
Como informado pelo colunista Jocimar Farina, a prefeitura de Porto Alegre estuda a possibilidade de liberar o trânsito de carros no calçadão da Rua dos Andradas, no Centro Histórico da Capital. O trecho é exclusivo para pedestres desde 1974.
Segundo o município, a "liberação está sendo pensada para atender os prédios da região, que contariam com a possibilidade de um embarque e desembarque sem a necessidade de deslocamentos a pé. Além disso, incentivaria a circulação de mais pessoas pela via".
Mesmo que ainda esteja em análise, a eventual liberação de carros no trecho já divide opiniões (veja mais abaixo). Ao mesmo tempo em que a medida encontra defensores, que acreditam que a alteração pode contribuir para o movimento da via, há aqueles que consideram a proposta um "retrocesso".
A Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão (SMPG) afirma que que são necessárias análises técnicas da Secretaria de Mobilidade Urbana e da EPTC. A SMPG ainda afirma que, se a proposta for viável, o município irá fazer testes de impacto na segurança viária, na circulação de pedestres e no transporte coletivo.
"Somente após essa etapa haverá qualquer decisão definitiva sobre o modelo a ser adotado", diz a pasta.
Conforme a prefeitura havia informado, a troca do piso que ocorreu recentemente no calçadão já buscava, inclusive, implementar essa alteração, com a autorização da circulação de veículos. O pavimento de concreto é mais resistente que o anterior, de lajota.

"Visão simplória"
Entre os que são contra a possibilidade, está o urbanista João Celso Vargas, mestre em em Planejamento Urbano e Regional e professor do Departamento de Urbanismo da UFRGS. Para Vargas, "é uma visão simplória de querer revitalizar áreas urbanas com base no tráfego do automóvel."
— Não se pode ter essa visão na direção contrária do que hoje é a tendência global de tirar cada vez mais o carro do centro das cidades, em nome da qualidade do ambiente, diminuir a poluição, o barulho, aumentar a segurança viária e estimular o bem-estar da população — destaca.
— Até pode ter uma boa intenção de movimentar mais aquela região, mas autorizar o passagem de carros não vai aumentar o número de pessoas circulando, vai aumentar o número de carros circulando, que vão ocupar o espaço dos pedestres. Há soluções possíveis mais modernas, sofisticadas, com calçadas apropriadas para os pedestres, com sombra, acessibilidade, passagem para ciclistas, e pontos de conexão ao redor com o transporte público e com os automóveis — complementa o urbanista.
Professor da PUCRS e autor do livro Cidade Abstrata, o arquiteto Flávio Kiefer também é contra a possível mudança. Kiefer entende a possibilidade como um "retrocesso".
— É estar na contramão do mundo, pois há cada vez mais esforço para diminuir a circulação de carros e reconquistar o espaço para as pessoas, aumentar a caminhabilidade das cidades. Já há trechos próximos onde a circulação de carros é liberada e, para ter segurança em determinado ponto, é preciso aumentar o policiamento, não simplesmente permitir a passagem de veículos, porque as pessoas também podem ser assaltadas nos carros — reforça Kiefer.
"Benefícios ao comércio"
Por outro lado, sindicatos ligados ao comércio enxergam com bons olhos a possibilidade. Para Edemir Simonetti, diretor institucional do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindha), a autorização para circulação de carros no calçadão traria inúmeros benefícios.
— Sou muito favorável. As pessoas vão onde é mais confortável e seguro, com estacionamento, por isso grande parte do público prefere frequentar os shoppings do que o comércio de rua. As pessoas se acostumaram muito com a facilidade dos carros por aplicativo, gostam de chegar e deixar o lugar na porta, e essa possibilidade hoje não se tem ali, o que prejudica tanto a chegada e saída de bares e restaurantes, quanto o acesso a hotéis, com os hóspedes carregando bagagens — destaca.
O Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas-POA) também observa o estudo da prefeitura com atenção. O presidente da organização, Arcione Piva, afirma que vê a possibilidade "com cautela".
— A entidade entende que uma reabertura parcial, em horários específicos e com veículos especificados, pode trazer benefícios ao comércio, como facilitar o acesso de visitantes e moradores, especialmente por veículos de aplicativos, e melhorar a logística de entregas e fornecedores. Ao mesmo tempo, reforça que essa medida só faz sentido se preservar a vocação do calçadão para o pedestre e for construída com a escuta dos lojistas da região, avaliação de impactos e possibilidade de ajustes. O foco deve ser fortalecer o comércio e a vida econômica do Centro — defende o dirigente.
Piva ressalta que "a reabertura parcial, em horários controlados, pode contribuir para estimular o comércio noturno, apoiar quem mora na região e tornar o Centro mais vivo fora do horário comercial".
— Mas isso só dará certo com sinalização adequada, regras claras de circulação e segurança reforçada. O Sindilojas Porto Alegre defende diálogo permanente, período de teste e avaliação técnica dos resultados, para garantir que a medida fortaleça a atividade econômica sem perder a vocação do calçadão como espaço de convivência — acrescenta.
História do calçadão da Andradas
Como já mostrou o colunista Leandro Staudt, o calçadão da Rua dos Andradas, também chamada Rua da Praia, é ponto emblemático de Porto Alegre, sendo um ponto histórico de compras e passeios no centro da Capital. Em 1974, há mais de 50 anos, a prefeitura construiu a área destinada à circulação exclusiva para pedestres.
Em cerimônia realizada em daquele ano, o prefeito Telmo Thompson Flores inaugurou a obra. Na ocasião, o comércio saudou a mudança em razão do aumento da circulação de pessoas, apesar de já apontar possíveis dificuldades do trabalho de carga e descarga de mercadorias.
O calçadão foi construído inicialmente com canteiros de flores. Os modernos telefones públicos, com cobertura transparente, se diferenciavam dos velhos orelhões. Outra novidade instituída na via foi o modelo inovador de banca de revistas e jornais, redonda e vermelha, chamada de "disco voador".
— Foi um grande acontecimento, a população gostou muito da mudança e se apropriou daquele espaço imediatamente. Uma medida que foi de vanguarda na época, que estava alinhada às políticas que o Jaime Lerner estava implementando em Curitiba e que agora, mais de 50 anos depois, estão falando em reverter — aponta Flávio Kiefer.


