
Pichações e janelas quebradas são hoje a vitrine de lojas que abrigaram ícones da boemia porto-alegrense no passado. Nas fachadas desses imóveis, placas de aluga-se se desgastam enquanto os proprietários aguardam ligações de interessados pelo ponto. Mesmo com boa localização e o sucesso alcançado no passado, espaços nos bairros Cidade Baixa, Centro Histórico e Petrópolis já não são mais o alvo de novos empreendedores.
Diretor do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre (Sindha), Edemir Simonetti afirma que a cidade vive ciclos quando o assunto é gastronomia. Os bairros citados acima seguem com comércios do segmento, mas esse tipo de loja está sendo agrupado em trechos de ruas ou dentro de centros comerciais, que trazem maior sensação de segurança, afirma o empresário.
— Bares localizados fora desses eixos ou que não se adaptaram às demandas da sociedade atual foram sendo deixados pelo público. Alguns não conseguiram se renovar. Tudo é cíclico. Regiões com bares noturnos foram para outros polos, como o 4º Distrito, a Rua Nova York e agora na Rua dos Andradas. Tem muito a ver com um ciclo de modismo — diz Simonetti.
A reportagem de Zero Hora percorreu ruas de Porto Alegre e averiguou a situação atual de endereços que, no passado, abrigaram alguns dos bares mais icônicos da cidade.
Fachadas pichadas, aberturas lacradas
Copacabana
Fundado em 1939, o Copacabana foi um dos mais tradicionais restaurantes de Porto Alegre. O ponto servia de encontro de políticos, dirigentes esportivos e personalidades da Capital e do mundo (veja, mais abaixo, na galeria de fotos).
O salão, na esquina entre as avenidas Erico Verissimo e Venâncio Aires, funcionou até 2021, na pandemia, quando os proprietários optaram por atender somente por telentrega. A cozinha foi transferida naquele ano para um imóvel na Zona Sul.
A casa na Cidade Baixa ainda pertence à família dona do Copacabana, mas a estrutura está abandonada. Paredes e portões estão tomados por pichações. Janelas foram lacradas com tijolos para impedir a entrada de invasores, e o letreiro com o nome da marca está caindo, ameaçando cair na calçada.
Os proprietários não querem mais ocupar a loja ou alugá-la. À reportagem, uma das donas disse que quer vender o ponto a uma construtora. Ao lado, um prédio será erguido, mas a empreiteira não teria interesse em incorporar o projeto na área do restaurante.
Em 2021, quando a operação foi fechada, o sócio Marcelo Castilhos Sanzi contou à colunista de GZH Marta Sfredo que a vontade de deixar o endereço surgiu ainda antes pandemia.
— O ponto era complicado para os clientes. Sempre procuramos olhar o restaurante de fora para dentro e entrar como se fôssemos um cliente. Uma das coisas que incomodavam muito era o entorno. Então, já havia perspectiva de troca de lugar — relatou o empresário, detalhando que havia desistido de pintar o prédio, depois de quatro ou cinco tentativas, e que as lâmpadas externas, depois de seis ou sete furtos, eram retiradas e recolocadas todos os dias.
Quando chegou a pandemia e, com ela, as restrições de operação, a saída foi se mudar para a Zona Sul e focar no modelo de telentregas. O imóvel escolhido está localizado do outro lado da rua de onde ficava outro ícone gastronômico de Porto Alegre que fechou as portas, o Bologna, na Rua Déa Coufal, no caminho para a praia da Ipanema.
Van Gogh
Em outra parte da Cidade Baixa, o ponto do antigo bar Van Gogh também sofre com o abandono.
Quem passa em frente ao local, na esquina entre a Avenida João Pessoa e a Rua da República, consegue ver o interior da loja — de 135 metros quadrados — graças a buracos nas janelas quebradas, abertos por vândalos.
O bar fechou em agosto do ano passado, após 65 anos servindo sopas e cervejas aos frequentadores. Em 2020, o negócio quase havia encerrado as atividades por definitivo, em meio às restrições decorrentes da pandemia.
No dia do fechamento, o antigo proprietário desabafou:
— A boemia acabou. Aqui foi um lugar onde vinham artistas, personalidades, pessoas comuns da vida noturna. Hoje isso não existe mais. É a geração do hambúrguer. O aluguel ficou caro, e a receita é pouca. Estou triste nesta decisão — disse Cláudio Piovesani, que estava há 31 anos na administração do Van Gogh.
O dono do imóvel está propondo um contrato de 30 meses com aluguel mensal de R$ 7,5 mil. No primeiro ano, haveria um desconto de R$ 6,3 mil por mês; depois, os descontos iriam diminuindo gradativamente até chegar ao total estipulado.

Reformados, mas sem inquilinos
Boteco Natalício
No Centro Histórico, até houve tentativas para ocupar o ponto do antigo Boteco Natalício, mas todas foram frustradas. Depois do encerramento da operação na esquina entre as ruas Coronel Genuíno e Marechal Floriano Peixoto, em 2019, a cervejaria 4Beer ocupou o imóvel, mas o deixou após dois anos de operação, cumprindo apenas o tempo de contrato. Dois meses depois, um outro empresário tentou a sorte no local, mas também fechou a unidade.
Procurados, os empresários que tinham esses negócios queixaram-se de baixo movimento na rua. No caso da cervejaria, o franqueado diz ter perdido faturamento durante a enchente, mesmo que a água não tenha atingido esta parte do Centro Histórico. Foram investidos R$ 200 mil em reformas. A pintura externa, feita na época, está hoje coberta por pichações.
Jaime Pereira, dono do imóvel, está pedindo R$ 7 mil mensais pela loja de 220 metros quadrados. Segundo ele, já haveria interessados em assumir o ponto. Acrescenta que a loja estaria pronta para receber negócios, mas pondera que reformas seriam necessárias, a depender do segmento da operação.
— A procura existe, mas o pessoal não consegue nem passar na análise de crédito. Prédio fechado é prejuízo. Uma loja com porta fechada é feia para a zona. Com um bar aberto, a região cria vida, gera a congregação das pessoas — diz Pereira.
O Boteco Natalício funcionou no endereço de 2006 a 2019. Chegou a ter mais duas unidades, nos bairros Jardim Botânico e Tristeza, que eram franquias e foram fechadas após desavenças com o dono da marca, Eduardo Natalício. Três anos antes de a última loja fechar, o empresário pernambucano se mudou para o Recife (PE), onde presta consultoria e dá cursos.
Caverna do Ratão
Na Avenida Protásio Alves, outro ponto deixado por um clássico bar de Porto Alegre aguarda um inquilino. É a loja do antigo Caverna do Ratão, fechado em 2022, após 66 anos reunindo amigos e cultivando clientes em suas mesas e bancos.
Segundo a imobiliária, o imóvel estaria em "estado de novo", porque até pouco tempo era ocupado por um empório. O negócio, no entanto, durou menos de um ano no local.
— Chamavam de "esquina da alegria", mas agora está parecendo a "esquina maldita". É muito difícil que algo dê certo no meio deste caos da Protásio — diz a aposentada e moradora do bairro Petrópolis Vera Figerotto.
O dono do imóvel está pedindo R$ 4 mil mensais pelo ponto, que tem 110 metros quadrados.
Clássicos que voltaram a existir
Apesar dos fechamentos de estabelecimentos clássicos da Capital, outros tão emblemáticos quanto voltaram a existir.
O Bar Líder, que funcionou de 1952 a 2010 na Avenida Independência, reabriu no imóvel antes ocupado por outro conhecido restaurante: o Champanharia Ovelha Negra — que depois virou Champanharia 609 — na Rua Duque de Caxias, fechado em 2021, no auge da pandemia.
Para reabri-lo, o casarão construído em 1927, de 120 metros quadrados, passou por uma profunda reforma. Foram refeitos o piso, elétrica, encanamento e telhado. Por fora, a casa foi pintada de laranja. Com dois andares, o bar tem 60 lugares. No mezanino, há mesas mais amplas, enquanto no térreo alguns móveis foram feitos com a madeira das portas que ficavam na entrada.
A proposta de servir espumantes está mantida, mas agora também há chope e drinques no cardápio, além de comidas alemãs.
No ano passado, foi reaberto o tradicional Encouraçado Butikin em um velho casarão no número 936 da Avenida Independência. Fundado em meados da década de 1960 pelo advogado Rui Sommer, o espaço se tornou ponto de encontro da alta sociedade, intelectuais e artistas em Porto Alegre. Nomes como Elis Regina, Chico Buarque e Vinicius de Moraes marcaram presença no local.
Após interrupções e reaberturas, em 2024 o espaço ressurgiu após uma longa reforma, buscando resgatar a essência do bar original, mesclando com toques contemporâneos e programação cultural.
O interior do "novo" Encouraçado Butikin revela ambientes distintos. Um deles é o Butikin Hi-Fi — considerado o primeiro "bar de audição" (listening bar) de Porto Alegre — um espaço intimista, acusticamente projetado para que o som de vinis seja apreciado com alta qualidade. Um outro ambiente é o Clube 936, que abriga uma galeria de arte e é onde acontece uma das principais atrações do novo Encouraçado Butikin: o duelo de pianos.
Os novos "botecos"
Presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Rio Grande do Sul, Leonardo Dorneles diz que Porto Alegre segue recebendo novidades do setor, mas em partes da cidade que até então eram menos exploradas.
— A Padre Chagas, por exemplo, foi uma referência. Depois de conflitos com moradores e custo alto dos aluguéis, os bares foram para outras partes da cidade. De repente, do nada, surgiram outros núcleos que começaram a dar certo, e mais empreendedores foram atrás — avalia Dornelles.
O presidente da Abrasel-RS e Simonetti, do Sindha-RS, falam sobre a chegada de um novo tipo de bar: os que têm "estética de boteco".

A maioria está concentrada no bairro Rio Branco. Nas paredes, há pilhas de caixas de cerveja, umas em cima das outras, simulando estabelecimentos mais simples que não contam com depósito. No cardápio, porções de petiscos e frituras são descritas de forma engraçadinha.
— Na "budega", tu vais para tomar uma cerveja gelada, conversar com o dono. A continuidade dos bares passa muito pelas gerações do dono. Tem lugares que se tornam deprimentes. Às vezes, troca a geração e muda tudo. Pode ser bom ou ruim. O pessoal está se modernizando. Quando o fundador morre, troca o ciclo. Para segurar, o dono tem que ter DNA de empreendedor — conclui Simonetti.


