
Um pedaço importante da história de Porto Alegre passa despercebido por alguns em meio ao caos urbano. O primeiro prédio da Santa Casa de Porto Alegre, no Centro Histórico, preserva a memória do hospital mais antigo em atividade no Rio Grande do Sul. Ornamentos e outros elementos da fachada resistem às ações do tempo devido a diversos restauros feitos ao longo de sua existência. Para que siga assim, mais uma intervenção começará neste ano.
Fundada em 19 de outubro de 1803, a Santa Casa de Porto Alegre inaugurou o prédio das primeiras enfermarias apenas em 1826, onde hoje fica a Rua Professor Annes Dias. Nos anos seguintes, o local passou por obras de ampliação. Desde 1860, o edifício abriga o Hospital Santa Clara, que possui assistência médica em 30 especialidades nas áreas de clínica médica, clínica cirúrgica e materno neonatal.
A fachada histórica desse prédio está incluída em um pacote de melhorias a serem feitas pela Santa Casa neste ano. Também estão previstas ações nas fachadas do Hospital São Francisco (inaugurado em 1930 na mesma rua) e no Centro Histórico Cultural da Santa Casa, instalado em casas de 1906 na Avenida Independência.
— As fachadas estão bem desgastadas por causa das chuvas e intempéries ao longo dos anos. Precisamos ajustar patologias do prédio, esquadrias e pintá-lo todo na frente — diz a coordenadora de engenharia de modernização da Santa Casa, Vanessa Alves.
Como ficará
Somadas, as três fachadas que passarão por reforma contam com mais de 400 metros de extensão. A gestão da Santa Casa pretende iniciar a obra ainda este ano, mas não há uma data definida.
Os trabalhos levariam 12 meses para ficarem prontos, calcula a engenheira Vanessa Alves:
— Vai causar algum transtorno. Vamos instalar estruturas na calçada e, para isso, precisaremos de liberação da EPTC.
Além de reformar e pintar as fachadas, a gestão da Santa Casa diz que vai instalar iluminação cênica em frente aos imóveis, a exemplo de outros edifícios históricos da Capital, como o Mercado Público, o Paço Municipal e o Palácio Piratini.
Veja abaixo a projeção de como ficarão as fachadas:
A obra tem custo estimado em R$ 1,6 milhão. Para viabilizá-la, a Santa Casa busca empresas parceiras que queiram doar materiais ou bancar parte do valor em troca de estampar sua marca em cartazes na fachada.
Parcerias como essa já foram feitas em restauros passados. As empresas interessadas podem entrar em contato com a instituição pelos e-mails:
- vanessaalves@santacasa.org.br
- modernizacaoengenharia@santacasa.org.br
História
Em uma história de 223 anos, a Santa Casa de Porto Alegre tem muitas datas marcantes. Fundada em 19 de outubro de 1803, inaugurou as primeiras enfermarias em 1826. Conforme lembrou o colunista de GZH Leandro Staudt, a conclusão da obra aconteceu depois da criação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Em 1806, a construção do prédio parou devido à morte do engenheiro Francisco João Roscio. Em estruturas improvisadas, os pacientes já recebiam atendimento. Em dezembro de 1814, em busca de uma solução para a retomada da obra, moradores ricos da cidade criaram a irmandade, que ficou responsável pela administração.
A Misericórdia é um modelo de instituição portuguesa para atendimento de saúde e caridade. Em 1827, chegou de Lisboa o regulamento para o funcionamento do hospital. O documento guiou o trabalho da entidade até 1857, quando foi redigido o primeiro texto adequado à realidade regional.
Nos arquivos da Memória Cultural de Porto Alegre, um escrito do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, datado de 1820, ilustra o quanto a cidade se transformou em 200 anos:
"Fora da cidade, sobre um dos pontos mais elevados da colina onde ela se acha construída, iniciou-se a construção de um hospital, cujas proporções são tão grandes, que provavelmente não seja terminado tão cedo, mas a sua posição foi escolhida com rara felicidade, porque é bem arejado, bastante afastado da cidade".
Passados dois séculos, o primeiro prédio da Santa Casa se mistura ao cenário urbano do Centro Histórico, entre semáforos, fiação de luz, paradas de ônibus e até uma árvore plantada por um capelão, bem em frente à porta principal, bloqueando a vista da fachada a partir da praça.


