
Dez dias longe de casa, perdido em Porto Alegre e sem saber para onde ir. O que poderia ter terminado em tragédia virou o que talvez seja a maior aventura da vida de Pituco, uma pequena e topetuda calopsita de quatro anos.
Pituco invadiu um apartamento telado e habitado por dois gatos, mobilizou um grupo de moradores do bairro Menino Deus e retornou para casa na última terça-feira (20). A história foi contada no programa Gaúcha Mais, da Rádio Gaúcha. Confira:
Tudo começou quando, vivendo em uma cobertura na avenida Getúlio Vargas, Pituco e outra calopsita alçaram voo por uma janela aberta.
A fuga acidental aconteceu enquanto o tutor dos animais, o empresário Luiz Mezzomo, fazia uma faxina rotineira do espaço onde vivem os pets.
— Foi um descuido meu, e eu estava há muito tempo sem cortar as asinhas deles. Um fugiu, eu fui atrás e resgatei. Quando eu voltei, saiu o outro, eu me atrapalhei e saíram os dois, um para cada lado. — lamenta Mezzomo.
Mas o que deixa essa história curiosa é que cerca de 10 dias após o sumiço, Pituco invadiu um apartamento no quarto andar de um prédio na avenida Padre Cacique. A distância entre os dois endereços é de aproximadamente 1,5 Km.
— A gente estava na cozinha e a minha filha escutou um som diferente. Ela foi até o som que vinha do meu quarto e a gente encontrou a calopsita. Ela (a filha) tinha fechado a porta (do corredor), porque eu tenho dois gatos. — conta Matilde Meinhardt, aposentada e moradora do apartamento invadido pelo Pituco.

Além de ignorar a presença dos felinos, para entrar no apartamento a calopsita atravessou a tela de proteção das janelas. Segundo Matilde, a ave demonstrou ser doméstica, interagindo e caminhando pelo cômodo.
— Eu falei com o síndico para perguntar se era de algum morador. Ele perguntou no grupo (do prédio), mas ninguém se manifestou. — conta.

Com a negativa do condomínio, o síndico passou a divulgar o caso em grupos de moradores do Menino Deus. Foi quando uma vizinha, que é e criadora de pássaros, aceitou ser lar temporário para Pituco.
— A gente colocou a calopsita numa caixinha de transporte e a levou até a vizinha. No outro dia, de manhã, ele (o síndico) nos avisou que a vizinha tinha encontrado o dono da calopsita. — conta a aposentada que resgatou Pituco.
Pituco volta para casa
O reencontro, inclusive, foi uma surpresa para o tutor, que já estava perdendo as esperanças de reencontrar o pet.
Ele conta que foi a filha, Elisa Mezzomo, que hoje mora em Portugal, quem começou uma intensa busca pela internet para reencontrar a ave.
— Semana passada a gente teve um alarme falso onde apareceu um animalzinho muito parecido, mas a gente foi verificar e não era o Pituco.
O reencontro foi intermediado pela proprietária de um petshop que colocou Mezzomo em contato com a responsável pelo lar temporário do Pituco.
— Ela me passou o telefone da dona Maria Alice, que é uma criadora. Na conversa ela disse "vem aqui verificar" e me mandou uma foto que eu achei muito parecido. No dia seguinte, às 10 horas da manhã, quando eu entrei na pecinha lá estava o Pituco. — relembra o tutor da calopsita.
Desde que voltou para casa, Pituco ainda está se readaptando. O estresse causado pelos dias nas ruas deixou o animal mais agressivo. Mas, segundo o tutor, aos poucos Pituco está retomando velhos — e saudáveis — hábitos, enquanto espera o retorno de sua companheira.

O que pode acontecer com animais de cativeiro quando fogem?
Pituco poderia ter atravessado a avenida Padre Cacique e se abrigado nas inúmeras árvores que compõem o Parque Marinha, mas optou pelo habitat humano. E isso tem uma explicação.
Segundo o naturalista Augusto Pötter, vice-presidente e coordenador de educação ambiental do Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre, quando fogem, essas aves criadas em cativeiro não querem necessariamente a "liberdade".
Por serem extremamente domesticadas, elas costumam procurar casas ou pessoas porque associam o ambiente humano a abrigo, comida e água.
— As calopsitas não estão habituadas a procurar a própria comida, não estão habituadas a fugir de predadores, tampouco conhecem quais são os predadores locais. — explica.
Isso torna a sobrevivência dessas aves na rua quase impossível. Além disso, soltar elas na natureza é prejudicial ao meio ambiente, pois elas podem competir com espécies nativas.
Diferente da ideia do senso comum, a calopsita não é uma espécie da nossa fauna; ela é, na verdade, uma ave de origem australiana.
Encontrei uma calopsita perdida, o que devo fazer?
De acordo com Pötter, diferente de aves silvestres (que muitas vezes estão apenas aprendendo a voar e não devem ser tocadas), a calopsita na rua é um animal doméstico em perigo. Se ela estiver ferida ou em risco, você pode tentar pegá-la e colocá-la em um local aquecido e seguro.
Para procurar os tutores, atitudes como a da Matilde estão corretas. Use as redes sociais e grupos dos bairros. Como elas são mansas, costumam procurar refúgio em casas quando se perdem porque associam humanos a comida e segurança.
A alimentação pode ser feita com ração específica para calopsitas, que tem a base alimentar composta por grãos. Sementes de girassol devem ser evitas e algumas verduras, como alface, não devem ser oferecidas.
Agora, se for um animal silvestre ou se a pessoa estiver em dúvida, em Porto Alegre é possível contatar o setor de Atendimento a Animais Silvestres da Secretaria Municipal do Meio Ambiente.
O órgão atende 24 horas por dia pelo número 156 e pelo WhatsApp (51) 3289-7517.
Outra opção é o grupo Voluntários da Fauna, iniciativa tocada pela Toca dos Bichos, uma clinica referência no tratamento de animais silvestres. O contato pode ser feito pelo (51) 3341-7664.
Como recuperar a minha calopsita perdida?
Animais domesticados tendem a retornar para seus lares por terem estes espaços como ambientes seguros. O educador ambiental explica como tutores devem proceder em casos como este:
— A primeira coisa: deixe a janela aberta, põe um pouco da comida que ela goste, do alpiste, da ração, e veja se ela volta. Em concomitância, é sempre importante divulgar em grupos, mandar para as pessoas as fotos da ave, procurar por ela.
Como evitar que calopsitas fujam?
O uso de telas de proteção nas janelas é a forma mais eficaz de evitar escapes. O corte das penas das asas deve ser feito apenas por quem tem experiência, pois a região é muito vascularizada e um erro pode causar hemorragias, inclusive, fatais.
Criar calopsitas é permitido por lei?
Sim. Conforme Augusto Pötter, do Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre, as calopsitas são consideradas aves exóticas/ domésticas, por isso, não exigem uma autorização formal do Ibama para serem criadas em casa.
Embora não seja obrigatório para calopsitas, muitas possuem anilhas (anéis de metal no pé) que ajudam a identificar a origem e o indivíduo.


