
Um grupo de adeptos da umbanda se reuniu no final da tarde de domingo (28), em Porto Alegre, e discutiu se valeria a pena subir o Morro Santana — o mais alto de Porto Alegre, na Zona Leste, com cerca de 300 metros — para realizar um ritual que exige a presença de água corrente. Tinham ouvido falar sobre uma cachoeira na área, mas o final da tarde já se aproximava e não conheciam o terreno, então houve divergências se deveriam se aventurar na zona de mata. Ao final, um grupo de 17 amigos, familiares e companheiros de crença começou a percorrer uma trilha em busca do local, de onde só sairiam no meio da madrugada após se perderem e serem resgatados por guarnições do Corpo de Bombeiros e da Brigada Militar. Para aguentar o frio noturno enquanto aguardavam auxílio, fizeram uma fogueira.
— Começamos a entrar um pouco em pânico. Mas nos acalmamos, fizemos uma fogueirinha ali para nos esquentar, porque já estava ficando friozinho e tinha criança junto. Os bombeiros pediram pra gente se acalmar, e ficamos ali esperando socorro — conta uma das pessoas que se perderam, a moradora da Capital Josselaine Alves Teixeira, 42 anos, que estava ao lado do namorado, Gilson Vilanova, e se recuperava em casa do susto na tarde desta segunda-feira (29), quando conversou com Zero Hora.
Havia três crianças, uma delas de cinco anos, e dois adolescentes entre os participantes. Josselaine conta que, em busca da água corrente, exigida pelo ritual previsto, o grupo partiu em busca da cachoeira por uma das trilhas do morro. Encontraram o local quando já anoitecia:
— Demoramos para achar. Já estávamos voltando pra casa quando a gente escutou o barulho da cachoeira. Fomos até lá, fizemos o ritual de noitezinha já, com iluminação de velas e das lanternas dos celulares. Correu tudo bem, mas, na hora de ir embora, a gente se perdeu na mata.
Como a região tem sinal de telefonia e internet, entraram em contato com a Brigada Militar e com o Corpo de Bombeiros. Enviaram a localização por WhatsApp e receberam orientação de se manterem calmos.

Dois resgates em poucas horas
Enquanto isso, na unidade dos bombeiros do Partenon, que atendeu o pedido de resgate, os militares foram tomados pela surpresa. Afinal, fazia menos de quatro horas que haviam retornado de uma incursão pelo mesmo Morro Santana para resgatar outro grupo perdido. Três rapazes haviam subido a trilha para, segundo eles, tomar um chimarrão diante da vista da Capital, e não conseguiram achar o caminho de volta.
— Fomos avançando e fazendo barulho com a sirene da viatura, enquanto ficávamos em contato com eles pelo telefone. Eles iam dizendo se ouviam a sirene ou não, o que nos indicava se estávamos mais perto ou mais longe deles. Assim, conseguimos localizá-los. Mas estavam em um ponto de mais fácil acesso — conta a capitã dos bombeiros Paula da Fontoura Acosta, oficial de serviço durante as duas ocorrências.
Encerraram o primeiro atendimento por volta das 22h. No segundo chamado, recebido à 1h50min, rumaram para o morro uma viatura da Brigada Militar com dois policiais, um caminhão dos bombeiros com três homens e uma caminhonete com a capitã Paula e um motorista. Como o grupo perdido havia percorrido um trecho bem mais longo morro adentro, a operação de socorro foi mais complexa.
O caminhão ficou no começo da subida, enquanto a viatura da BM e a caminhonete dos bombeiros começaram as buscas. Em razão do terreno difícil, prosseguiram todos na caminhonete com tração nas quatro rodas. Em seguida, porém, nem mesmo esse veículo conseguiu ir adiante. Continuaram a pé.
— Foi um caminho longo e íngreme, que ia afunilando. Mas, como eles tinham sinal (de telefonia e internet), nos mandaram a localização deles, e íamos falando ao longo do caminho — conta a capitã.
Depois de encontrar o grupo, os resgatados foram conduzidos até a caminhonete. As crianças foram embarcadas, enquanto os demais seguiram a pé até a viatura da BM. Um primeiro grupo foi levado ao sopé do Santana dividido entre os dois carros, que em seguida retornaram para buscar os remanescentes. A ocorrência foi encerrada já perto das 5h.
A capitã Paula Acosta orienta a população a não se arriscar em áreas isoladas sem conhecimento do terreno e não se aventurar nesse tipo de ambiente à noite ou perto de escurecer.
— Há pontos de mata muito fechada, que se tornam muito perigosos — complementa a oficial do Corpo de Bombeiros.
A comunicação da Polícia Civil informou que, até a tarde desta segunda-feira (29), não havia sido identificada abertura de ocorrência para eventual investigação a respeito do episódio.




