Aos 70 anos, o nadador master Francismar Siviero transforma cada braçada em um argumento vivo em favor do envelhecimento saudável. Pouco mais de um mês depois de uma cirurgia cardíaca, realizada em 2023, ele retomou os treinos no Guaíba para seguir competindo em maratonas aquáticas pelo mundo.
— Quem nada no Guaíba nada em qualquer lugar do mundo — garante o engenheiro eletrônico aposentado.
Das brincadeiras de menino nos rios de Veranópolis às competições de polo aquático na juventude em Porto Alegre, sempre teve a vida ligada à água. Ao deixar o polo aquático, a natação surgiu como um caminho natural — e as maratonas se consolidaram na busca por superação, propósito e longevidade.
O ano de 2023 trouxe mais um desafio: durante uma caminhada com a esposa, Soraya Siviero, teve um mal-estar e precisou de atendimento médico. Foram pelo menos 30 dias de internação antes da cirurgia cardíaca, que envolveu a implantação de seis pontes de safena.
— Se ele não tivesse o preparo que tem, ou seja, se não fosse a natação, ele não teria resistido — relembra a companheira.
O procedimento foi feito pela equipe do médico cardiologista Fernando Lucchese, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
— Tudo o que ele fez como atleta antes influiu no resultado da cirurgia. A longevidade dele está intrinsecamente ligada a essa cirurgia e à natação — confirma o médico.

— Quarenta e cinco dias após a cirurgia, o médico me liberou para nadar e aí eu não parei mais — comemora Francismar.
Entre 2024 e 2025, o atleta master somou 12 travessias em águas abertas, com trechos de até quatro quilômetros, disputados no Brasil, em Portugal, na Itália e na França. Para este documentário, acompanhei ao longo de três meses a rotina de treinos na piscina e no Guaíba.
— Cada braçada minha nesse retorno é algo sensacional. É uma sensação de liberdade, de estar vivo, de poder praticar o que eu gosto. É como se eu estivesse nascendo novamente — garante.
Francismar também ampliou a relação com o esporte ao criar o projeto Nadando Pelos Cartões Postais, que usa a natação em águas abertas como ferramenta de turismo, conservação ambiental e promoção da saúde. Em seu site (francisswim.com.br), ele compartilha treinos, experiências e histórias de superação para inspirar e atrair novos adeptos ao esporte — muitos deles também na faixa dos 60 anos ou mais.

A trajetória de Francismar encontra eco no retrato demográfico do Brasil. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa 15,8% da população. O envelhecimento avança de forma acelerada e, no Rio Grande do Sul, o fenômeno é ainda mais intenso: o Estado já registra mais idosos do que crianças e lidera no percentual de população idosa no país. As projeções indicam que, em 2070, quase 38% dos brasileiros estarão acima dos 60 anos.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicam que 59,7% dos idosos praticam menos atividade física do que o recomendado. Manter hábitos ativos — como caminhar, nadar ou fazer musculação — é apontado por diretrizes nacionais de saúde como decisivo para reduzir doenças crônicas, preservar a autonomia e ampliar a qualidade de vida.
— Não dá para se pensar em longevidade sem exercício. A gente pode decidir quanto tempo a gente quer viver. Longevidade não é sorte, longevidade é conquistada — afirma Lucchese.

Francismar se destaca nesse cenário como exemplo prático do que as estatísticas e as políticas públicas recomendam. Mais do que atravessar águas frias e mares abertos, ele demonstra que a longevidade se constrói no cotidiano, com disciplina e prazer. Sua história reforça a ideia de que o exercício físico não apenas prolonga a vida, mas também dá sentido a ela — e mostra que envelhecer bem é possível quando o corpo segue em movimento.
