
Na manhã de quinta-feira (5), um homem entra pela primeira vez na loja de número 474 da Rua Marechal Floriano Peixoto, no centro de Porto Alegre. Carregando uma caixa de papelão no braço, pergunta ao dono do espaço:
— Bom dia. Compra discos?
O proprietário, um homem de óculos, cabelos longos e cavanhaque, responde sem cumprimentos:
— Depende do estado físico e mental.
Começa então uma negociação dentro da Boca do Disco, loja comandada por Getúlio Costa, 74 anos, folclórico vendedor conhecido por seus bordões, pelo vasto conhecimento musical e pela sinceridade — alguns clientes correm o risco de ouvir que sua banda preferida é "lixo".
Quase sempre é possível saber que Getúlio está sendo irônico. Apesar de criticar artistas cujos discos estão expostos em sua loja, conhece profundamente o trabalho de cada um deles. Com argumentos, tenta convencer antigos e novos compradores a levarem "coisa melhor" para casa, como um LP de uma banda de rock progressivo dinamarquesa.
— A maioria das pessoas ouve lixo. Uma das piores coisas que aconteceram no mundo da música foi a invasão britânica (movimento de bandas da Inglaterra nos anos 1960). O cara que ouve isso e vai escutar bandas sofisticadas, com músicas que levam harpa e instrumentos de sopro, vai estranhar. O ouvido dele não assimila aquilo. O cérebro não aceita — diz Getúlio.
Críticas a estrelas do rock
Aqueles que gostam do humor ácido de Getúlio se divertem na loja. Discos de artistas do mainstream costumam ser os mais criticados. Não sobra nem para uma das bandas mais influentes de todos os tempo:
— Beatles é uma banda para bailinho. Fraquíssimos. Pega o Creedence: ouviu um disco, ouviu todos. Chuck Berry e Elvis copiaram Sister Rosetta Tharpe, que já fazia rock nos anos 1940. Não existe Rei do Rock, só a Rainha do Rock — diz Getúlio.
Apesar das críticas, a Boca do Disco é decorada com quadros de John Lennon e Elvis Presley.
— Quem não me conhece fica nervoso comigo. Quem já está acostumado, não dá bola. Depois que o cara está Matusalém (personagem bíblico conhecido pela longevidade) como eu, fica meio mal-humorado mesmo. Eu sou um cara bom, é só tirar os defeitos — brinca Getúlio.
Acervo recheado de raridades
A Boca do Disco é um parque de diversões para colecionadores, que passam horas garimpando raridades. A loja conta com um acervo que ultrapassa 40 mil discos de vinil e CDs. Dentro de prateleiras e caixas, encontram-se álbuns das mais diversas vertentes de rock, MPB, jazz, blues, hip-hop e até de artistas pop da atualidade, como Taylor Swift.
— Tu quer lixo? Eu tenho lixo para te vender. Mas posso te apresentar o pai dessa banda, que era melhorzinho — costuma dizer Getúlio ao responder pedidos de clientes.
Os discos são divididos por gêneros: usados, novos e importados. Vinis que custam até R$ 3 mil ficam espalhados entre outros de menor valor. Segundo Getúlio, poucos os reconhecem. Para saber o preço de cada um, é preciso perguntar ao dono da loja.
— Sei todos de cabeça — diz o vendedor, que aceita apenas dinheiro e Pix como formas de pagamento.
Um balaio na entrada da loja tem LPs vendidos a R$ 10 devido à condição das capas. Os discos oferecidos pelo homem citado no inicio da reportagem foram parar neste espaço. Ao avaliar dois discos de punk rock, Getúlio questionou:
— Esses são da tua fase de "aborrescência", né?

Os "venenos" da loja
Getúlio também tem momentos de seriedade. Ao falar de seus artistas preferidos, diz que a maioria não está no catálogo de streamings na internet. São bandas tão desconhecidas que só podem ser encontradas em mídias físicas, que o vendedor garimpa para ter em sua loja. Esses itens são chamados de "venenos".
— São bandas que tu vai ouvindo e não consegue mais voltar atrás. Muitos ouvem esses artistas pela primeira vez aqui na loja. Vão para casa, ficam com isso na cabeça e voltam para comprar o disco — afirma o vendedor.
Clientes famosos
Segundo Getúlio, "comprador de disco é que nem bêbado: vê uma porta aberta e entra". Durante o tempo em que a reportagem esteve na Boca do Disco, o espaço nunca esteve vazio. Além de colecionadores e pessoas vendendo seus discos, a loja recebe muitos artistas.
Marcelo Gross, guitarrista e compositor da banda Cachorro Grande, é um assíduo frequentador desde os 13 anos. A admiração pelo vendedor é tanta que ele o chama de "enciclopédia do rock" e "velho professor".
— É um ponto cultural da cidade — diz Gross. — Vou na loja do Getúlio atrás de discos raros, completei muitas coleções com ele. Sempre foi essa figura "simpática" e engraçada. Ele tem um senso de humor bem peculiar, que eu entendo e por isso me divirto.
O músico também é "vítima" das críticas de Getúlio às suas bandas favoritas:
— Ele mostra coisas muito diferentes. Não tem uma vez que eu vá conversar com ele e não saia com um artista "novo" para pesquisar. Ele é uma espécie de biblioteca para nós, músicos — acrescenta o artista.
Nomes como Alceu Valença, Frejat, Kid Vinil, Luiz Melodia e Júpiter Maçã também já compraram discos com Getúlio.

Clientes fiéis
Alguns clientes do dia a dia viraram amigos e ganharam apelidos. Os "paulinhos" são aqueles que frequentam a loja, mas compram poucos discos. As peças escolhidas costumam ser chamadas de "budismo", nome que Getúlio dá a trabalhos mais conhecidos.
O empresário Paulo Lindner começou a colecionar CDs na loja de Getúlio. Hoje, tem um acervo com mais de 10 mil itens em casa.
— Me desfiz do vinil na década de 1990 e apostei só nos CDs. Depois me arrependi, mas agora está muito caro para voltar para o vinil. Eu compro em várias lojas, mas o Getúlio é quem tem mais coisas — diz o cliente.
Pedro Godoy é outro cliente e colecionador que frequenta a Boca do Disco. O preço elevado do vinil também o fez trocar de mídia.
— Já tive muitos discos. Ficou muito oneroso de manter, então voltei para o CD. Sempre que eu me apertava de dinheiro, eu trazia os discos aqui, e ele (Getúlio) comprava. Mas nunca me desapeguei totalmente — diz Godoy.
Getúlio reconhece que o vinil está caro até para ele.
— Tem que importar. O vinil é bom para aquele cara "doentinho de uma banda só": o colecionador de Elvis, de Deep Purple. O cara que só compra uma coisa, que não conhece nada, só aquela banda — gargalha Getúlio.

Início de trajetória
Antes de ser vendedor, Getúlio também era colecionador de discos. No início da década de 1980, quando trabalhava como vendedor na Renner, ficou apertado de dinheiro e teve que se desfazer de parte da sua coleção.
Assim como ocorre hoje em sua loja, ele ofereceu seus discos para um vendedor, mas não gostou da proposta que recebeu. Decidiu, então, ele mesmo anunciar seus itens.
Começou a vendê-los em um box no Brique da Redenção, onde ficou até o inicio da década de 1990, quando abriu sua primeira loja na Rua José do Patrocínio. A mudança para a Marechal Floriano ocorreu anos depois.
— Comecei a crescer com isso. Depois, vários clientes meus começaram a montar suas próprias lojas.

Reforço na loja
Até a pandemia, Getúlio trabalhava sozinho. Ele mesmo garimpava, catalogava e vendia os discos. Em 2021, o cliente Daniel Azambuja pediu emprego para o amigo e desde então é o responsável por organizar o estoque de discos e despachar as vendas online.
— O meu objetivo é nunca atender clientes. Tenho pavor — diz Azambuja. — Gosto de ficar cadastrando, organizando os discos. Muita gente compra de nós pela internet porque não acha essas raridades em suas cidades. Mas o bom mesmo é tu ir na loja. Fuçar, mexer e se surpreender ao encontrar algo que tu nunca pensou que fosse achar.
Fé no vinil
Hoje, metade do que é vendido na Boca do Disco é CDs e a outra metade, LPs. Getúlio se lembra de quando o vinil se enfraqueceu:
— A época em que ganhei mais dinheiro foi quando explodiu o CD. Os caras encostavam o carro com dois, três engradados de vinil e trocavam por 10 CDs. Uma vez, (o dono de) uma loja concorrente me vendeu todo o estoque de vinil que ele tinha. Depois, se arrependeu, teve que começar tudo de novo — lembra. — Lá fora, nunca pararam de prensar vinil, então eu sabia que não estava acabando, como se achava no Brasil. Eu nunca larguei o vinil e nem vou largar.

