
O Centro Histórico de Porto Alegre voltou a ser alvo de construtoras e incorporadoras. Apostando na revitalização do bairro prometida pela prefeitura e com incentivos para construírem na região, seis novos projetos para torres residenciais estão sendo tirados do papel.
Em alguns casos, imóveis menores e ociosos são demolidos para dar lugar a construções novas e mais altas, a exemplo do que acontece em metrópoles como São Paulo e Nova York.
Neste ano, uma incorporadora de Novo Hamburgo obteve as licenças necessárias para erguer um prédio de 98 metros de altura na Rua Siqueira Campos, com vista para o Guaíba. Isso só aconteceu depois da publicação do decreto que regulamenta a Lei de Reabilitação do Centro Histórico, aprovada em 2021 na Câmara de Vereadores. O texto previa a liberação 1.180 milhão de metros quadrados em potencial construtivo no bairro, que é o limite para construção.
Também está prevista nesta lei a isenção do pagamento para construir além do limite preestabelecido para cada terreno, nos primeiros três anos, na área junto às avenidas Mauá e Júlio de Castilhos e as ruas Voluntários da Pátria e Siqueira Campos.
Os recursos pela aquisição do solo criado são transformados em contrapartidas para reformar praças e espaços públicos no bairro.
A lei criou também uma série de critérios para as empresas interessadas em investir no Centro — como adoção do uso misto (residencial e comercial), qualificação do passeio na frente ou da fachada, o atendimento da demanda habitacional prioritária, investimento em ações sustentáveis, requalificação ou restauração do patrimônio histórico, utilização de cobertura verde e ações em segurança pública nas edificações.
— O Centro já está mudando, e muito, recebendo novos prédios e retrofits (reforma de antigos). Ainda estamos preparando um pacote de incentivos fiscais para empresas que investirem no Centro. Deve ser encaminhado à Câmara de Vereadores ainda este ano — adianta o secretário municipal de Planejamento e Gestão, Cezar Schirmer.
Os novos prédios do Centro
Siqueira Campos
Batizado como "Ora", o prédio de 98 metros de altura na Rua Siqueira Campos começará a ser erguido no primeiro semestre do ano que vem. O foco será em studios e apartamentos de até dois quartos.
O projeto é tocado pela incorporadora Dwell, de Novo Hamburgo, junto com o Grupo Ospa, de Porto Alegre, dono do escritório responsável pelo projeto arquitetônico.
O prédio terá 32 andares. Apesar de alto para os patamares de Porto Alegre, ainda será menor do que o edifício Santa Cruz, construído na década de 1960 na Rua dos Andradas, também no Centro. Com 107 metros de altura, é até hoje o maior prédio da Capital.
Dos 300 apartamentos do futuro complexo, mais de metade já foi vendida. As unidades serão de 25 a 75 metros quadrados.
Washington Luiz
Ao mesmo tempo que ergue um edifício em "formato de escada" na entrada de Porto Alegre, a ABF Developments prepara a sua estreia no Centro Histórico. De uma só vez, a empresa que atua como incorporadora e construtora vai erguer dois edifícios na Rua Washington Luiz, também com vista para o Guaíba.
Um deles já teve sua obra iniciada. Com 23 andares e 60 metros de altura, o CAIZ Downtown Sunset tem entrega prevista para 2027. Antes, o terreno de 1,6 mil metros quadrados abrigava casas e uma oficina mecânica. Os 340 apartamentos — de 21 a 32 metros quadrados — já foram todos vendidos. O térreo do prédio terá lojas voltadas para a rua.
A poucos metros dali, na mesma rua, a ABF comprou outro terreno para erguer mais um prédio. A área está cercada por tapumes e receberá 266 apartamentos. Imóveis ao lado também foram comprados e serão demolidos para dar espaço ao novo empreendimento.
Demétrio Ribeiro
Perto dos empreendimentos da ABF, o empresário Kleber Sobrinho, conhecido por ter feito a revitalização do edifício Cais Rooftop, prepara a construção de seu primeiro prédio novo. O projeto é tocado pela sua empresa, a Recons, em parceria com a Toniolo Engenharia.
A obra já começou em um terreno na esquina entre as ruas Demétrio Ribeiro e Cipriano Ferreira. Trata-se de um empreendimento de porte menor, com seis andares e 15 apartamentos. A unidades serão colocadas à venda ainda em novembro e a previsão de entrega aos futuros moradores é para daqui 18 meses.
— A visão que tivemos para este projeto é a proximidade com a Orla. Como tem muitas assessorias de corrida que se instalam ali nos finais de semana, focamos em um espaço destinado à saúde. Teremos uma loja no térreo destinada a um profissional da área e um rooftop (terraço) para os moradores — adianta Sobrinho.
Duque de Caxias
Em um terreno estreito na Rua Duque de Caxias, em frente à Rua Vigário José Inácio, mais um prédio está sendo construído. É da Linea Engenharia e Construções, responsável pela obra de um outro edifício já finalizado na via.
O novo prédio de 10 andares também será de studios, com apartamentos de 28 metros quadrados. Restam poucos à venda. A maioria foi comprada por investidores, que as adquirem para depois alugarem por temporada em plataformas como Airbnb.
Na mesma rua, a Melnick tramita na prefeitura o projeto para um edifício de 98 metros de altura. Assim como o empreendimento da Dwell na Siqueira Campos, este chamou atenção da comunidade pelo seu tamanho — porém, por ficar em uma parte alta do Centro Histórico, ganharia ainda mais destaque na silhueta urbana da cidade.
O edifício de 41 andares teria acesso também pela Rua Fernando Machado, na parte baixo do Centro. Um elevador panorâmico inspirado no Elevador Lacerda, na Bahia, ligaria o acesso do prédio na Duque a um supermercado Zaffari na Fernando Machado, que é parceiro neste projeto. Segundo a Melnick, este equipamento poderia ser usado por qualquer morador do Centro Histórico.
Em janeiro de 2024, porém, a Justiça Federal suspendeu a construção do edifício. A decisão liminar da desembargadora Vivian Josete Pantaleão Caminha, da 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), atendeu uma ação movida pela Associação dos Amigos do Museu Júlio de Castilhos, que fica no terreno ao lado e afirma temer danos à estrutura da instituição caso o edifício seja erguido na vizinhança.
Ainda na Duque de Caxias, os donos de um terreno onde fica um palacete da década de 1920 negociam com empresas interessadas em erguer um prédio junto à construção histórica. Casos parecidos ocorrem em outras áreas da cidade, onde as casas restauradas tornam-se áreas comuns do condomínio ou recebem novos negócios, como restaurantes e lojas.
Reformas de prédios antigos
Além de construções novas, edifícios antigos do Centro Histórico estão sendo reformados para receberem moradias. O primeiro a ser restaurado pelo novo regramento do bairro é o Cais Rooftop, na esquina da Avenida Mauá com a Rua Caldas Júnior. A inauguração de um restaurante no terraço marcou o fim da obra em outubro deste ano. Outro prédio ao lado está sendo restaurado pelo mesmo empreendedor para abrir mais apartamentos.
Na Rua Sete de Setembro, o antigo Hotel Nacional passará pelo mesmo processo. O projeto é do Grupo Estrutura, de Santa Catarina. A construção de 1927 receberá investimento de R$ 30 milhões para transformar as lajes em 72 apartamentos com metragem que varia de 25 a 90 metros quadrados.
Presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), Claudio Teitelbaum acredita que mais projetos de revitalização de prédios no Centro Histórico devem acontecer caso o novo Plano Diretor seja aprovado.
— Deve permitir melhor aproveitamento de terrenos no bairro. O centro já oferece facilidade de transporte e diversidade de consumo. Tem tudo o que se precisa a um raio de caminhada muito próximo. A revitalização do Centro passa por esse trabalho de regeneração urbana. Alguns empreendedores já tiveram essa visão — diz Teitelbaum.



