada por mendigos e tornei algo viável para receber clientes. Era uma rua muito escura, deserta, frequentada por "zumbis" que perambulam à noite. Era só isso que tinha — recorda o empresário, que também se queixa das poucas vagas de estacionamento na avenida.
Apesar do sucesso alcançado ao longo dos anos, Weissheimer colocou os pontos dos pubs à venda. O empresário se aposentou e vive hoje no Litoral.
— É um bom negócio, temos público. Ainda acho que tem espaço para mais comércio noturno na Benjamin — acrescenta o empresário.
Recentemente, o pub Sixteen Station foi fechado na Benjamin Constant. Ele ficava em imóvel próximo ao viaduto José Eduardo Utzig, onde estão a maioria dos pontos desocupados da via. Mais adiante, próximo do encontro com a Avenida Assis Brasil, há um terreno de um antigo posto de combustíveis, que está abandonado desde 2011. Hoje, o espaço abriga equipamentos estragados de uma rede de academias.
De acordo com dados levantados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (SMDET), o número de alvarás ativos se mantém estável na avenida, tendo acréscimo de oito CNPJs de 2024 para 2025. Contudo, o levantamento mostra queda de 24% no número de abertura de empresas no mesmo período.
Para o presidente do Sindicato dos Lojistas de Porto Alegre (Sindlojas-POA), Arcione Piva, a disputa com o varejo online ajudou no enfraquecimento do comércio na Benjamin Constant — assim como acontece em outras importantes vias da Capital.
— Muitas marcas e lojas de pequenos empresários estão indo para os bairros e as periferias, pois o movimento de pessoas, que é o grande atrativo para a loja física, está lá. O home office acabou tirando muitas pessoas das ruas, o que acaba diminuindo o fluxo em avenidas emblemáticas como a Benjamin Constant. Essas pessoas continuam comprando nos seus bairros — analisa Piva.
Nova vocação
Uma solução para reativar o comércio da Benjamin Constant seria a criação de mais moradias no entorno da avenida, apontam urbanistas e especialistas. O movimento já começou. Construtoras estão de olho em terrenos que antes eram ocupados por comércios.
Apesar da proximidade com regiões mais caras de Porto Alegre, o metro quadrado nos bairros por onde a Benjamin Constant atravessa não passou de R$ 33 em 2025. De acordo com levantamento do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS), chegou até a haver desvalorização nos três bairros no último ano.
Metro quadrado em 2025:
- Floresta: R$ 24,79/m²
- São Geraldo: R$ R$ 27,17/m²
- São João: R$ 33,16/m²
Metro quadrado em 2024:
- Floresta: R$ 26,45/m²
- São Geraldo: R$ R$ 27,43/m²
- São João: R$ 35,11/m²
— A Benjamin tem um perfil misto de construções, com muito comércio e imóveis residenciais. Os prédios são muito pequenos. Alguns estão, inclusive, se revitalizando ou sendo demolidos para dar lugar a outros prédios — afirma a economista-chefe do Secovi-RS, Lucineli Martins.
— A avenida que tem grande potencial de renovação. Ela já está se renovando. Já vemos novas construções. Alguns comércios saíram, mas algumas outras também entraram. Há muitos pontos disponíveis ainda para locação e venda — completa Lucineli.

De acordo com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), 23 projetos imobiliários foram aprovados nos últimos 10 anos. Desse total, 20 já saíram do papel.
A última torre a ter ficado pronta é da construtora Pavei, que está localizada ao lado do antigo Cine Astor — este, por sua vez, também recebeu a incorporação de um prédio dentro de seu terreno. A fachada histórica foi mantida e restaurada junto a um edifício onde hoje opera um hotel na esquina com a Cristóvão Colombo.
Em 2019, foi a vez do Cine Teatro Presidente receber projeto similar. A fachada com mosaico do antigo cinema também foi mantida, porém, o restante do prédio histórico foi demolido para dar lugar a um edifício residencial com 13 pavimentos.
Um terreno na esquina com a São Pedro chama a atenção de moradores. O ponto abrigava pequenos prédios dos anos 1970, demolidos há uma década. Apesar da especulação de moradores de que um novo edifício seria erguido no local, não há projeto para isso tramitando na prefeitura.
À reportagem, o dono da área disse que seu plano é montar uma loja de materiais elétricos no local, mas a obra ainda não tem data para iniciar devido ao juro alto.

Aprender com o passado para construir o futuro
A Avenida Benjamin Constant foi inaugurada em 24 de janeiro de 1928 pelo vice-intendente Alberto Bins, sendo, na época, um símbolo de modernidade urbana com calçadas largas, arborização e pavimentação de concreto para suportar o tráfego de carros e bondes.
Quando criada, a avenida já conectava importantes zonas da cidade, contam os pesquisadores Eduardo Bueno e Paula Taitelbaum no livro Porto Alegre na Vitrine - Memória do Comércio Varejista da Capital Gaúcha, publicado em 2012 para celebrar os 75 anos do Sindilojas-POA.
Hoje, moradores da avenida que conversaram com a reportagem disseram que gostam de viver na região, que ainda é bem servida de comércio e serviços — como farmácias, restaurantes e supermercados. Contudo, fazem pedidos ao poder público.
— É uma área perto de tudo. Mas o que anda me incomodando é a questão da insegurança. Tenho medo de andar sozinha aqui. Procuro sair de Uber, pois tenho medo de sair do estacionamento e andar até minha casa. Estou ouvindo muitos relatos de assalto — diz a empresária Ana Borges.
Além de pedir mais segurança, ela e outros moradores sugerem melhoras no paisagismo.
— Poderia ter mais árvores, eu acho. A avenida é cinza — diz Ana.
Procurada, a prefeitura de Porto Alegre diz que não há projetos para revitalizar a Avenida Benjamin Constant. No ano passado, o poder municipal anunciou investimentos de R$ 600 milhões no 4º Distrito. Eles seriam bancados através de financiamentos com bancos internacionais, mas, até agora, nenhuma obra desse pacote foi iniciada.










