
O casarão do bairro Menino Deus, em Porto Alegre, que foi estampado de súplicas contra arrombamentos e depredações ganhou vida nova. A desocupação da moradia e a sua degradação, consequência do tempo e de atos de vandalismo e furto, ficaram no passado após as proprietárias investirem em uma reforma que renovou os ambientes externo e interno, mantendo as características arquitetônicas do imóvel de dois andares e terraço, localizado na esquina das ruas Marcílio Dias e Gonçalves Dias.
Desocupado entre 2017 e fevereiro de 2024 por força de um processo de inventário, o local voltará a ter uso: uma das três proprietárias, Raíza Vieira, 32 anos, resolveu aproveitar a reforma, iniciada em abril de 2025, para transformar o local em um coworking para psicólogos e psicanalistas. A Casa Intui será inaugurada em janeiro de 2026. Além do aluguel de salas, no formato de consultórios, para o atendimento profissional de pacientes, o espaço também deverá receber pequenos eventos, como bate-papos e clube do livro, relacionados à temática da psicologia.
Em abril de 2025, reportagem de Zero Hora mostrou o ato de desespero de uma das herdeiras da casa. Após quatro episódios de arrombamentos e furtos, em que foram levados desde fios até louças, luminária e peças metálicas do sistema de ar-condicionado, Raíza comprou uma lata de tinta spray e pichou o muro com apelos aos invasores: “Casa vazia. Já roubada. Sem fios, louças, móveis, canos, etc. Sem relógios CEEE e Dmae. Favor, não depredar mais.”
Ela também afixou bilhetes nas portas de ferro, vandalizadas até o primeiro semestre deste ano, implorando para que não houvesse mais “destruição”.
— O que me levou a pichar o muro foi a indignação. Tu paras de dialogar com as instituições públicas e tentas falar diretamente com quem está cometendo a violência. Foi uma tentativa de dizer: “Pelo amor de Deus, não tem mais o que fazer aqui dentro” — recorda Raíza.

Após a publicação da reportagem, a Secretaria Estadual de Segurança Pública entrou em contato com as proprietárias. Elas confirmam que, desde então, notaram aumento do policiamento ostensivo na região do Menino Deus, que já registrava queda nos índices de furto à época da pichação e da reportagem. Durante a obra, não ocorreram novos delitos. Isso incentivou as proprietárias a prosseguirem com os investimentos, cujos valores preferem não divulgar. Foi feita pintura, troca de pisos, adequações de peças e impermeabilização. No final, a instalação de novos móveis.
— A reforma da casa foi muito emocional, e ver ela do jeito que está hoje é satisfatório — comenta Raíza, que viveu 23 anos de sua vida no endereço.
A documentação do registro informa que a edificação é de 1924. O avô de Raíza fez a aquisição na década de 60, o que levou gerações da família a viverem ali. O tempo gerou uma ligação também com o bairro.
— Existe um bairrismo dentro do Menino Deus. Como os “Bomfiners” com o Bom Fim e os “Cidade Baixers” com a Cidade Baixa. O Menino Deus está ficando mais edificado e vertical, mas ainda parece um pouco cidade interiorana, com muito verde, próximo de parques. Quem vive o bairro, gosta — diz Raíza, enumerando razões que influenciaram a reforma e a ocupação do imóvel.

Futuro como negócio
A decisão de transformar o casarão centenário em empreendimento amadureceu no curso da obra. Inicialmente, todas as opções estavam à mesa: abrir um negócio familiar, alugar ou vender. Raíza resgatou um desejo antigo por empreender. Nas brincadeiras lúdicas da infância, recorda, ela sempre incorporava o personagem da “dona da lojinha”.
Estudante de psicologia, afirma ter percebido uma demanda por consultórios de aluguel para o atendimento de pacientes. Raíza será a gestora do negócio e, depois de formada, pretende também prestar atendimentos. Apesar de relatarem melhoria no policiamento, as herdeiras revelam receio com furtos.
— A gente não sabe se essa melhora vai se perpetuar na segurança — comenta Raíza.
Por isso, na reforma, as proprietárias reforçaram a segurança. O muro que ficava sobre a contenção de pedra do terreno foi substituído por uma nova grade. Agora, existe ampla visibilidade para o caso de algum invasor chegar ao pátio. O gradeamento é alto e vazado em orifícios estreitos, o que dificulta a tentativa de escalada. Foi instalada nova iluminação externa, câmera de segurança, alarme e contratada empresa de segurança privada.
Reforma é proteção, diz urbanista
— Vidros quebrados e imóveis degradados atraem mais vandalismo — afirma Benamy Turkienicz, professor titular aposentado da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Ele avalia que a decisão dos proprietários de investir no bem não é uma garantia definitiva, mas uma colaboração importante para o controle dos delitos e depredações.
— A presença humana, dada pelo cuidado com a edificação, se converte em fator de segurança. A tendência é de não ser invadido um imóvel sob utilização. O embelezamento da cidade nada mais é do que mostrar sinais da presença humana nas ruas — diz Benamy.

