
Palco do primeiro confronto da Guerra dos Farrapos e de uma missa rezada pelo papa João Paulo II, a Azenha é uma das mais antigas e movimentadas avenidas de Porto Alegre. A via corta o bairro de mesmo nome e é usada como ligação para outras regiões da Capital. Sua principal vocação hoje é para o comércio, que persiste no local apesar das transformações do varejo ao longo dos anos.
Moradores e lojistas recordam dos tempos áureos da Azenha, quando a avenida era conhecida por ser um "shopping a céu aberto". Na segunda metade do século passado, a avenida abrigava algumas das marcas de roupas mais famosas da cidade — quando a moda fast-fashion ainda nem existia por aqui. Na antiga Casa Lú, por exemplo, formavam-se filas aos finais de semana.
— A gente ia passear na Azenha. Comprei muitas roupas lá. Tenho coisas da Casa Lú até hoje, a qualidade era muito boa — lembra Maria José Morem Schimitt, 69 anos, moradora do bairro desde a infância.
Vice-presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS), o empresário Cezar Sperinde recorda que, com a chegada dos shoppings centers em Porto Alegre, na década de 1980, muitas das marcas que estavam na avenida transferiram suas operações para dentro desses centros comerciais. Um dos motivos foi o elevado valor dos aluguéis cobrados pelos donos de imóveis na Azenha naquela época.
Com isso, a avenida ganhou novas características. O comércio, que antes era formado por marcas de produtos caros, passou a ser composto por serviços e lojas populares.
— Era um lugar para tu resolver a tua vida. A demanda de imóveis e empresas para a Azenha era uma loucura. As empresas que saiam dali vendiam o seu ponto. Hoje não tem mais isso — lembra Sperinde.
A Azenha sem o Olímpico
De 1954 até 2013, o Estádio Olímpico teve papel fundamental para o desenvolvimento do bairro Azenha. A avenida homônima era um dos caminhos que levavam gremistas ao local em dias de jogo. Desde que a antiga casa do Grêmio foi desativada, há 13 anos, comerciantes no entorno sentiram o baque.
O empresário Diogo Grilli recorda com nostalgia o movimento em sua lancheria nos dias de jogo. Tanto na ida como na volta, gremistas paravam para consumir no local.
— O Olímpico atraia muito público. Pessoas que vinham só por causa dos jogos. Os mais jovens não conhecem a Azenha. Quando o Grêmio saiu foi bem complicado, mas demos uma estabilizada depois. Achamos um outro público — conta Grilli, que abriu a lanchonete Lebrão há 27 anos.

O bar ainda conta com clientes fiéis que o frequentam desde a época em que o Olímpico ainda recebia jogos. Porém, Grilli diz que começou a apostar no delivery para recuperar o faturamento perdido.
— Ainda recebemos muito aquele pessoal que vem resolver algo na avenida. Para, faz um lanche e depois vai para casa — conta o empresário.
Grilli tem esperança de que um imbróglio que envolve Grêmio, prefeitura e a empresa que negociou a compra do Olímpico ainda se resolva. O projeto original previa que depois da construção da Arena do Grêmio, no bairro Humaitá, um condomínio de prédios seria erguido no lugar do antigo estádio da Azenha, atraindo centenas de moradores — e potenciais clientes — para o bairro.
Avenidas de Porto Alegre
A Azenha de hoje
Hoje, ao longo dos quase dois quilômetros de extensão da Avenida da Azenha há 49 lojas de rua fechadas — dessas, 45 estão disponíveis para locação, segundo o Secovi-RS. Apesar do número elevado, a sensação é de que o comércio segue aquecido no local.
A Azenha pode ser dividida em três trechos:
Trecho 1 (da João Pessoa até a Ipiranga):
- Lojas de serviços, brechós, briques, lanchonetes e o Shopping João Pessoa. Em frente ao empreendimento, um novo condomínio está sendo construído.
Trecho 2 (da Ipiranga até a Bento Gonçalves):
- Forte presença de mecânicas, lojas de autopeças e farmácias. Trecho também conta com um edifício de 18 andares, o mais alto da avenida.
Trecho 3 (da Bento Gonçalves até a José de Alencar):
- Comércio mais variado. Muitas lojas de móveis e eletrodomésticos, bares, bancos, farmácias, óticas, supermercados. Quase no encontro com a José de Alencar, começam a surgir concessionárias de veículos.
Em 2019, a Azenha tinha 199 imóveis disponíveis para locação. O número aumentou para 268 em 2021, na pandemia. Nos anos seguintes, com o retorno do comércio presencial, os espaços voltaram a ser ocupados (veja no gráfico abaixo).
Contudo, em 2025, locatários voltaram a devolver seus pontos na avenida. Cezar Sperinde, vice-presidente do Secovi-RS, explica:
— Na pandemia, muitos negócios foram encerrados, mas outros foram abertos depois. Depois da enchente, a Azenha foi muito procurada, pois a região não alagou. Sendo assim, o preço dos aluguéis tende a aumentar, mas nem todos quiseram pagar — diz Sperinde.
Diferente de outras avenidas onde há corredores de ônibus, parte da Azenha conta com faixas exclusivas para coletivos — mudança efetivada na década de 1980. Sendo assim, o passageiro desce e embarca direto na calçada, junto ao comércio.
Segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA), Carlos Klein, esses seria um dos motivos da longevidade da Azenha. Contudo, ainda há o que ser melhorado na avaliação do empresário.
— A Azenha persiste como um grande ponto de varejo da Capital, mas conta com poucas vagas de carro, o que afasta o cliente de maior poder aquisitivo. Também tem a dificuldade do mobiliário urbano, que é mais antigo. Postes com fios pendurados acabam depreciando o visual da avenida — diz Klein.

Além da concorrência com os shoppings centers, o presidente da CDL lembra da disputa do varejo físico com as lojas online. É um movimento que ocorre no mundo todo, mas, na Azenha, a lógica parece ter se invertido. Recentemente, a Madeira Madeira, que nasceu no e-commerce, abriu uma operação física na avenida para mostrar seus móveis aos clientes mais conservadores.
A marca compete com mais de uma dezena de lojas do mesmo segmento instaladas na Azenha. Uma delas é a da empresária Juliane Rocha da Silva, proprietária da Barbadão da Azenha, que está há 19 anos na via. Segundo ela, o movimento foi bom depois da enchente, puxado pela necessidade de pessoas comprarem nova mobília para suas casas.
— Foi bom, mas já estabilizou. Quando chegamos na Azenha, o movimento era fantástico. Os sábados eram os melhores dias. Não conseguíamos nem almoçar, porque tínhamos que atender as pessoas. Desde a pandemia está difícil devido à concorrência com a internet — diz Juliane.

Como sugere o nome, a Barbadão da Azenha é conhecida por ter "barbadas", ou seja, móveis com preços competitivos. Porém, Juliane disse que a concorrência neste segmento ficou muito forte na rua, então decidiu abrir uma outra loja de móveis, mas focada em produtos de tíquete médio mais elevado.
— Foi uma alternativa para variar receita e pegar um outro público — avalia a empresária.
O futuro da Azenha
Quem mora na região diz que gosta de viver ali, justificando que a barulheira dos carros e dos ônibus compensa pela comodidade de estar "perto de tudo". O bairro conta com escolas, hospital, serviços e dezenas de comércios. Porém, hoje a Avenida da Azenha é pouco adensada. Conta apenas com pequenos prédios e casarões históricos — alguns sofreram incêndios nos últimos anos.
A proposta de atualização do Plano Diretor de Porto Alegre, que ainda não foi votada na Câmara de Vereadores, prevê mudar este cenário. A macrozona 1, que inclui a Azenha, o Centro Histórico, a orla do Guaíba e parte do 4º Distrito, terá incentivo ao adensamento populacional e à atividade comercial, aproveitando a infraestrutura urbana existente. Ou seja, poderá se construir mais alto do que hoje é permitido.

A alteração do regramento foi um dos pedidos da Associação de Moradores e Comerciantes do Bairro Azenha (AMCA) à prefeitura.
— Temos algumas esquinas elencadas que estão largadas há nove, 10 anos. Hoje, elas não despertam interesse de investidores devido a essa falta de permissão — diz Delmar Moers, presidente da associação e dono de uma papelaria na Avenida da Azenha.
— Temos uma ótima infraestrutura na Azenha. A gente brinca que aqui temos um hospital, onde tu pode nascer, e também cemitérios para o fim da vida — gargalha o empresário.
Além de pedir mais moradias no bairro, o presidente da associação sugere que mais árvores sejam plantadas para embelezar e criar sombra na avenida, que hoje é bastante cinza.
Procurada, a prefeitura diz não ter um projeto para revitalizar a Azenha, a exemplo do que prometeu para a Farrapos. A única obra que envolve a via nos próximos anos é a do restauro da Ponte da Azenha, que fica sobre o Arroio Dilúvio. O investimento previsto é de R$ 3 milhões.






