
Espalhados pela calçada desde o início da manhã, os moradores do Edifício Esmeralda ainda tentavam se recuperar do susto da véspera, quando o número 219 da Rua Espirito Santo, no Centro Histórico de Porto Alegre, foi atingido por um ônibus em chamas. Do outro lado da rua, aguardavam a notícia que veio após a vistoria de peritos da Defesa Civil nos cinco andares do prédio: poderão voltar para suas casas e conferir estragos já neste sábado (4).
— Era tanto estouro que achei que estava tendo um tiroteio de fuzil na rua, tamanho o barulho. Quando fui olhar pela janela, era fogo e fumaça. Logo a janela quebrou, os vidros estouraram — conta o técnico em informática Marcos Souza, 65 anos.
Assustado e tentando achar a gata Ísis, Marcos ainda saiu e voltou ao menos três vezes do corredor para o apartamento. Só abandonou o imóvel quando os bombeiros mandaram evacuar o prédio.
Quando chegou à rua, Marcos precisou inalar oxigênio para respirar melhor após a contaminação pela fumaça preta e espessa que invadiu o edifício. A gata acabou socorrida por uma vizinha que a encontrou encolhida embaixo de uma mesa de cabeceira.
No apartamento debaixo do de Souza moram o aposentado Mário Floriano, 70 anos, e a esposa Laura. Ela estava assistindo TV na sala quando as janelas começaram a estourar. Imediatamente pegou os dois cachorros e desceu as escadas.
Mário estava retornando de Guaíba pela BR-290 e ouviu na Rádio Gaúcha que havia um incêndio na esquina de casa. Ligou para a esposa, mas ela não atendeu. Para aumentar o nervosismo, uma operação policial na rodovia bloqueou o trânsito por alguns minutos. Pouco depois, o telefone tocou.
— Vem que o incêndio foi aqui em casa — avisou Laura.
Depois que as labaredas foram controladas, Mário conseguiu subir até o apartamento e pegar a medicação da esposa, que sofre de enfisema pulmonar. O imóvel foi um dos mais atingidos, já que o ônibus ficou logo abaixo da sacada. Ele ainda não teve tempo de avaliar os estragos:
— Eu entrei à noite, então só vi que estava tudo preto.
Erguido em 1958, o Esmeralda tem 30 apartamentos. Cerca de 80% estão ocupados, segundo o síndico Rafael Mascolo. Há dois anos administrando o edifício, ele não mora no local, mas correu ao prédio tão logo a notícia do incêndio se espalhou. Segundo ele, ao menos 10 apartamentos foram atingidos pela chamas, do primeiro ao quinto andar do lado mais próximo à esquina a com a Rua Coronel Fernando Machado.
Dono de um apartamento no quarto andar, o bancário Paulo Rodrigues estava em Capão da Canoa no momento do acidente. Ele soube do incêndio pelo grupo de Whatsapp dos moradores, e só neste sábado vai poder entrar no imóvel. Segundo a Brigada Militar, a casa dele foi uma das menos atingidos.
— Eu me divido entre a praia e a Capital. Moro um pouco em cada lugar. Fiquei muito assustado, mas graças a Deus parece que não queimou nada lá dentro — conta, aliviado.
Enegrecida pelas chamas, a fachada do Esmeralda tem janelas contorcidas pelo calor, aparelhos de ar-condicionado derretidos e muitas vidraças estilhaçadas. Algumas câmeras de segurança se desmancharam no calor, mas as imagens estão gravadas em um computador e ainda não foram acessadas.
Há 40 anos dono de uma loja de molduras em frente ao prédio, Valmir Rosseto, 70 anos, tem vívida na lembrança a sucessão de acidentes que culminaram com o fogaréu. Rosseto estava trabalhando quando ouviu o estrondo dos carros sendo abalroados pelo ônibus. Ao sair na calçada, deparou com o coletivo em chamas e as pessoas gritando na rua.
— Eu peguei o ferro de baixar a cortina, um martelo e dei para o pessoal. Começamos a quebrar as janelas do ônibus para as crianças saírem. Dei também dois extintores de incêndio para ajudar a apagar o fogo. Mas não deu pra ficar muito tempo, o calor era muito grande — diz Rosseto, sobre a calçada salpicada de plástico e ferro queimado.
Investigação do acidente
A Polícia Civil investiga o que causou o incidente e deve ouvir as testemunhas nos próximos dias. Conforme o delegado Paulo César Jardim, a polícia aguarda a conclusão da perícia do local para dar andamento às investigações.
A prefeitura de Vacaria informou que os estudantes que estavam no veículo chegaram ao município por volta das 2h de hoje. Todos passam bem e receberam apoio psicológico na chegada. Eles seguirão com acompanhamento nos próximos dias.
Incêndio em ônibus
O incêndio no ônibus foi registrado no Centro Histórico de Porto Alegre por volta das 16h desta sexta. O Corpo de Bombeiros Militar foi acionado para atendimento no local.
— Era um ônibus de excursão com 57 crianças que estavam visitando o Palácio Piratini, numa visita escolar. Quando eles terminam a visita, entram no ônibus e iniciam o deslocamento, que seria para o próximo ponto, no Barra Shopping, aqui em Porto Alegre. Na descida da Espírito Santo, o motorista do ônibus bate nos fios de alta tensão da via, de energia elétrica. Então, ele para o ônibus, segundo o relato, aciona o freio de mão, desce e, quando ele vai verificar esse ônibus, (o veículo) inicia um deslocamento, começa a descer por conta própria com as pessoas dentro do ônibus — explica o comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Hermes Völker.
Ainda conforme o comandante, todos foram retirados do coletivo e ninguém chegou a ficar ferido, apenas houve inalação de fumaça. O ônibus vinha de Vacaria, município da Serra, e realizava uma excursão com estudantes com idades entre 15 e 17 anos.
O veículo desceu a Rua Espírito Santo, que é uma via bastante íngreme, e colidiu com 10 veículos. Um prédio também foi atingido pelo fogo. O motorista está bem. O ônibus parou na Espírito Santo, entre a Demétrio Ribeiro e a Fernando Machado.

