
Ver alguém descer de skate pela megarrampa do Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) fazia parte do imaginário porto-alegrense. Para a surpresa de muitos, nesta quinta-feira (25), o skatista Sandro Dias, o Mineirinho, vai "dropar" do alto do prédio. As aventuras, porém, não param por aí.
Há mais de 20 anos, Armandinho já perguntava na música Reggae das Tramanda: quem nunca imaginou pegar onda no Guaíba? Essa é mais uma das "loucuras" das quais Porto Alegre já foi cenário e, no para algumas pessoas, poderia voltar a ser.
— Lembro quando eu tive a inspiração para escrever a música do Reggae das Tramanda. Tinha um bar na zona sul de Porto Alegre, na Vila Assunção, chamado Timbuca, e íamos para lá. Tinha shows de rock em cima do bar, tocaram várias bandas lá que foram clássicas do rock gaúcho. E, num daqueles finais de tarde, eu fiquei ali, olhando os recantos do Guaíba, pensando: "Pô, imagina se tivesse onda aqui, como ia ser uma cidade totalmente perfeita, né?" — comenta Armandinho.
Ele lembra ainda que, quando adolescente, chegava a dar uma "escapadela" das aulas para passar o dia em Tramandaí e voltar para a capital gaúcha com "aquele sal no corpo".
Para Armandinho, um campeonato de wakeboard (modalidade em que esportista fica sobre uma prancha, conectada a um barco por cabo) no Guaíba seria a grande "loucura" que gostaria de ver acontecer em Porto Alegre, cidade na qual se criou. Ele cita também a construção de uma piscina de ondas.
Veja algumas ideias de atividades esportivas diferentes em Porto Alegre:
Aliás, se existissem as tais ondas nas águas calmas do Guaíba, Armandinho não deixaria passar batido:
— Seria um sonho poder, no final de tarde, com o pôr do sol no Guaíba, pegar umas ondas. Eu estou dentro. Se tivesse um dia essa possibilidade, eu estaria dentro com certeza.
Pensando para além das águas, o músico afirma que a escalada de um prédio alto em Porto Alegre, como o Império, no bairro Moinhos de Vento, também seria um "esporte radical bem maluco de fazer".
Zero Hora foi às ruas e às redes sociais para descobrir qual poderia ser a próxima aventura, unindo esporte e algum ponto porto-alegrense. Confira abaixo.
As ideias
Nas redes sociais, não faltou criatividade. Houve quem falasse em nadar no Guaíba e no Arroio Dilúvio. E até mesmo aproveitar o Beira-Rio ou a Arena para fazer highline — modalidade radical em que o esportista anda sobre uma fita nas alturas.
Alguns seguidores também lembraram do toboágua da Rua Mostardeiro. A ação, chamada Te Joga, ocorreu em Porto Alegre em 2015 e em 2016. Em nota, a Coca-Cola Femsa Brasil explicou que a iniciativa foi "sucesso de público e repercussão", mas atualmente a marca está focada em outras ações, como os chuveiros de água que lembram máquinas de refrigerante: em Atlântida, já houve duas edições.
A reportagem foi atrás de respostas para algumas das ideias: será que seriam possíveis? Em todos os casos, as práticas devem ser realizadas apenas com autorização, avaliando impactos nas regiões, e por profissionais ou com orientação técnica.
🏄 Pegar onda no Guaíba?

Já teve quem desse um jeito de pegar onda no Guaíba. Na foto acima, aparece o veterinário Gabriel Schleiniger Mueller, 28 anos, praticando wakesurf (quando o atleta surfa em ondas produzidas por um barco, sem corda). Ele conta que a imagem foi tirada por volta de 2018 ou 2019, para participar de um concurso promovido pela Associação de Surf de Porto Alegre (Aspoa). Essa foi apenas uma das vezes em que praticou o esporte no Guaíba.
— Com sete anos, comecei a fazer wakeboard e sempre achei muito massa o contato com a água. Já fiz outros esportes no Guaíba, principalmente a vela. Eu acho muito legal. (Wakesurf) é um esporte muito bacana. Tem várias pessoas que podem fazer, de diferentes idades — descreve.
Assim como ele, outros atletas do clube de esportes aquáticos Wakepoint, que fica na região das Ilhas, também por vezes deixam o Rio Jacuí para trás e vão até as águas do Guaíba. Curiosamente, as marolas naturais acabam atrapalhando esportes como o wakesurf, porque deixam a água "sem direção", como explica Danielle Schleiniger Alves, uma das proprietárias da Wakepoint. Por isso, para a prática, quanto mais calma a água, melhor.
— Tem que esperar a condição perfeita para ir ali (no Guaíba). É muito melhor na região das Ilhas, que tem aqueles matos, que cobrem o vento. E daí tu fica bem na margenzinha, e fica bem lisinho nas margens. Por isso que as pessoas preferem surfar ali — acrescenta.
Em 2016, um surfista também fez história ao aproveitar a ventania para pegar as ondas que surgiram no Guaíba, na região de Ipanema. Conforme publicado pela Aspoa nas redes sociais, foi Filipe Rodrigues o autor do feito, que mostrou que "quando bate uma ressaca, pode rolar onda por aqui sim".
Surfe no Arroio Dilúvio
A água também já foi protagonista de outro caso curioso na cidade: em 2009, três amigos surfaram no Arroio Dilúvio, que passa pelo meio da Avenida Ipiranga.
— Surfar num lugar que sai esgoto e a galera achar irado não faz muito sentido. Mas nada fez sentido nenhum, a gente só foi lá se divertir — lembrou um deles em 2019, em entrevista a Zero Hora.
🏊 Atravessar o Guaíba nadando?
O Guaíba tem cerca de 50 quilômetros de extensão, da Usina do Gasômetro até a desembocadura para a Lagoa dos Patos. A profundidade é variável: há pontos com 10 metros e outros com mais de 60 metros. Em relação à largura, é de cerca de um quilômetro entre a Usina do Gasômetro e a Ilha da Pintada, mas a parte mais larga pode chegar a quase 20 quilômetros. Quem traz os dados é o professor Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

De acordo com o projeto Nadando Pelos Cartões Postais, que faz nados no Guaíba, a travessia não só é possível como será realizada. A previsão é de que ocorra em 2026, com saída da Usina do Gasômetro e chegada na praia de Itapuã, totalizando 42 quilômetros. Um nadador do projeto fará o percurso sozinho e outros farão por revezamento. As paradas serão apenas para hidratação. A previsão é de que a travessia dure 15 horas. Treinos já estão ocorrendo, conforme os criadores do projeto.
Técnico da Seleção Brasileira de Águas Abertas, Christiano Klaser, o Kiko, também afirma que a travessia seria possível para profissionais, com algumas condições.
— Claro que a gente tem que ver o melhor dia por causa das correntes. Então, se tu pega um dia que tem uma corrente muito forte, eu acho que seria um desafio bem difícil de ser cumprido. Mas, para nadadores profissionais, assim como a gente ali no clube (Grêmio Náutico União), é bem possível — explica Klaser, que é técnico da equipe profissional de nadadores do clube.
Além das correntes, ele cita a temperatura da água como uma das condições. Segundo Klaser, a do Guaíba "normalmente é boa de se nadar". A poluição, porém, é um ponto que acredita ser necessário levar em conta.
🪂 Pular de paraquedas do Morro Santana?

O presidente da Federação Gaúcha de Paraquedismo, Armando Pettinelli, explica que esse poderia ser o caso de uma outra modalidade, o BASE jump. Nesse esporte, os saltos são feitos a partir de pontos fixos. O "BASE" do nome é uma sigla para building (prédio), antenna (antena), span (ponte) e earth formation (penhasco). O paraquedismo, por sua vez, é feito com saltos a partir de avião, helicóptero ou balão.
Considerado um dos pioneiros do BASE jump no Brasil, Luiz Henrique Tapajós, o Sabiá, 54 anos, tem dúvidas se a aventura do Morro Santana seria possível. Ele explica que, para o BASE jump, é necessário que exista uma parede vertical de ao menos 60 metros, sem degraus.
Conforme dados compilados pelo arquiteto e urbanista Mateus Grandini, para trabalho final na graduação, a região da pedreira do Morro Santana tem cerca de 80 metros de altura entre o topo e um "degrau" existente no meio da estrutura. Sabiá pontua que, ainda assim, seria necessário analisar a região com mais detalhes e atentar para as condições meteorológicas.
Em Porto Alegre, o esportista já topou um outro desafio: pular da chaminé da Usina do Gasômetro. O feito foi realizado em outubro de 1995, há 30 anos.
— Foi maravilhoso. Era o início do esporte no Brasil. Foram os primeiros saltos de BASE jump da modalidade no país — conta hoje Sabiá.
O esportista cita três lugares dos quais gostaria de um dia saltar na capital gaúcha: o prédio do CAFF e as pontes do Guaíba. O que falta, então, para o desafio se realizar? Sabiá responde: a logística e a dedicação para fazer acontecer.
🛞Descer lombas da cidade de carrinho de rolimã?

Para o praticante Elder Cristiano Schneider, 37 anos, as descidas sugeridas — da Rua Ramiro Barcelos, da Avenida Coronel Lucas de Oliveira e das pontes do Guaíba — seriam possíveis.
Do gosto por andar de carrinho de rolimã com os filhos, o piscineiro Elder fez nascer o Spartanos Rolimã Clube, em Campo Bom, no Vale do Sinos, em 2020. O grupo reúne apaixonados pelos carrinhos e realiza eventos da prática na região.
Elder explica que, para uma ação do tipo ocorrer, é preciso ter apoio do poder público para disponibilizar, por exemplo, uma ambulância, no caso de alguém se machucar, e também para o trânsito ser desviado. Recursos também são necessários.
Ainda segundo o praticante, a inclinação das lombas não atrapalha, pois os carrinhos são movidos a gravidade.
— Atrapalha, no caso, se tiver criança muito novinha, que pode cair, se machucar e tal. Mas o pessoal que anda de carrinho em si vai todo equipado. É que nem andar de skate, tu não participa da prova de skate, se tu não tiver os equipamentos básicos ali. Para nós, é a mesma coisa. A gente preza muito o calçado fechado, a cotoveleira, o capacete, principalmente — completa.
Em relação aos cuidados, ele ainda destaca que o primeiro é "brincar com consciência", já que é uma atividade que envolve velocidade.
Elder explica que, nas competições que realizam, os carrinhos são divididos em duas modalidades: os de rolimã são aqueles com roda de aço e os de lomba são os com rodinhas de skate, roller ou até de carrinho de supermercado.
🏙️ Atravessar prédios ou os estádios em uma corda?
Há uma modalidade dentro do slackline chamada highline. Em resumo, andar sobre uma fita nas alturas. A prática exige uso de equipamentos de segurança e até mesmo técnicas de escalada.
O geólogo Michael Noal Monteiro Ribeiro, 32 anos, praticante de highline, afirma que seria possível fazer a modalidade em prédios como o do Ministério Público do Estado, na Capital, assim como no Beira-Rio ou na Arena. Inclusive, ele próprio já fez no estádio do Colorado, em 2015, quando atravessou parte da estrutura. O sonho ainda é cruzar de goleira a goleira.
Para tornar as ideias possíveis, além de autorização, Michael menciona a necessidade de realizar visita técnica. Ele também acrescenta:
— A condição maior é ter uma equipe bem integrada e unida, que domina bem as técnicas para o highline ser seguro. E, claro, ter um bom monitoramento da previsão de tempo, porque, com raio, é perigoso, com muito vento, é perigoso. As mudanças de tempo são perigosas. A fita pode entrar em ressonância e pode estourar. É o fator climático, a técnica envolvida e os equipamentos. Tem que ter equipamentos de ponta.
Na capital gaúcha, Michael também já fez highline na pedreira do Morro Santana. Já os prédios próximos ao Barra Shopping Sul e alguns no Centro Histórico, perto da prefeitura, estão em seus "sonhos" de lugares onde ainda gostaria de praticar a modalidade.
Os equilibristas alemães
Quem já fez algo parecido no centro da cidade foi um grupo alemão de acrobatas, o Zugspitz Artisten. A atividade mais se aproximava da arte circense e foi sensação nos anos 1950, na Capital.
Em cabos de aço a mais de 50 metros de altura, os equilibristas ficavam de pé, montados em bicicleta ou ainda, andavam de moto. Não havia cintos de segurança nem redes de proteção.
Há registros de que o grupo se apresentou em Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande e Caxias do Sul. Na Capital, os cabos de aço foram pendurados entre o edifício União, na Avenida Borges de Medeiros, e o prédio recém-construído da prefeitura, na Rua Siqueira Campos.


