Do picolé baratinho à receita artesanal que combina sabores autorais e até frutas nativas, as sorveterias têm se multiplicado em Porto Alegre com opções de negócios que vão ao gosto — e ao bolso — de quase todo mundo. As lojas especializadas em sorvetes estão ganhando cada vez mais espaço na Capital, mostrando uma tendência que tem a ver, também, com uma mudança de consumo.
Apesar da percepção a respeito do aumento do número de lojas, o fenômeno não aparece em números oficiais. A atividade é considerada de baixo risco, por isso dispensa a necessidade de alvará. O último registro do tipo emitido pela prefeitura é de 2023. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, são 210 sorveterias com alvará em operação em Porto Alegre, mas o número real de lojas tende a ser maior.
Para os empreendedores do ramo, o momento é de oportunidade. Antes do boom, a venda de sorvetes e picolés ficava restrita a supermercados ou sorveterias que ofereciam serviço de buffet. Mas o surgimento das lojas especializadas trouxe nova forma de consumir, inclusive em quantidade. O consumidor também se tornou mais exigente com suas restrições e preferências, abrindo espaço para as produções inclusivas, artesanais e “gourmetizadas”.
De acordo com a Associação Brasileira do Sorvete e Outros Gelados Comestíveis (Abrasorvete), o setor cresceu quase 7% em 2025 no país, com grande participação da Região Sul neste montante. Os investimentos realizados ao longo do ano, inclusive, dobram a aposta para 2026. A projeção da entidade é de que o setor de sorvetes fature 16,3% mais ao longo deste ano.
Sorvete, gelato ou sorbet? Entenda as diferenças
- Sorvete: é o doce gelado preparado com água, gordura, açúcar e saborizante. A receita costuma ser um produto industrializado, o que garante maior prazo de validade. Sua produção permite grande variedade de sabores.
- Gelato: de preparo mais artesanal, leva menos gordura na receita e prioriza ingredientes naturais e diferenciados para receitas de sabores autorais. No Brasil, o nome de origem italiana é usado como sinônimo de sorvete premium.
- Sorbet: feito à base de frutas, açúcar e água, o doce congelado não leva derivados de leite em sua composição. Por isso, tem textura menos cremosa que os demais tipos. Pode existir tanto na gelato quanto na versão tradicional.
Variados modelos de negócio
A expansão no setor de sorvetes tem efeitos no modelo de negócios. Dentre as sorveterias que têm se destacado como “pop” entre o público, muitas operam em formato de franquia, o que amplia o alcance de redes novas e já conhecidas.
Matheus Krauze, um dos sócios da Soft, conta que a marca de sorvete do Paraná foi criada em 2020 já com planos de expansão. Há dois anos, migrou para o modelo de franquia, estando presente em oito Estados, com 20 lojas. Até o fim do ano, o objetivo é estar com 50 unidades de sorveterias da rede abertas pelo país.
Neste meio, Porto Alegre vem despontando como um dos locais que melhor abraçou a marca. Para Krauze, o sucesso se explica por uma demanda do próprio público, até então desassistido de tantas sorveterias. As poucas e conhecidas redes ficavam restritas a bairros tradicionais ou a pontos em shopping centers.
— A percepção é de que Porto Alegre estava desassistida de boas sorveterias se comparado a outras capitais. Nossa primeira loja gaúcha foi aberta em março de 2025, um sucesso logo de cara e uma das lojas mais bem posicionadas na rede, que já se encaminha para a terceira unidade em Porto Alegre — completa o empreendedor.
Joal Aramburu, um dos fraqueados na Capital, se prepara para abrir sua segunda loja da Soft, no bairro Bom Fim. A primeira fica na Cidade Baixa. Para o empreendedor, os porto-alegrenses estavam limitados a marcas que não se preocupavam em inovar as suas linhas de produtos.
— Faltava uma sorveteria com esse apelo, que são sabores diferentes, um sorvete de máquina com alta qualidade, com preço mais atrativo que outras marcas artesanais igualmente de boa qualidade. Até a tecnologia para fazer um sorvete cresceu, e isso explica um aumento do setor — diz Aramburu.
A garantia de qualidade tem a ver com uma estratégia de operação enxuta. Apenas quatro sabores fixos compõem o cardápio da Soft — iogurte, frutas vermelhas, caramelo salgado e pistache. Além disso, o produto é enviado 80% pronto para o franqueado, eliminando eventuais erros na receita ou dificuldades de operação. A fabricação fica em Cotia, no interior de São Paulo.
Preço em conta puxa o volume
Famosa pelos sorvetes e picolés a baixo custo, a catarinense Eskimó Sorvetes é uma das marcas que mais abriu lojas nos últimos anos. São 52 unidades no Estado, 11 delas em Porto Alegre, em diversos bairros. As lojas operam tanto como filiais da fábrica quanto como pontos licenciados para terceiros.
O gerente de marketing da Eskimó, Tiago Goulart, atribui o crescimento ao modelo de negócio adotado, que foca na venda de sorvete por atacado. O formato, diz, aproveitou uma brecha de mercado que antes só vendia sorvete de balcão, direto no buffet.
Além da presença como “supermercado de sorvete”, a marca busca se posicionar pelo preço acessível, patamar que só é possível de se alcançar pela produção em escala. A fábrica em Içara, Santa Catarina, produz 1,5 milhão de picolés ao dia.
— O preço é uma estratégia. Conseguimos entregar um produto barato, mas com variedade e qualidade — diz o gerente.
Sobre o mercado gaúcho, afirma que o Rio Grande do Sul está entre os “queridinhos”:
— É um mercado muito bom. O gaúcho deixa claro que gosta do produto, mas também dos preços de fábrica. Ou seja, ele foca no valor acessível, mas desde que tenha variedade e qualidade.
Os potes de dois litros de sorvete custam de R$ 19 a R$ 27, e os picolés de R$ 1,50 a R$ 7,50.
Responsáveis por pontos da marca na Capital contam que as lojas chegam a receber de 300 a 400 clientes por dia, em média. Nesses locais, o foco das compras é a grande quantidade. Os empreendedores também comentam sobre o maior alcance da Eskimó nos últimos anos. Se antes a rede era associada aos públicos C e D, hoje a marca está presente também em bairros conhecidos pela presença de sorveterias “de grife”.
Produção e ingredientes diferenciados
A aposta no ramo de sorvetes por marcas já consolidadas na gastronomia só reafirma como o setor vem se tornando atrativo. Famosa em Porto Alegre pela panificação de estilo uruguaio, a Sabor de Luna inaugura neste verão a sua segunda operação voltada aos gelatos artesanais. Fica ao lado da loja matriz, no bairro Mont' Serrat, com a alcunha de El Lato.
Tatiana Druck, uma das sócia-proprietárias da Sabor de Luna, diz que a investida na “heladería”, como se diz no Uruguai, tem tudo a ver com o propósito da marca de produzir de forma artesanal. Foram anos de pesquisa até se chegar ao produto final.
— O diferencial do gelato para os sorvetes em geral é o frescor, ser feito todos os dias, batido na hora, no local, não usar conservantes. Os insumos fazem toda diferença no resultado. Já fazíamos isso na confeitaria e na padaria, e quando decidimos agregar essa nova família ao mix foi como juntar uma coisa à outra — conta Tatiana.
Os gelatos costumam ser mais caros em relação às demais sobremesas geladas, e essa diferenciação de preço está justamente no processo de produção e nos ingredientes utilizados. Sabores autorais como alfajor, chajá (tradicional torta uruguaia) e medialuna estão entre as delícias lançadas pela marca.
Mesmo mais caro, a percepção dos empreendedores é de que os consumidores estão cada vez mais aprendendo a apreciar um bom sorvete.
Prova disso é o mercado, que abraça a demanda. Com sucesso de aprovação, o plano da Sabor de Luna é abrir seis novas unidades de gelato nos próximos três anos. Parte desta meta passa por “treinar o gosto do cliente”, criando campanhas para desmitificar o consumo dos “helados” no inverno, como item para o ano todo.
— O mercado tem tido muito mais oferta, novas marcas estão chegando por aqui, e assim vai se popularizando o entendimento e o consumo do gelato. Isso abre espaço para produções menores e locais, que também se consolidam por aqui — diz Tatiana.





