
Presente na memória afetiva dos porto-alegrenses de mais idade, o antigo abrigo dos bondes, na Praça Quinze de Novembro, será revitalizado pela prefeitura de Porto Alegre. O motivo, de acordo com a gestão municipal, é qualificar o espaço a fim de atrair novos negócios para o local.
- A obra começa no final deste mês, segundo a Secretaria Municipal de Administração e Patrimônio (Smap);
- Ao todo, serão investidos R$ 890 mil, vindos dos cofres públicos;
- Depois de iniciado o trabalho, a empresa Inove, contratada para realizar o serviço, terá seis meses para entregar a obra pronta.
Entre os problemas mais urgentes a serem resolvidos, estão infiltrações dentro das lojas e o reboco nas marquises, que está caindo em cima de clientes.
— Vai ficar um espaço bonito e reformado. Vamos falar com os permissionários para achar uma maneira de reformar o lugar e não atrapalhar a venda deles. Essa obra vai complementar o que temos feito no Mercado Público, que será lavado por fora. O chafariz (no Largo Glênio Peres) também será consertado — adianta o diretor-geral de Gestão do Patrimônio de Porto Alegre, Tomás Holmer.
O espaço, que serviu no passado como ponto de embarque e desembarque de passageiros dos bondes no Centro Histórico, foi desmembrado e transformado em espaços comerciais na década de 1970:
- Hoje, há 33 pontos para lojas, sendo que 24 estão ocupados;
- Desse total, apenas 13 lojistas estão com o aluguel em dia.
Holmer diz ainda que, recentemente, uma das áreas foi invadida e estava sendo usada como depósito para uma loja de roupas das imediações.
— Junto com a Guarda Municipal, fomos ao local, retiramos essas mercadorias e lacramos a loja, soldando as portas. O combate ao comércio informal se intensificará a partir desta reforma. Tenho certeza de que, com um ambiente mais bonito, teremos mais lojas qualificadas no abrigo — completa o diretor.
Os espaços ocupados têm lanchonetes, tabacarias, lojas de capinha de celular e até uma barbearia, que foi aberta recentemente.
Cristiano Ferraro trabalha há 20 anos na lanchonete Pastelão, um dos comércios mais antigos do local. A concorrência com negócios que não pagam aluguel é uma queixa do funcionário.
— Tem que melhorar a aparência e arrumar esse pessoal que fica aqui de forma irregular. Na volta, a maioria não paga aluguel e prejudica a nossa imagem. Antigamente, tinha um monte de loja aberta, todo mundo trabalhando. Agora, tem muita loja fechada — diz Ferraro.
Outra queixa é sobre o cheiro no local. Segundo ele, frequentadores do espaço e pessoas em situação de rua usam as paredes do antigo abrigo como banheiro, urinando no local.
— É horrível. Prejudica demais a nossa imagem — reclama.

Há anos que o entorno do abrigo dos bondes está tomado de ambulantes que vendem produtos usados, como bolsas, sapatos e bonecas. Alguns parecem morar no local. Estendem lençóis, roupas e toalhas nas grades da Praça Quinze de Novembro. Até uma esteira de ginástica estava sendo anunciada na calçada durante a tarde da quarta-feira (15).
Quem fiscaliza o espaço é a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos. A pasta diz que envia "constantemente" equipes ao local para coibir esses atos. A Brigada Militar, que inclusive tem um posto junto ao antigo abrigo dos bondes, diz o mesmo e acrescenta que recebe diversas queixas de ameaças feitas por estes ambulantes a frequentadores da região.

Nova tentativa
Esta não é a primeira vez que a prefeitura tenta embelezar esta área da cidade. A revitalização do abrigo entrou no pacote de obras para a Copa do Mundo de 2014. Na época, o piso da Praça Quinze de Novembro foi todo trocado e as paredes, que antes tinham detalhes em vermelho, foram pintadas de amarelo. Mais de 10 anos depois, elas estão sujas, descascadas e com marcas da enchente de 2024.
Outra novidade anunciada na época eram deques de madeira para colocar mesas em frente aos negócios, que nunca chegaram a existir. Ainda assim, clientes passaram a poder consumir sentados em mobiliários nas calçadas, o que não era permitido até então.
Em 2023, o secretário municipal de Planejamento e Assuntos Estratégicos, Cezar Schirmer, chegou a anunciar que o bonde de 1929 que fica exposto em frente à sede da Companhia Carris Portoalegrense, no bairro Partenon, seria levado para o Largo Glênio Peres e instalado em frente ao antigo abrigo.
O plano nunca chegou a sair do papel, já que o veículo agora pertence à empresa que comprou a estatal em 2024. Procurada, a proprietária do bonde modelo Brill 123 diz estar disposta a avaliar e colaborar com o projeto "desde que haja garantia de adequada conservação do veículo, com plano de gestão que assegure a manutenção, a segurança e os cuidados contínuos com o bonde".

Um outro bonde da Carris chegou a ser restaurado recentemente pelo Studio 1 Arquitetura, do arquiteto Lucas Volpatto. O veículo está exposto no novo Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (Macrs), inaugurado este ano no 4º Distrito.
Um lugar histórico
Os trilhos preservados e uma placa no local relembram o passado do prédio do abrigo dos bondes, construído na década de 1930. A Carris tinha um ponto de parada dos bondes na praça. Em relatório de 1929, o intendente Alberto Bins citou que eram "frequentes as queixas do público a propósito da falta de um abrigo coberto".
Conforme relembrou o colunista de GZH Leandro Staudt, a prefeitura abriu, em 1932, concorrência pública para construção e concessão de abrigo. O vencedor poderia aproveitar 20% da área coberta para comércio, além de vender espaços para publicidade. A estrutura deveria ter ponto para venda de passagens.
No livro Christiano de La Paix Gelbert e a Arquitetura da divisão de obras de Porto Alegre (1925 a 1953), a pesquisadora Taísa Festugato conta que as obras iniciaram em 24 de outubro de 1932. O projeto foi do engenheiro e arquiteto Adolpho Heirich Siegert. A empresa M. Prates e Cia Limitada venceu a concorrência.
O projeto previa apenas a parte junto à Rua Dr. José Montaury. Em 1935, ocorreu a ampliação do abrigo, em projeto atribuído ao arquiteto Christiano de la Paix Gelbert, chefe da 4ª Seção da Diretoria de Obras da prefeitura. A extensão formou um "L". No ponto de conexão das partes antiga e nova, foi adicionado um segundo pavimento.
Com o aumento da presença dos carros e investimentos da prefeitura em novos meios de transporte públicos, como os ônibus e depois as lotações, os bondes deixaram de circular em Porto Alegre em março de 1970.



