“Uísque é um cachorro engarrafado”, dizia Vinicius de Moraes. Talvez fosse só uma frase bonita, daquelas que a gente repete sem pensar muito. Até conhecer o Johnnie Walker, o pug de Marta e Rosalia Fresteiro.
Durante 15 anos, Johnnie esteve ao lado das duas, filha e mãe moradoras da zona sul de Porto Alegre. Dividiu risadas, silêncios, cafés da manhã e tardes longas no sofá. De um lado, o copo de uísque; do outro, o cachorro de quatro patas, que respirava fundo antes de dormir e parecia lembrar à casa inteira que alguns afetos não precisam fazer barulho para existir. Rosalia conta que foi amor à primeira vista:
— Eu sempre quis um pug. Ele era uma bolinha, carinha pretinha, todo clarinho. Uma figurinha. Eu dizia que tinha dois Johnnies: o do copo e o do sofá.
Cresceu cercado de vida: outros cães, rotinas de hotel, cheiros misturados, passos conhecidos. O filhote virou companhia constante, presença diária, daquelas que não pedem nada além de estar. E envelheceu ali mesmo, onde sempre esteve: na cama quentinha, no colo fácil, no toque das mãos que o acompanharam desde o começo.
Com o tempo, o corpo foi mudando. O cachorro que esperava na porta com a língua de fora parou de pular, já não corria nem chamava para passear. Passou a precisar de cuidados. E o amor também mudou: saiu da brincadeira e virou atenção, da energia passou à paciência.
Johnnie começou a ser acompanhado por endocrinologista, oftalmologista, oncologista, cardiologista, fisioterapeuta. Tudo para garantir conforto a um corpo que insistia em ficar.
— Eu só pedia para que ele não sentisse dor — contou Rosalia. — Queria que comesse bem, dormisse tranquilo, sentisse o cheiro da gente por perto.
Mesmo fragilizado, ainda buscava a companhia. Comia, se aproximava, sustentava a expressão que dizia ainda estar ali. Até que os sinais ficaram mais claros: tremores, tonturas, o olhar perdido. Veio então a dúvida difícil: estavam prolongando a dor?
Marta e Rosalia fizeram tudo o que puderam. Mas o tempo, que não negocia, foi se esgotando. A veterinária Cinthia de Abreu Diel — a Pipa —, que se descreve como “doula de fim de vida pet”, costuma dizer que o momento da despedida não tem regra:
— O teu coração vai dizer. Assim como tu sabes quando ele quer passear ou quando tem fome, tu vais sentir quando é a hora.
E o coração falou. Numa noite de outubro, Johnnie partiu cercado pelas mesmas vozes que o acompanharam por 15 anos. Na manhã seguinte, a casa estava diferente: a caminha, o potinho, o carrinho de apoio — tudo no lugar, mas sem ele.
Kalhua, a cachorra companheira, e Stella Artois, a gatinha, percorriam os cômodos como quem procura algo que ainda está na memória. Rosalia serviu um uísque, sentou no sofá e colocou o copo de um lado. Do outro, ficou o espaço vazio onde Johnnie costumava se deitar.
— Agora, quando sento aqui, ainda boto o copo num lado e olho pro outro. Parece que ele vai aparecer a qualquer momento — disse, com a voz embargada.
Do lado de fora, o vento soprava forte. E, por um instante, parecia carregar o silêncio deixado por um cachorro que, por 15 anos, foi mais do que companhia: foi presença constante e cuidado até o fim.

