
Não é de hoje que furtos de monumentos em espaços públicos acontecem em Porto Alegre. Contudo, após uma série de casos como esses em praças do Centro Histórico no ano passado, a prefeitura tomou uma decisão radical: retirar peças que ainda estavam nesses locais.
O motivo, segundo a Secretaria Municipal de Cultura, é a preservação desses monumentos. Uma das peças removidas recentemente foi o busto que homenageia José Artigas, líder revolucionário do Uruguai, que ficava na Praça da Alfândega.
"O monumento está sob posse do órgão, que está em processo de avaliação do busto e manutenção do mesmo. Ainda não há data para recolocação no pedestal na praça", informa a secretaria em nota.
Além do busto de Artigas, outras duas placas foram retiradas pela prefeitura na Praça da Alfândega. A decisão aconteceu meses após outros furtos no mesmo espaço, incluindo o de uma placa que tinha um poema de Mario Quintana gravado.
— Nós temos esse problema urbano do furto de bronze e outros metais de monumentos. Porto Alegre vive esse pesadelo, assim como a maioria das cidades brasileiras, embora tenhamos começado antes. O ano-chave dessa destruição foi 1999. A partir daí, tivemos várias levas de vandalismos e furtos de monumentos — lamenta o professor e autor do livro A Escultura Pública de Porto Alegre, José Francisco Alves.
Peças sumidas
Hoje, a prefeitura mantém resguardados em depósitos da Divisão de Patrimônio e Memória 21 bustos e monumentos que sofreram vandalismo ou depredação em praças e parques públicos da cidade. As peças — a maioria em bronze, granito e mármore carrara — estão sendo reparadas por equipes especializadas do município.
— As peças que retiramos serão restauradas e estudadas. Talvez fazer moldes para futuras réplicas que vamos precisar no futuro. Isso acontece. Tem bustos que foram roubados há 40, 50 anos e não tínhamos o molde deles — afirma a arquiteta Juliana Wagner, diretora de patrimônio e memória da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.
Os bustos e esculturas desaparecidos em 2025 no Centro Histórico ainda não foram encontrados. Quatro deles foram furtados na Praça da Alfândega:
- Monumento em homenagem ao coronel do Exército Antônio Carlos Lopes, feito pelo artista Walter Drechsler;
- O busto do jornalista Leonardo Truda, produzido pelo escultor italiano Leone Domenico Lonardi;
- Escultura em homenagem ao fundador do jornal Correio do Povo, Francisco Caldas Júnior, produzida pelo escultor italiano Luis Sanguin;
- Placa com o poema O Mapa, de Mario Quintana.
Na Praça da Matriz, também no Centro, o busto do professor André Puente, feito por Antonio Caringi, foi furtado em setembro do ano passado.
— O ideal seria que houvesse punições. Quem paga a conta é a população, que paga impostos. Perde-se um patrimônio artístico infungível, ou seja, que não há substituto. Perde-se a memória da cidade, que é uma coisa tão cara — completa o professor José Francisco Alves.
Reparos
Segundo a arquiteta Juliana Wagner, Porto Alegre conta hoje com 300 monumentos espalhados em espaços públicos. Para fazer a limpeza e a manutenção adequada destas peças, a prefeitura contratou uma empresa especializada na área. Os primeiros reparos serão feitos em monumentos no Centro Histórico.
— Hoje, muitos serviços de limpeza que a prefeitura faz não são adequados para esses monumentos. Uma coisa é trabalhar com limpeza de concreto, outra é com mármore, bronze. São materiais nobres, que têm porosidade — descreve Juliana.
A Praça da Alfândega já sofre há anos com ataques de vândalos. Um livro de bronze que faz parte do monumento dos poetas Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana já foi furtado mais de uma vez. Mas a prefeitura vence no cansaço, repondo a peça toda vez em que ela é roubada.
Outra peça que já foi roubada e recolocada na praça, mas com uma réplica em outro material, foi uma placa com a carta-testamento do ex-presidente Getúlio Vargas.
— Recuperação às vezes leva meses, e o vândalo vai lá e estraga em horas — diz a arquiteta da prefeitura.
No ano passado, a gestão municipal reativou um espelho d'água e um chafariz histórico na Praça da Alfândega. Os jatos d'água são ligados de forma programada.
Praça precisa de outros reparos
Além de atuar contra os vândalos na Praça da Alfândega, a prefeitura planeja outras intervenções no espaço.
Uma delas é no calçadão de pedras portuguesas em frente ao antigo Cine Imperial, que ficou desfigurado após uma ação do próprio município. O passeio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A Secretaria de Serviços Urbanos (SMSUrb) disse que a recolocação das pedras foi "realizada foi de caráter emergencial devido ao trânsito de veículos no local". Nesse trecho da Rua dos Andradas, é permitida a passagem apenas de veículos autorizados e pedestres.
Depois de questionada pela reportagem, a pasta diz que a recomposição dos desenhos em pedra portuguesa, conforme o padrão original do pavimento, deverá ser executada na segunda quinzena de fevereiro, respeitando as características históricas da via.



