
Uma percepção dos motoristas que circulam nas ruas de Porto Alegre se confirma em números: há menos agentes da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) fiscalizando o trânsito na Capital. Levantamento da Rádio Gaúcha com base em dados da prefeitura aponta que, nos últimos seis anos, houve redução de 8,75% no número de azuizinhos atuando em fiscalização externa — e 2025 se encerrou com a menor quantidade nesse recorte de tempo.
Em 2020, eram 491 agentes de trânsito; em 2025, 448 (veja ano a ano no infográfico abaixo). De acordo com a EPTC, um número considerado ideal para Porto Alegre ficaria entre 500 e 550 profissionais nas ruas.
Na manhã da última quinta-feira (15), a reportagem foi até um dos pontos de reclamação dos motoristas: o cruzamento das avenidas Baltazar de Oliveira Garcia com a Dona Alzira, no bairro Sarandi, na Zona Norte. Não havia nenhum agente no local. Apesar da obra que bloqueia duas faixas da avenida, o movimento estava tranquilo, mas nem sempre é assim.
Alex Silva, 51 anos, tem um comércio na Dona Alzira e conta que, em novembro do ano passado, uma obra abriu um buraco próximo ao seu estabelecimento, e a falta de fiscalização gerou desordem e preocupação:
— Pessoal entrando na contramão, subindo na calçada. E isso é todo dia. No mínimo quatro ou cinco vezes.
Do outro lado da cidade, duas sinaleiras estavam fora de operação na Oscar Pereira com Madre Ana e Intendente Azevedo, no bairro Glória. Quando a reportagem chegou ao local, por volta de 10h, não havia agentes orientando o trânsito.

Trabalhadores da região relataram que em nenhum momento houve sinalização manual. O entregador de água e gás, Henrique Cardoso, 31 anos, faz o trajeto todos os dias e queixa-se:
— Fica bem difícil atravessar da Oscar Pereira para a Intendente, e tem risco de acidente. Esses dias ficou o dia todo sem azulzinho para auxiliar o trânsito na Madre Ana.
Novo concurso está no radar
A EPTC informa que a presença de agentes em cruzamentos com sinaleiras inoperantes ou em obras é definida por fluxo de veículos, registro frequente de acidentes ou risco à população.
O último concurso da EPTC ocorreu em novembro de 2016, mas os aprovados só foram chamados em 2023, perto da validade do certame vencer. Na ocasião, foram convocados 46 agentes, além de um por determinação judicial.
Conforme o órgão, um novo concurso público para auditor interno, engenheiro mecânico e cadastro reserva para agentes de trânsito esá previsto para ser realizado. O diretor presidente da EPTC, Pedro Bisch Neto, afirma que o pedido já foi aprovado pela Secretaria da Administração, mas que o número de vagas não foi definido:
— Estamos preparando o material. Vamos contratar uma empresa para realizar o concurso e acredito que no início de março já teremos algo definido.
Para o Sindicato dos Agentes de Trânsito de Porto Alegre (Sintran), o déficit de agentes é grande e crescente. Diretor financeiro e administrativo do Sintran, Rafael Neumann afirma que a falta de profissionais fica mais evidente em dias de chuva, quando os agentes acabam sobrecarregados.
— Dez anos atrás, éramos quase 700 agentes. Então, não adianta fazer concurso e chamar menos de 50. Não é o suficiente — diz.
Criada em 1998, a EPTC esclarece que, no final de 2010 registrou o maior número de agentes na ativa: 648 — impulsionado pelo chamamento de 97 candidatos aprovados no concurso público de 2007. Como havia ainda saldo de funcionários vinculados à antiga Secretaria Municipal de Transportes, o número de agentes nas ruas chegou próximo de 750. A empresa, contudo, só tem registros da série a partir de 2020.
Desde então, conforme a EPTC, foram realizadas 15 rescisões em decorrência de aposentadorias no ano de 2023, nenhuma em 2024, e quatro em 2025.
A EPTC divide Porto Alegre em quatro áreas: Norte, Sul, Leste e Centro. Cada uma das áreas conta com cerca de 81 agentes, distribuídos nas 24 horas do dia com jornada de seis horas. A atuação dos azuizinhos é feita, geralmente, em duplas.
O diretor presidente da EPTC argumenta que o aumento do monitoramento eletrônico diminuiu a necessidade de agentes. Bisch Neto admite que o número de azuizinhos está abaixo do ideal e que em alguns momentos são necessários ajustes e horas extras, mas avalia que a situação não é grave:
— Estamos com o basicamente o mesmo número de agentes nos últimos seis anos e tivemos um reforço na automação, como lombadas eletrônicas, radares e pardais que aliviam a rotina do serviço prestado nas ruas. Estamos atentos ao número de agentes, não podemos baixar.




