
Segue o drama da Casa dos Leões, construção histórica erguida há 131 anos na Rua dos Andradas e que chama atenção pelo seu estado de abandono. Conforme Zero Hora noticiou em fevereiro deste ano, o Instituto Zoravia Bettiol, da artista e educadora gaúcha, tinha planos para restaurar o prédio e transformá-lo em um espaço de arte. No entanto, a entidade optou por devolver o imóvel à prefeitura.
Tapumes de cinco metros de altura escondem o casarão de cor amarelo desbotado — que, no passado, serviu de pensão e moradia para uma família. Desde a década de 1990, o imóvel faz parte do inventário do município.
O plano do Instituto Zoravia Bettiol era bancar a obra com captação de recursos via Lei Rouanet. O projeto até chegou a ser aprovado, mas não houve garantias de que a verba seria liberada em curto prazo.
"A decisão, tomada em Assembleia Geral Ordinária, justifica-se pela impossibilidade de atender os prazos estipulados pela Municipalidade para apresentação de cronograma de início das obras de restauro do casarão secular, uma vez que, apenas recentemente, foi aprovado projeto de captação de recursos pela Lei Rouanet, sem nenhuma garantia da referida captação em curto prazo", diz trecho da nota enviada pelo instituto à reportagem.
Em outro trecho do texto (veja a íntegra no final da reportagem), o instituto diz que o prédio estaria sendo devolvido à prefeitura "basicamente nas mesmas condições" em que foi recebido, em 2018. Também acrescenta que, durante o período com a posse do imóvel, teriam sido feitas melhorias no telhado e pequenos reparos em outras partes da casa.
O projeto previa que seriam necessários R$ 4,5 milhões para reformar toda a casa, que tem três andares e mil metros quadrados. A ideia era fazer do local a sede do Instituto Zoravia Bettiol, que seguirá funcionando em um imóvel na zona sul de Porto Alegre, onde já está hoje.

Como está a estrutura
O tapume que esconde a fachada do imóvel pode até ser visto como uma proteção da memória dos dias de glória da Casa dos Leões. Quem se arrisca a atravessá-lo, precisa torcer para que não seja a hora de a varanda na fachada cair no chão. O que prende essa estrutura hoje são estacas de pau ajeitadas de forma precária e com buracos feitos por cupins.
Nem as estátuas de leão que deram nome à casa resistiram: foram roubadas na década de 1980, após o imóvel ser vendido pela última família que morou no local.
Ao adentrar no imóvel, cada passo dado deve ser feito com cuidado. Estacas de pau também seguram o teto de alguns cômodos. Plantas cresceram entre rachaduras no chão, e os poucos móveis que ainda permanecem na casa estão empoeirados.
No pátio dos fundos, um matagal toma conta de tudo.
Nova proposta
Não é a primeira vez que se tentou dar um destino ao casarão. Na década de 1990, ele chegou a ser cotado para abrigar as pinacotecas Aldo Locatelli e Ruben Berta. De acordo com uma reportagem publicada em Zero Hora em 2002, a proposta ficou apenas no papel em razão dos altos custos que demandaria.
Se a proposta do Instituto Zoravia Bettiol tivesse sido tirada do papel, o espaço seria mais uma atração cultural em um corredor do Centro Histórico que reúne espaços como a Usina do Gasômetro, Casa de Cultura Mario Quintana, Museu da Comunicação, Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e Espaço Força e Luz.
A prefeitura ainda não decidiu qual uso dará para a casa, mas diz que pretende reformá-la. A obra seria bancada com recursos vindos de financiamentos com bancos internacionais, que também seriam utilizados para revitalizar outros imóveis históricos no centro de Porto Alegre, como a Confeitaria Rocco, o Mercado Público e o Paço Municipal.
— Estamos contratando os projetos de restauração desses espaços para ver quanto custarão as obras. Não acho que a saída ali (Casa dos Leões) seria colocar mais um museu, mais um espaço cultural. O Centro já tem vários e pouca gente vai — diz o secretário municipal de Planejamento e Gestão, Cezar Schirmer.
Últimos moradores
A Casa dos Leões foi construída em 1894, sendo, inicialmente, um imóvel térreo, com três janelas e portão de ferro. Pertencia a Olympio Carlos de Araújo Brusque e, depois, passou para sua filha, Amelina Brusque. Nas décadas seguintes, foi ampliada, recebendo mais dois andares e características do movimento eclético.
Em 1936, a casa foi comprada pelo italiano Lourenço Melchionna, que a dividiu nos números 507 e 509. Uma parte foi sublocada e usada como pensão para estudantes universitários, enquanto a família Melchionna morava em outro espaço. Sandra Melchionna, neta de Lourenço, nasceu e viveu até os 17 anos de idade na casa. Ela e seus pais, Alberto e Wilma, foram os últimos moradores do imóvel.
— Passo lá na frente e morro de saudades. Minhas raízes estão nesta casa. Comi muita fruta no pé das árvores, fiz muita brincadeira. Nós esquecemos de tudo na vida, menos da infância. Torço muito para que a casa seja reformada — lembrou Sandra, em fevereiro.
— O pátio nos fundos tinha horta, pitangueira, limoeiro, abacateiro e galinheiro. Eram 18 quartos em toda a casa, contando a parte que foi usada como pensão — disse a ex-moradora.
No livro Um Passeio no Tempo, a pesquisadora Marina Bordin Barbosa lembra que a família Melchionna vendeu a casa, em 1981, para as empresas Ciasul e Joeter (esta segunda pertencia à família Gerdau). Segundo a ex-moradora Sandra Melchionna, o motivo foi a construção de um prédio residencial ao lado, na década de 1970.
— Os novos vizinhos começaram a jogar lixo para o terreno da nossa casa — contou à Zero Hora.
Em 1991, a Joeter fez uma permuta com a prefeitura de Porto Alegre, trocando a casa por uma outra área no município. Três anos depois, a Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (Epahc) fez uma reforma no telhado.
Em 2009, a Casa dos Leões ganhou uma breve finalidade, quando foi transformada em uma das obras mais chamativas da Bienal do Mercosul. Foram utilizados canos de PVC, madeira, lâminas de compensado flexível e restos de construção civil para dar forma a uma estrutura semelhante a um tumor brotando da arquitetura pelas janelas e portas. Denominada Tapume, a arte foi apelidada de "Casa Monstro".
À época, o artista plástico paulista Henrique Oliveira disse que "queria chamar atenção para essa casa, tão bonita, e passando desapercebida pelas pessoas".

Nota do Instituto Zoravia Bettiol na íntegra:
"O Instituto Zoravia Bettiol torna público que se viu compelido a renunciar aos direitos que detinha em relação ao imóvel conhecido como Casa dos Leões, à Rua dos Andradas, 507.
A decisão, tomada em Assembleia Geral Ordinária, justifica-se pela impossibilidade de atender os prazos estipulados pela Municipalidade para apresentação de cronograma de início das obras de restauro do casarão secular, uma vez que, apenas recentemente, foi aprovado projeto de captação de recursos pela Lei Rouanet, sem nenhuma garantia da referida captação em curto prazo.
O prédio é devolvido à prefeitura basicamente nas mesmas condições em que foi recebido quando da concessão, em que pese o Instituto ter investido em melhorias no telhado e levado a cabo outros reparos menores ao longo do tempo.
O Instituto passa a ter sua sede efetiva na Rua Paradiso Biacchi, 109, bairro Ipanema, onde encontra-se à disposição da comunidade porto-alegrense e gaúcha.
Zoravia Bettiol agradece a todos que, nas esferas pública e privada, envolveram-se no sentido de buscar viabilizar o sonho do projeto que previa a Casa dos Leões como sede do Instituto.
Expressa agradecimento especial ao patrono do Instituto, Dr. Gilberto Schwartsmann, aos arquitetos Adroaldo Xavier, Analino Zorzi, Antonio Carpes, Kucha Saatkamp, Lídia Fabricio, Ester Meyer e Iran Rosa (in memoriam)."

