
Uma fachada que lembrava o paredão de um castelo. Uma entrada iluminada por arcos de néon. Uma escada com um longo tapete vermelho. Punks, surfistas, clubbers e outras diferentes tribos sempre presentes. Assim eram os tempos de ouro do lendário Taj Mahal, emblemática casa noturna que funcionou entre os anos 1980 e o início dos 1990, em Porto Alegre.
Inaugurado em 9 de dezembro de 1983, o espaço situado na Avenida Farrapos foi comandado por Marion Amarante — já falecida e considerada uma espécie de dama da noite porto-alegrense. A proprietária recebia os visitantes na porta e sabia o nome de boa parte dos frequentadores. Os mais assíduos ganhavam uma carteirinha vip que os isentava do ingresso. Um status e tanto para a época.
O Taj Mahal ficava no mesmo local onde antes funcionava o Dragão Verde — este, dedicado ao entretenimento adulto — e recebia frequentadores de diversos bairros da Capital e da Região Metropolitana. Muitos chegavam a pé ou de ônibus, já que táxis eram um luxo reservado aos mais abastados ou àqueles que queriam evitar assaltos e brigas na saída, inclusive perto da Open Mind, outra danceteria das imediações.
O professor de História Christian Ordoque, 52 anos, começou a frequentar o endereço do bairro Floresta no fim da década de 1980, em uma festa de Réveillon. Posteriormente, chegou a trabalhar como DJ em uma das pistas. Docente da rede estadual em Canoas, na Região Metropolitana, é um dos inúmeros saudosistas da lendária danceteria e guarda até hoje, em casa, uma pequena maquete em 3D do Taj Mahal.
— Era uma casa noturna que nessas grandes festas abria a piscina, oferecia café da manhã e frutas. Era uma coisa maravilhosa os finais de ano no Taj Mahal — recorda.
O refúgio de uma geração
Naqueles anos de inflação descontrolada, plano de governo que trocou a moeda cruzeiro para cruzado, acidente nuclear de Chernobyl e a espera da passagem do cometa Halley, as pessoas tinham urgência de festejar. Era como se as noites do fim de semana fossem uma válvula de escape. Todos queriam dançar, e dançar no Taj Mahal.
— Eu ia para escutar música. Era essa a jogada. Era uma coisa geral entre os frequentadores. Não era para pegar alguém ou me embebedar. Não existiam brigas dentro do Taj, havia no lado de fora. Era um clima de muita paz. Logicamente, havia um consumo de ilícitos ali dentro que era algo da noite — relata Ordoque.
Mas o que tocava no Taj? Grupos e músicos como Depeche Mode, The Cure, Bauhaus, Dead or Alive – especialmente You Spin Me Round –, New Order, David Bowie, The Smiths, Echo & the Bunnymen e por aí afora.
— A música mais clássica do Taj era Let Your Body Learn do grupo eletrônico britânico Nitzer Ebb — afirma o professor.
Em certa ocasião, Ordoque recorda ter encontrado e conversado com alguns integrantes do Titãs, que visitavam a casa noturna. O Barão Vermelho se apresentou no Taj, assim como a Bandaliera, que gravou um disco ao vivo no local em 1991. A banda paulista U2 Cover, considerada a melhor cover da época, além de Lory F. Band, Tokeloko e Rola Stones, também passaram pelo local.
"Catálogo da moda"
O estilo de vestimenta variava de grupo para grupo. Era comum encontrar pessoas com cabelo emplastado de gel e coletes curtos sobre camisas brancas; ou, por outro lado, exibindo pesados capotes negros, além de vistosos coturnos. Alguns grupos paravam em bares antes da festa para beber e não gastar com o consumo dentro da danceteria. Menores de idade conseguiam entrar. Eram outros tempos.
— Durante a semana, o povo que frequentava o Taj Mahal se reunia na Galeria Chaves de dia. Então, quem passasse ali na galeria entre 10h e 18h, veria aquelas figuras de cabelo arrepiado e vestidas de preto, os góticos e pós-punks do Taj — completa o docente.
O Taj Mahal tinha uma decoração diferenciada, que contava com piscina, bancos com almofadas, espelhos e duas pistas de dança. Mas não ficava só nisso, como descreve Ordoque:
— Tinha outro ambiente, que era o Subway (espaço contendo algumas pirâmides invertidas). Então, por noite, sempre três equipes de DJs trabalhavam simultaneamente. O grande diferencial do Taj eram as músicas alternativas. As coisas chegavam primeiro lá.
O Taj também se destacava pela proporção arquitetônica, como relembra o consultor de empresas Álvaro Almeida, 61 anos. Ele frequentava a casa enquanto estudava Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ainda morava em Porto Alegre. Hoje, vive em São Paulo.
— Tinha uma fachada grande e dentro era amplo. Uma parte descoberta onde as pessoas circulavam, namoravam e conversavam. E dentro, havia a pista — relata.
Almeida ainda arremata sobre aqueles tempos do passado:
— As casas noturnas mais elitizadas ficavam em direção à Avenida Plínio Brasil Milano. Então lá (Taj), até pelo acesso, podia chegar gente que não era de Porto Alegre, era bastante misturada a frequência. A música era muito boa. Mistura de rock e New Wave. O som era bastante bom.
Durante a semana, o povo que frequentava o Taj Mahal se reunia na Galeria Chaves. Quem passasse ali entre 10h e 18h, veria aquelas figuras de cabelo arrepiado e vestidas de preto, os góticos e pós-punks do Taj.
CHRISTIAN ORDOQUE
Professor de História
A música também era o que atraía o ilustrador e músico Daniel Horn da Rosa, conhecido como Daniel HDR, 51 anos, ao Taj Mahal. Ele começou a frequentar o local ainda adolescente, em busca de músicas diferentes, e acabou se tornando DJ da casa entre 1990 e 1991.
— O Taj foi muito pioneiro nisso. Trouxe o Synth-pop, Electronic Body Music, que o pessoal chamava naquela época de New Beats. Usavam esse termo para definir esse tipo de som mais alternativo eletrônico — ilustra.
Furando a bolha
Segundo Daniel, quem queria escutar esse tipo de música só encontraria no Taj ou na vanguardista casa Madame Satã, em São Paulo. No período em que atuou como DJ, ele recorda que a proprietária decidiu abrir uma segunda pista junto à piscina. Na época, o gênero musical e de dança lambada estava em alta no país.
— Esse passo de fazer a pista de lambada foi para furar essa bolha do público. Os chamados “boyzinhos” e “patricinhas” iam dançar músicas mais comerciais, fugindo um pouco da linha da casa. Lembro claramente desse período — menciona.
Daniel também lembra a curiosa mistura de estilos reunidos no mesmo ambiente: os góticos apareciam de sobretudo e cabelos desgrenhados, as garotas usavam meias arrastão e piercings, enquanto o pessoal tipicamente “playboyzinho” exibia topetes armados com gel.
— Acabava sendo um catálogo da moda da época — diverte-se.
Esse passo de fazer a pista de lambada foi para furar essa bolha de público.
DANIEL HDR
Ilustrador e músico
Entre suas lembranças, o médico ginecologista José Luiz Krahe, 60 anos, reforça que o Taj reunia diferentes estilos de pessoas, em uma época em que as festas noturnas de Porto Alegre começavam por volta da meia-noite e as danceterias da cidade registravam grandes filas na entrada.
— A frequência era de uma fauna. Tinham tribos punks, darks, a turma dos ecléticos, era bem underground. Tocava The Cure, The Cult, The Smiths, Talking Heads, os brasileiros Plebe Rude, Camisa de Vênus, entre outros.
Poucos lugares transformam-se em referência absoluta no cenário urbano e atingem o patamar de formar e manter comunidades. O Taj foi um desses pontos inesquecíveis e nostálgicos. No Facebook, por exemplo, há um grupo público intitulado "Eu ia no Taj Mahal", que conta com 1,5 mil membros.
— O Taj me deixa memórias incríveis. De como era extremamente possível você voltar andando pela Farrapos até a altura quase do Cristo Redentor depois de sair da balada. Era bem doido — enfatiza Daniel.
Do saudosismo à realidade
O Taj Mahal encerrou as atividades em 1993. Na sequência, funcionou ali por pouco tempo e de forma esporádica uma casa noturna chamada Sr Spock. Em 1996, a cervejaria Antares International Beer, que possuía seis ambientes, também ocupou o espaço.
Hoje, resta pouca coisa do Taj original, que teve parte da estrutura modificada e demolida. Atualmente, a Cootravipa, cooperativa responsável pela limpeza urbana de Porto Alegre, funciona no local como a seção Centro. Dali saem os garis que trabalham na região.




