
Moradores do entorno da escadaria da Rua 24 de Maio, que conecta a Rua Duque de Caxias com a Avenida André da Rocha, em Porto Alegre, experimentam o encanto de viver em um ponto cultural — e até mesmo turístico — e, ao mesmo tempo, a frustração com a falta de revitalização da área e a sensação de insegurança.
Ao visitar o local no último dia 26, Zero Hora ouviu de moradores elogios ao silêncio — já que veículos não trafegam por lá — e à beleza dos azulejos instalados nos degraus pela artista Clarissa Motta Nunes em 2011.
Por outro lado, a escadaria exibe sinais de degradação, com lajotas soltas no piso e cantoneiras e guarda-corpos enferrujados. Pessoas com dificuldades de locomoção ou deficiência visual e idosos correm risco de quedas.
Conforme a Associação dos Amigos da 24 de Maio e Adjacências (Amivi), a última revitalização da escadaria foi em 2007. Reportagem de GZH de outubro de 2024 chamou atenção para a situação.
"Eu amo morar aqui", diz aposentada

A aposentada Eva Marlete Campos, 83 anos, escolheu viver junto à escadaria em 1978. Aos sábados, promove uma feira de doação de livros no local. Às vezes, organiza eventos culturais, com cantores e poetas, e até promove festa de Natal.
A ideia, segundo explica, é ocupar o espaço para "afastar desocupados e marginais". Presidente da Amivi, ela conhece as vantagens e os dissabores de morar no local, que conecta a parte alta do Centro Histórico com a Cidade Baixa.
Eu amo morar aqui. Quando vim para cá, era um espaço degradado, não era bonito. Estamos sempre na luta pedindo melhorias.
EVA MARLETE CAMPOS
Aposentada, 83 anos
Para Dona Eva, morar junto à travessia facilita a locomoção pelo Centro, o acesso ao transporte e aos demais serviços públicos e ainda garante proximidade com hospitais, como a Santa Casa de Porto Alegre. Os visitantes, atesta, chegam dos mais distantes lugares:
— Já tivemos oportunidade de falar com pessoas que vieram da França. Viram fotos da escadaria e decidiram conhecer.
Uma mulher nua na escadaria
Após mais de quatro décadas residindo ali, não faltam histórias inusitadas. Uma delas ocorreu há alguns anos, em torno das 6h.
— Levantei cedo, abri a porta para olhar a escadaria e descia uma moça. Detalhe: completamente nua. Me assustei, e ela ainda falou para mim: "Oi, a senhora quer tirar uma foto comigo?" — diverte-se Dona Eva.
Promessa de melhorias
A moradora conta que, no passado, a escadaria era suja, escura e perigosa. Assaltos eram comuns. Agora, o local tem iluminação com lâmpadas LED. Os moradores instalaram câmeras de segurança com recursos próprios nas portas de alguns prédios.
— Com relação à degradação do mobiliário, precisamos que a prefeitura dê uma olhada e aja. Não podemos mexer no piso, quem tem que mexer é a prefeitura. Que o poder público também faça a sua parte: a conservação — diz.
Procurada pela reportagem, a prefeitura de Porto Alegre informa que o programa POA Futura vai contemplar a reforma das escadarias das ruas João Manoel, 24 de Maio e Dom Sebastião, todas no Centro Histórico. O edital tem previsão de publicação para o início do segundo semestre de 2026.
Músicos na área

Alguns músicos optaram por viver neste recanto da cidade. Com uma pegada cultural, a escadaria facilita os deslocamentos de quem precisa fazer apresentações pela região.
O cantor e compositor Claudio Brasil, 52, é um exemplo. Vive há três anos no apartamento de propriedade de um amigo também músico, o baixista Alexandre Rossetto, da banda Moby Dick.
— Aluguei o apartamento justamente por oferecer essa possibilidade de tocar em vários lugares por aqui. A escadaria te dá vazão para todos os lados — avalia Brasil.
O músico diz que o fato de a escadaria ser um cenário frequente para sessões de fotos para festas confere um clima especial.
Às vezes, tu chegas do serviço e tem uma noiva ou uma menina de 15 anos fazendo poses. Muda até o aspecto anímico daqui. Isso é maravilhoso.
CLAUDIO BRASIL
Cantor e compositor, 52 anos
Segurança preocupa
Entretanto, Brasil diz que sente falta de mais segurança. Ele próprio já foi vítima de violência no local: em uma noite, retornando para casa depois de um show, foi agredido pelas costas com uma paulada na cabeça. O ladrão levou seu celular.
Quem também relata falta de segurança é o músico Rodrigo Alquati, 53, que toca violoncelo na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). Natural de Caxias do Sul, na Serra, já viveu em países como Estados Unidos e Alemanha. Morou em diferentes pontos do Centro Histórico e há cerca de um ano optou por residir no entorno da escadaria.
— Meus filhos já foram assaltados duas vezes aqui. Levaram os celulares deles. Os episódios ocorreram no horário da manhã, quando saíam para ir ao cursinho — relata.

Procurada pela reportagem, a Brigada Militar afirma que mantém policiamento ostensivo permanente no Centro Histórico e em áreas adjacentes, incluindo a Rua 24 de Maio. Segundo a BM, indicadores criminais demonstram redução nos registros de roubos a pedestres na região (veja os dados ao final).
Já a Guarda Municipal de Porto Alegre afirma que a escadaria da Rua 24 de Maio integra as rotas regulares de patrulhamento preventivo, com rondas e abordagens frequentes no local.
Retorno dos impostos
Alquati menciona que, às vezes, estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) fazem festa na escadaria, o que leva dezenas de jovens ao espaço.
Por outro lado, diz ele, há quem não respeite a importância do local, a exemplo de pessoas que urinam na escadaria ou que tentam furtar as lajotas do piso.
Morei vários anos na Europa e nos Estados Unidos, onde vemos o retorno dos impostos. Queremos isso aqui também.
RODRIGO ALQUATI
Violoncelista, 53 anos
Dados da Brigada Militar
Veja o que diz trecho de nota enviada à reportagem:
"Os indicadores criminais demonstram redução nos registros de roubos a pedestres na região (Centro Histórico e áreas adjacentes). No período de outubro a dezembro, as ocorrências passaram de 344 registros em 2024 para 180 em 2025, o que representa uma queda de 47,67%. Já entre os dias 1º e 20 de janeiro, houve redução de 31,88% no comparativo entre os anos de 2025 e 2026."





