
Há 10 anos, Porto Alegre recebia uma alternativa de transporte, que prometia serviço nos moldes do táxi, mas com diferenciais no atendimento. No dia 19 de novembro de 2015, a Uber começava a operar na Capital. De um lado, passageiros tinham acesso a veículos de passeio bem conservados, condutores com trajes mais formais e oferecimento de balinhas e água, além de ar-condicionado sem protestos. Do outro, os primeiros motoristas da plataforma tinham bons retornos numa jornada habitual de trabalho.
Passada uma década, esse cenário é diferente. Por mais que o transporte via aplicativo tenha se popularizado e caído no gosto popular, modificando a mobilidade urbana, profissionais e clientes encaram cenário marcado por falta de atrativos para ambos os lados.
Os 10 anos da Uber em Porto Alegre
Mobilidade urbana
Um dos primeiros choques causados pela chegada da Uber em Porto Alegre foi no movimento dos táxis. O novo meio de transporte mais em conta, com veículos novos e, muitas vezes, com agrados oferecidos pelos motoristas, como balas e água gelada, caiu nas graças de parte da população, que migrou dos tradicionais táxis para a Uber. Com o passar do tempo, os táxis conseguiram recuperar parte do mercado, focando em serviços de maior qualidade. No entanto, mesmo com as cortesias quase desaparecendo, o transporte por aplicativo se consolidou na cidade, impactando em outras operações, como de ônibus e táxis-lotação.
Gustavo Inácio de Moraes, professor da Escola de Negócios da PUCRS e doutor em economia aplicada, afirma que uma das principais mudanças provocadas pela chegada do transporte por aplicativo ocorreu no âmbito do transporte público tradicional, como os ônibus.
— A chegada dos aplicativos tornou a tarifa de transporte público elástica. O cidadão agora faz conta. Antes, qualquer que fosse a tarifa, ele optava pelo ônibus — explica.
Moraes pondera que as formas mais tradicionais de mobilidade também foram afetadas por outros fatores, como mudança no mercado de trabalho, digitalização e crises, como a pandemia.
Professor do Departamento de Urbanismo da UFRGS e especialista em planejamento urbano de sistemas de transporte, Júlio Celso Borello Vargas afirma que, caso não ocorra uma mudança para equilibrar os diferentes modais na cidade, o transporte público mais tradicional tende a ruir. Além disso, o especialista também cita o efeito em outros serviços da cidade:
— Também tem essa questão de lugares em que é mais caro estacionar e que tu precisa pagar a garagem, como o Centro, por exemplo. Se tu computar o preço de ir com o teu carro e pagar a garagem versus um aplicativo, é óbvio que essas garagens vão sofrer.
Menos retorno e informações
Do lado dos motoristas, uma avaliação que parece geral corre na linha de retorno menor diante do aumento de custos com manutenção e abastecimento do veículo. A presidente do Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do Estado do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), Carina Trindade, afirma que, com o passar dos anos, a Uber reduziu a porcentagem do que é pago aos motoristas, mesmo cobrando mais dos passageiros. Essa dinâmica acabou afetando a qualidade do serviço prestado por alguns profissionais, principalmente na categoria X, que é a mais econômica:
— Com isso, o profissional não consegue ficar um dia parado para fazer a manutenção devida. A gente também vê casos de motoristas parando por falta de combustível, com carro batido, sucateado, que funde o motor no meio de uma corrida. Então ele vai lá, recebe R$ 50 em dinheiro e bota no combustível, né, para seguir a corrida. Muito motorista parando em posto de combustível com o próprio passageiro dentro do carro.
Carlos Henrique Correa, 46 anos, é um dos primeiros motoristas da Uber em Porto Alegre. Buscando uma fonte de renda após ser demitido, ele começou a atuar pela plataforma no dia 19 de novembro de 2015, às 15h. No início da operação, Correa atuava de seis a oito horas por dia para receber cerca de R$ 2 mil por semana. Hoje, para ter retorno parecido, precisa extrapolar as 12 horas máximas do aplicativo e ainda trabalhar em outra plataforma.

— As coisas mudaram bastante. Lá atrás, o litro da gasolina era R$ 3,40. Hoje, está R$ 6,30. E o valor da corrida não acompanhou esse aumento. Isso por uma questão até mesmo de colocação no mercado de trabalho, em em comparação à concorrência, a Uber reduziu os valores, retirou algumas categorias para poder ser competitiva no mercado. E aí isso foi deixando o valor baixo.
Para compor a renda diante dessa defasagem, Correa também atua em parte do dia como entregador de plataformas, como a Shopee.
Mesmo com o cenário adverso, Correa se diz agradecido, porque encontrou na Uber a chance de superar o desligamento do mercado formal e garantir o sustento da família.
Mauro Assunção Pires, 58 anos, começou a atuar como motorista da Uber em março de 2016. Com a perda da esposa e o recebimento de uma pensão, resolveu ir para o aplicativo para ocupar o tempo e aliviar a cabeça. Nos primeiros anos, conta que a empresa oferecia uma série de incentivos e benefícios, que tornavam o serviço mais atrativo para o motorista. Essa relação foi mudando com o tempo, forçando os profissionais a trabalharem muito para conseguir o mínimo. Além disso, Pires afirma que a troca de informações com a empresa se alterou:
— Quando a Uber começou, a gente via que era descontado 25% no valor das viagens que a gente fazia. Podia fazer o valor que fizesse, era 25% da Uber. Hoje, a gente não tem essa certeza, não sabe quanto paga, quanto recebe, quanto que o passageiro tá pagando.

Como destacou a presidente do Simtrapli-RS, hoje, boa parte dos motoristas enfrentam jornadas extensas e exaustivas para conseguir um retorno suficiente para honrar as contas básicas. Qualquer gasto fora do previsto, prejudica ainda mais o orçamento.
Atuando no ramo desde janeiro de 2016, Elisabete Castro, 60 anos, afirma que se sente desmotivada por essa realidade:
— Eu pagava R$ 10 uma lavagem de carro. Hoje não tem por menos de R$ 30, R$ 40. Eu lavava o meu carro no mínimo uma vez por semana. Hoje eu dou manutenção dele na minha casa mesmo. E quanto a bala e água, a gente não tem mais como manter o padrão do início da operação. Nós ganhávamos muito bem. Hoje a gente ganha muito mal.
Para nós, R$ 50 não era nada para manter ali aguinha, o carro bem lavado ou oferecer uma bala. Só que hoje esses R$ 50 representam colocar combustível para trabalhar.
ELISABETE CASTRO
Motorista de aplicativo
Entre os motoristas entrevistados, é consenso que a falta de informações é outro calcanhar de Aquiles na relação entres os profissionais e a empresa. Os trabalhadores afirmam que, muitas vezes, são barrados da plataforma sem justificativas ou direito de resposta.
— As vezes o passageiro age de má fé. (...). O passageiro vai lá, reclama, e o motorista não tem chance de se defender. Infelizmente, isso continua sendo um baita problema, porque tem motorista bloqueado por causa disso todos os dias, infelizmente — pontua a presidente do Simtrapli-RS.
Por outro lado, os motoristas afirmam que a questão de segurança melhorou muito nos últimos anos, com reforço nas informações de clientes e métodos de pagamento via plataformas digitais.
Usuários relatam queda na qualidade
Nos primeiros meses de Uber em Porto Alegre, era comum ouvir relatos de usuários destacando os diferenciais do serviço. Veículos em boas condições e atendimento diferenciado, com valores convidativos. Além disso, a possibilidade de pedir a corrida em segundos por uma plataforma fácil, ágil e disponível a partir de poucos toques chamava a atenção. Hoje, muitas avaliações citam carros com problemas de manutenção, sujos e profissionais despreparados.
A gerente de clínica médica Thainá Costa, 28 anos, usa o Uber desde o ano de estreia. Ao longo dessa década, a plataforma foi parceira nos deslocamentos para faculdade, lazer e trabalho. Com o passar do tempo, Thainá foi observando queda na qualidade do serviço:
— Semanalmente, eu pego um carro que tá bem sujo, com um motorista que não conhece muito o caminho, que erra muito na hora de seguir o GPS ou até com a questão da direção um pouco mais perigosa. Os casos de direção perigosa acontecem até um pouco mais: duas, três vezes na semana, eu pego uma pessoa que se arrisca um pouco mais na direção.

Essa percepção de serviço menos qualificado também é pontuada pelo publicitário Bruno Bujes, 30 anos. Usuário recorrente de serviço de transporte via plataformas digitais, Bujes não lembra da última vez em que usou ônibus para locomoção. Os aplicativos de mobilidade fazem parte da rotina do publicitário, que também aponta piora no atendimento. No entanto, ele avalia que essa deterioração parece ocorrer na esteira do desgaste entre motoristas e empresas:
— Acho que eles se sentem desvalorizados por causa dessa relação precarizada. Então, acaba acontecendo um repasse dessa relação precária, frágil. Sinto isso muito no atendimento, que piorou bastante, a condição dos carros também piorou muito.
Conflito com táxis
Nos primeiros anos de operação, os motoristas de aplicativo enfrentavam desconfiança e insatisfação por parte dos taxistas. Em alguns casos, o conflito levou à violência física, com emboscadas e ataques contra os primeiros trabalhadores do novo sistema. Com o passar dos anos, o sistema de táxi da Capital focou em renovação da frota e qualificação do serviço. Essa estratégia garantiu a sobrevivência do ramo, segundo o presidente do Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre (Sintáxi), Adão Ferreira:
— Aos poucos, nós fomos aprendendo e nos readequando ao sistema perante as dificuldades. Nós conseguimos resistir, organizados, e também buscamos melhorar a frota. Pode ver que, hoje, o sistema de táxi de Porto Alegre é composto por 97% de carros novos.
O que diz a Uber
Procurada, a Uber não se manifestou até a publicação desta reportagem.
