
Uma tendência global de operação gastronômica tem se popularizado cada vez mais em Porto Alegre. São os food halls, que reúnem diferentes opções de restaurantes e estilos culinários em um mesmo local: um ambiente confortável para o público.
Na Capital, a novidade surgiu em shoppings centers, mas hoje também há opções a céu aberto, espalhadas por inúmeros bairros e regiões da cidade.
Os amigos e colegas de trabalho João Paulo Cunha, 45 anos, e Giovane Santayana, 30, são adeptos dos food halls. Enquanto aproveitavam as opções do Up Food Art, no Centro Histórico, faziam uma reunião de negócios.
— Eu sou um grande fã. Oferecem várias opções de refeições, e o ambiente reservado e confortável também é flexível, pois também nos proporciona a possibilidade de fazermos uma reunião de planejamento do trabalho como estamos fazendo hoje aqui — acrescenta João Paulo.
— Acho que essa é uma tendência que já virou realidade aqui em Porto Alegre. Moderna, atual, que agrega para a cidade como um todo — destaca Giovane.
As facilidades oferecidas por um food hall são apreciadas tanto pelo público frequentador quanto pelos empresários que instalam operações gastronômicas nestes locais. Uma das principais vantagens apontadas é o fato de um food hall agrupar, em um mesmo local, distintas opções de restaurantes para os visitantes.
— Esses empreendimentos são sensacionais para o público, pois oferecem, em um mesmo lugar, diversas opções de restaurantes, proporcionando a famílias ou grupos de amigos que queiram fazer uma refeição juntos, mas comer coisas diferentes, essa possibilidade — afirma Leonardo Dorneles, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Rio Grande do Sul (Abrasel-RS).
Para o setor, o lado positivo é outro:
— Essa popularização fomenta os empreendimentos gastronômicos na cidade, pois oferece a opção para marcas consagradas terem uma operação mais pocket, e também para marcas iniciantes um local estruturado e com público para começar o negócio — diz Dorneles.
O conceito
O conceito do que hoje se conhece como food hall surgiu na Inglaterra, com a ideia de descrever uma seção das tradicionais lojas de departamento inglesas, como a Harrods, em que se vendiam alimentos ao público. Aos poucos, entretanto, o conceito foi se desenvolvendo e sendo ampliado.
- Hoje, um food hall é um local, fechado ou a céu aberto, que sedia diferentes opções gastronômicas
- Normalmente, elas não repetem as opções de comidas e estilos culinários
- Ao centro dos restaurantes, estão as mesas, onde pessoas podem comer juntas mesmo pedindo pratos de estabelecimentos diferentes
- Outro detalhe importante é que não há garçons — os clientes fazem seus pedidos direto nos restaurantes, muitas vezes em totens, e depois buscam sua comida no balcão.
Um marco global do formato é o Time Out Market do Mercado da Ribeira, em Lisboa. Fundado em 2014, pela revista de origem britânica Time Out, o local é amplamente reconhecido neste mercado como aquele que estabeleceu as bases do que é conhecido por food hall atualmente.
Início em Porto Alegre
A novidade demorou alguns anos para chegar em Porto Alegre. O primeiro food hall da Capital foi inaugurado em novembro de 2020, há cinco anos. Era localizado no shopping Bourbon Country e administrado pelo empresário Eduardo Bier Correa, também fundador da cervejaria Dado Bier.
— Fazia muitas viagens junto com minha filha Manoela, que estudou gastronomia, e começamos a observar essa tendência em outros lugares, inclusive no Time Out Market de Lisboa, que é uma grande referência. Eu já vinha acompanhando, há cerca de uma década, o movimento de chegada dos food trucks no Brasil, que foi muito interessante, mas os trucks eram caminhonetes ambulantes, tu nunca sabia onde estariam no dia seguinte. Com o food hall, tínhamos a possibilidade de ter as operações sempre em um mesmo local, com um ambiente confortável e agradável ao público — relata o empresário.
O food hall Dado Bier funcionou no Bourbon Country até o final de 2024. Hoje, o shopping mantém outro espaço do estilo no local.
Mas Dado não desistiu do formato: até março de 2026, está prevista a inauguração de seu novo food hall no Shopping Bordaza, que terá curadoria feita por sua filha, Manoela Bertaso.
Logo após a abertura do food hall Dado Bier, um novo estabelecimento neste modelo foi fundado em Porto Alegre, em dezembro de 2020: o Vila Roubadinhas.
O empreendimento funciona no número 140 da Rua Silva Jardim, no bairro Auxiliadora. Abrigando cerca de uma dezena de operações gastronômicas, o Vila Roubadinhas ocupa uma área aproximada de 2 mil metros quadrados, sendo reconhecido como um dos maiores food halls a céu aberto de toda a região sul do Brasil.
— Também tive como referência o Time Out Market em Lisboa, que eu amo, além de outros locais que conheci em viagens, e achei que Porto Alegre precisava de um lugar com essa proposta. Além das opções de restaurantes, todas escolhidas com muito cuidado e pensamento de mercado, o Vila Roubadinhas também oferece ao público opções de lazer e atrações de entretenimento, como a Oktoberfest que fizemos recentemente — destaca a empresária Laura Bier, fundadora da marca Roubadinhas.
Hoje, além dos já mencionados, há food halls em outros bairros porto-alegrenses, como Navegantes, Bom Fim, Cidade Baixa, Tristeza, Cristal e Centro Histórico.
O crescimento do número de opções neste formato pela cidade, com boa adesão do público, mostra que a tendência que se estabeleceu na Capital há cinco anos chegou mesmo para ficar.
— É um conceito que se espalhou pelo mundo e que, aqui em Porto Alegre, também se estabeleceu com força. O público abraçou a ideia, e acreditamos que operações com essa proposta vão surgir cada vez mais, pois é uma onda ainda em crescimento — projeta Egles Notti, um dos sócios e fundadores do Up Food Art, food hall localizado na Rua dos Andradas, que completou dois anos de funcionamento em setembro deste ano.

Foco em ambiente e curadoria de marcas
Os administradores de food halls são unânimes em apontar dois pilares como fundamentais para o sucesso do negócio:
- O investimento em um ambiente reservado e confortável ao público
- O desenvolvimento de uma curadoria especializada para a seleção de quem vai se instalar no local
Para Eduardo Bier Correa, é isso que diferencia um food hall de uma praça de alimentação de shoping.
— O ambiente, que é o que conecta todas as operações, tem que ser absolutamente confortável para os visitantes, que devem se sentir como se estivessem na sua sala de estar. E o mix de operações deve ser sofisticado e apresentar opções de excelência ao público — aponta.
Em complemento, a empreendedora Laura Bier destaca a importância da etapa de seleção das marcas que compõem o mix do food hall para o sucesso com o público.
— Temos que ter o cuidado de não ter operações que representem competição, ou seja, buscar sempre estilos culinários e escolas gastronômicas diferentes. Além disso, buscamos também trazer novidades para o público e para o mercado local. Por exemplo, a primeira hamburgueria que tivemos aqui era uma operação que nasceu em Garopaba e não existia no Rio Grande do Sul até então — reforça Laura.
Para as marcas, a aposta na novidade também é atrativa. O empresário Luiz Eduardo Barbosa, fundador da rede de pizzarias Balcone, recentemente se instalou no Vila Roubadinhas.
— Abrimos há cerca de 40 dias no Roubadinhas e a experiência tem sido ótima. O fato de o food hall ser um "centro de alimentação" ajuda a atrair o público, principalmente grupos numerosos. E é mais prático, porque não tem garçons, por exemplo. Para nós, tem tido um resultado bem positivo — ressalta.




