
Para muitos, é difícil resistir a anúncios que aparecem o tempo todo na tela do celular. Ao rolar o feed, surgem produtos que, na maioria das vezes, não são extremamente necessários para o usuário. No entanto, preços atrativos, somados a condições "especiais" e brindes oferecidos pelas plataformas, fazem com que a transação seja concretizada em poucos minutos, sem chance para hesitação.
Depois da compra por impulso, é hora de esperar. Como esses produtos vêm da China, a entrega pode levar mais de um mês para chegar na casa do comprador. Para atender os ansiosos de plantão, Porto Alegre e outras grandes capitais brasileiras contam com lojas físicas onde esse tipo de item pode ser conferido e comprado na hora.
Chamadas nas redes sociais de lojas "estilo Shopee", em referência à plataforma de produtos chineses mais conhecida no Brasil, essas operações nada mais são do que uma versão atualizada dos antigos "R$ 1,99". Com o passar dos anos, a inflação acabou tirando a lógica desse nome.
Nesta nova versão, mudou também a origem dos produtos vendidos nesses estabelecimentos. Antes trazidos do Paraguai por caminhões, agora eles atravessam os oceanos dentro de contêineres em navios até chegar à costa brasileira. Depois, chegam às lojas por frotas de veículos terceirizados.
— Temos de tudo. Como comecei a trabalhar há pouco tempo aqui, chego a me perder no estoque. Eu mesma tenho vontade de comprar o que está nas prateleiras — brinca Talyta Falero, funcionária de uma loja do segmento na Rua Voluntários da Pátria.
Point na Voluntários
Nesta sexta-feira (5), a reportagem de Zero Hora visitou quatro lojas do segmento localizadas em Porto Alegre. A maioria está concentrada na Rua Voluntários da Pátria, no Centro Histórico.
A maior delas é a da marca Mario Atacarejo, logo depois do Pop Center (camelódromo). No imóvel de mais de 2 mil metros quadrados, onde ficava o antigo Shopping Center Sul, são vendidos variados tipos de produtos.
Construída em 1903, a casa é tão grande que tem três acessos pela Voluntários e um pela Rua Senhor dos Passos. Ao entrar, o cliente dá de cara com bolsas, cobertores, bijuterias e carrinhos de mão. Cada corredor é dividido por segmentos. Há uma parte de cosméticos, uma de eletrônicos, uma de malas, e por aí vai. Existe até um setor dedicado somente a produtos do "Labubu", personagem que virou brinquedo e até acessório para bolsas.
Recentemente, mais uma loja de produtos chineses se instalou em outro imóvel histórico na Voluntários. A Leste Comercial ocupou o prédio que era da tradicional Ferragem Gerghardt, que esteve por 95 anos no local.
Avançando mais um pouco, a Mega Comercial também instalou uma operação do segmento no edifício da Ughini, tradicional marca de roupas esportivas que ocupava o ponto desde 1950.

Fenômeno em áreas centrais
Lojas de produtos chineses não existem somente em Porto Alegre. É um fenômeno que ocorre no país todo e, segundo especialistas consultados por Zero Hora, existe um padrão. A maioria delas costuma estar em áreas centrais, onde há maior fluxo de pedestres, e não vendem somente para o consumidor final, mas também para outros lojistas e até ambulantes.
Presidente do Sindicato dos Lojistas de Porto Alegre (Sindilojas POA), Arcione Piva acredita que o movimento ocorre no centro de Porto Alegre devido à mudança de público que frequenta o bairro:
— Desde a pandemia, o home office afastou aquele profissional liberal, que tende a gastar mais. O bairro ainda recebe o trabalhador de baixa renda, que tende a consumir neste tipo de lojas com produtos mais baratos — avalia o presidente do Sindilojas.

Além da Voluntários da Pátria, as ruas Vigário José Inácio, Marechal Floriano Peixoto e Andradas também contam com operações de produtos chineses. Com mais de 1 mil metros quadrados de área de vendas, a loja Lady é uma delas. Há alguns meses, ela ocupou e juntou os espaços que eram de uma farmácia e de uma loja de roupas.
Nesta loja, o cliente não fica "solto". Há ao menos um funcionário por corredor para atendê-lo e explicar como funcionam os produtos. No entanto, placas avisam: "quebrou, pagou".
Nas prateleiras, há milhares de itens que parecem não ter utilidade alguma no dia a dia, mas que atiçaram a vontade do repórter. Entre eles, um miniventilador, que poderia ser usado em dias quentes, e uma pistola massageadora.
Os donos das lojas visitadas pela reportagem são chineses. Nenhum quis conversar. Em algumas unidades, funcionários falaram por eles. Questionados sobre a procedência dos produtos (se têm nota fiscal), garantiram que a importação segue os trâmites da Receita Federal.
Vendas na internet
Nos últimos anos, o comércio eletrônico brasileiro foi tomado pelas plataformas chinesas. Shopee, Temu e, mais recentemente, o TikTok Shop transformaram o mercado com preços baixos, promoções agressivas e estratégias de engajamento digital.
A Temu, por exemplo, desembarcou no Brasil em maio de 2024. Em apenas seis meses, já contava com 39 milhões de usuários ativos mensais, ultrapassando o Mercado Livre e ficando atrás apenas da Shopee, segundo dados da consultoria SBVC. Em abril de 2025, a plataforma chegou a 276 milhões de acessos e conquistou 9,9% do mercado de visitas, consolidando-se como o segundo maior e-commerce do país.
A trajetória da Shopee, que chegou antes ao Brasil, mostra como essas plataformas souberam se adaptar rapidamente ao gosto do consumidor local. Em 2024, a empresa dobrou suas vendas e movimentou cerca de R$ 60 bilhões. Também reforçou sua presença física no país com centros de distribuição e sistemas logísticos que agilizam as entregas. Essa estrutura permitiu à Shopee não apenas competir com gigantes como Mercado Livre e Amazon, mas também garantir espaço para vendedores brasileiros.
Enquanto isso, o TikTok Shop, dentro da plataforma de vídeos, ainda engatinha no mercado brasileiro. Estudos da empresa indicam que o aplicativo pode movimentar até R$ 39 bilhões até 2028, abocanhando de 5% a 9% do e-commerce brasileiro. Seu diferencial está em integrar compras diretamente à experiência da rede social, transformando vídeos e transmissões ao vivo em vitrines digitais.
Apesar das diferenças de atuação, há um traço comum entre essas plataformas: todas crescem explorando a combinação de tecnologia, promoções e apelo popular.


