
Na Orla, no Parcão, na Redenção; em feirinhas na Praça Garibaldi, na Travessa dos Venezianos e em muitos outros lugares da cidade. Houve um momento desta última década em Porto Alegre que, em praticamente qualquer evento público ao ar livre, eles estavam lá: os food trucks.
Nos últimos anos, entretanto, este cenário mudou. A presença dos trucks rareou nas ruas da Capital, principalmente após a pandemia, e os empreendedores precisaram adaptar suas operações para manter os negócios.
Confira abaixo:
A venda de comida na rua não era a inovação — em Porto Alegre, o famoso Zé do Passaporte já vendia cachorro-quente em uma carrocinha para o público em 1959. Contudo, uma nova onda de veículos estilizados, com mais estrutura de cozinha e vendendo comidas "gourmet" renovou esse tipo de comércio na Capital a partir de meados da década passada.
Os food trucks, desta forma que se popularizaram mais recentemente, começaram a se propagar com mais força nos Estados Unidos, a partir da crise econômica que atingiu o país em 2008. Como muitos restaurantes fecharam, chefs de cozinha encontraram neste formato uma possibilidade mais prática e acessível para continuar trabalhando. Logo, as estruturas sobre rodas tomaram conta das ruas do país, estacionando em calçadas, praças e parques.
Em Porto Alegre, essa onda se consolidou poucos anos depois. Em 2013, uma van que vendia comida japonesa foi uma dos primeiras a circular na Capital. Em 2015, a Câmara de Vereadores aprovou um projeto de lei que regulamentava os food trucks, e a partir daí o número de veículos com esta proposta rapidamente começou a crescer.
Boom
Assim como ocorrera nos Estados Unidos, chefs de cozinha e empreendedores gaúchos adotaram o modelo para ter a possibilidade de ter o próprio negócio e vender comida de qualidade por um preço mais acessível.
— Morei nos Estados Unidos e vi como essa onda se espalhou por lá. Aqui, comecei fazendo hambúrguer artesanal, era uma época em que as hamburguerias artesanais ainda estavam chegando a Porto Alegre, então o público tinha a possibilidade de comer esse tipo de hambúrguer com um preço mais barato no truck. O food truck no começo tinha essa pegada, de ter um contato mais direto com o público, mas também oferecendo uma refeição diferenciada — lembra o chefe de cozinha Orlando Carvalho, 54 anos, que teve a décima primeira licença para operar food trucks em Porto Alegre.
Orlando também foi o primeiro presidente da Associação Porto-Alegrense de Food Truck (Apoaft), registrada em 2017. Como o número de trucks crescia, os empreendedores do segmento se organizaram para defender demandas que facilitassem sua atuação.
— Como era uma coisa nova, nem as autoridades sabiam muito como regular no começo. Aos poucos, foram regulando a atividade, estabelecendo as licenças de funcionamento necessárias, os alvarás de vigilância. Batalhamos para ter nossas operações reconhecidas — destaca Orlando.
Para empresários que já atuavam no ramo alimentício, os food trucks também foram uma possibilidade de popularizar marcas e fomentar as vendas. O empresário Bolivar Neto, 55, já administrava a sorveteria Ice Duck 1934 havia cerca de cinco anos, quando começou a perceber o movimento dos trucks chegando a Porto Alegre e viu uma oportunidade de expandir o negócio.
— A nova Orla estava ficando pronta, os porto-alegrenses estavam começando a ter mais a cultura de curtir eventos na rua, ao ar livre, nos parques e praças. Para quem organizava esses eventos, os trucks eram a opção perfeita para oferecer comida e bebida no local. Para quem tinha os veículos, participar desses eventos era a chance de aumentar as vendas e dar publicidade às marcas, porque o truck te dá essa possibilidade, de ir até o público, e não só esperar o público ir à tua loja — destaca Bolivar, que foi presidente da Apoaft entre 2019 e 2024.

Também ainda no início da fase de crescimento da onda dos food trucks em Porto Alegre, Daniel Bittencourt, 44 anos, resolveu apostar no modelo. Chef de cozinha e atual presidente da Apoaft, ele trabalhava especificamente com sushis desde 2009, e viu nos trucks a chance de montar um empreendimento próprio.
— Foi em um dia passeando na Praça Garibaldi, em uma feira com vários food trucks, que me deu o estalo: “É assim que vou abrir um negócio meu”. Era 2016, uma época que tinha muitos eventos de rua na cidade, e a população estava bem entusiasmada com esse formato da comida nos food trucks, pois ainda tinha esse aspecto da novidade que chamava a atenção — aponta Daniel, administrador do Arashi Sushi Truck.
No auge da onda dos food trucks em Porto Alegre, entre 2018 e 2019, eram cerca de cem os veículos na cidade. Havia demanda para participar de eventos praticamente ao longo de toda a semana — aos sábados e domingos, os empreendedores chegavam a operar em três ou quatro lugares diferentes em um mesmo dia. Contudo, a partir de 2020, esse cenário começaria a mudar, exigindo adaptações no modelo.
Pandemia interrompeu crescimento
A inesperada chegada da pandemia, no primeiro semestre de 2020, freou o crescimento dos food trucks na Capital. Com a impossibilidade de circulação de pessoas nas ruas durante vários meses, os eventos ao ar livre e a venda direta para o público, principal fonte de renda no segmento até aquele momento, simplesmente deixaram de ocorrer repentinamente.
— Esse foi o primeiro grande baque. O mercado todo se organizou para operar principalmente com base nas vendas em eventos públicos, ou direto nas calçadas mesmo. A nossa maior fonte de renda, do dia para a noite, passou a não existir — relata Orlando Carvalho.
Bolivar Neto, presidente da associação à época, lembra o período de dificuldades. Para ele, além da chegada inesperada da pandemia, a falta de certeza em relação a quando as restrições chegariam ao fim foi mais um aspecto que dificultou a sobrevivência dos food trucks.
— A gente não sabia quando a pandemia ia acabar, quando os eventos iam voltar, por quanto tempo ficaríamos parados. Essa incerteza impôs muitas dificuldades ao planejamento financeiro, e como a maioria dos food trucks operava já com uma margem de lucro apertada, muitos acabaram tendo que desistir do negócio nessa época — afirma.
Aos poucos, ao longo de 2021, as restrições relacionadas à pandemia foram sendo flexibilizadas. Contudo, os eventos de rua nunca voltaram com a mesma força.
— Os eventos começaram a voltar, a gente tinha todo o cuidado higiênico e sanitário, usava máscaras, mas esse cenário nunca mais foi como antes. As pessoas ainda estavam receosas de comer direto na rua, e o delivery começou a ficar muito em alta. Além disso, o food truck deixou de ser novidade, a moda passou um pouco. Acho que a pandemia fez a gente perder aquele timing de crescimento — reflete o atual presidente da Apoaft.

Adaptação para sobrevivência
A pandemia atingiu em cheio a operação dos food trucks, mas não dissipou totalmente a onda. Segundo a secretaria municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (SMDETE), há 39 alvarás válidos para operação de food trucks na Capital. Nem todos estão em operação — na Apoaft, hoje, há cerca de 20 associados ativos, e os empreendedores remanescentes no segmento diversificaram seus modelos de negócio para sobreviver.
O próprio Daniel foi um destes. Aproveitando o crescimento do mercado de delivery, ainda em 2020 começou a fazer entregas de suas refeições, prática que mantém até os dias atuais. Ele também estaciona seu truck durante dois dias da semana ao lado de um conjunto de condomínios no bairro Jardim do Salso, buscando criar conexão com o público local, e participa de eventos públicos, quando ocorrem, além de eventos privados.
A participação em eventos privados, aliás, foi o nicho de mercado que mais cresceu para os food trucks nos últimos anos. A contratação dos trucks para reuniões corporativas, festas de formatura e aniversário, ou para estacionar em grandes condomínios e atender os moradores hoje é a maior demanda para o serviço, e, de forma geral, se tornou a principal fonte de renda para quem ainda atua no negócio.
— Já fazíamos eventos privados antes, mas respondiam a cerca de 10% a 20%, no máximo, do faturamento. Isso começou a mudar durante a pandemia, quando as restrições começaram a ser liberadas, pois a primeira demanda que tivemos de volta foi nos condomínios, as pessoas se sentiam mais seguras. Esse mercado não parou de crescer e hoje a lógica se inverteu, a participação em eventos privados corresponde a cerca de 70% a 80% do faturamento da praticamente todos os food trucks ainda em operação — reforça Bolivar.
Com a mudança de cenário imposta inicialmente pela pandemia e a diminuição da demanda pelos serviços, entretanto, muitos empreendedores precisaram sair de vez do mercado de food trucks. Após anos de operação como pioneiro nesta modalidade na Capital, o chef Orlando Carvalho migrou sua operação para um restaurante próprio em 2022. Hoje, ele administra o La Cubana, estabelecimento que serve almoço e janta no bairro Rio Branco, em Porto Alegre.
— A época da operação dos food trucks foi muito prazerosa. Estávamos experimentando um formato novo, que proporcionava um contato direto com o consumidor, e muita gente só conseguiu começar a empreender e ter o próprio negócio por causa desse formato facilitado. Deixou muitas lembranças boas, e certamente muitos aprendizados também — acrescenta Orlando, que hoje ainda guarda em casa seu primeiro truck, “como relíquia”.
Towners de cachorro-quente foram precursoras

Cerca de duas décadas antes dos food trucks, outro conjunto de veículos e vendedores de comida já havia tomado as ruas de Porto Alegre. Eram as towners de cachorro-quente, que até hoje estão no imaginário da população da Capital.
Assim como ocorreu com os food trucks, a popularização das towners, na década de 1990, foi motivada por fatores econômicos. O desemprego estava em patamar elevado na época, e muitos porto-alegrenses encontraram na venda informal de cachorro-quente uma oportunidade de renda.
Uma alteração legislativa que diminuiu a alíquota de veículos importados no Brasil em 1994 contribuiu para que montadoras como a Asia Motors, que produzia as towners, explorassem o mercado nacional. Com as minivans já no país, os brasileiros acabaram descobrindo que o porta-mala do veículo também poderia ser utilizado para abrigar um cozinheiro e a mini-cozinha que era montada.
O período de alta das towners de cachorro-quente nas ruas de Porto Alegre também foi passageiro. Dos cerca de 450 veículos que a cidade chegou a ter no final da década de 1990, a maioria deixou de operar no início dos anos 2000, e atualmente restam unidades que se podem contar nos dedos. Ocasionalmente, ainda podem ser vistas encostadas em uma calçada eventual da Capital, assim como os food trucks.


