
Mais de um ano após a enchente que atingiu Porto Alegre, o cenário nos trechos 1 e 3 da orla do Guaíba ainda tem marcas da cheia, espaços desocupados, tapumes, faixas de área interditadas e poucas intervenções concluídas. Segundo a prefeitura, a obra de recuperação segue o cronograma, mas para quem passa pelo local, a sensação é de que os trabalhos avançam muito lentamente.
As obras de recuperação na Orla têm frentes de trabalho concentradas em Ipanema, no Lami e nos trechos 3 e 1, seguindo essa ordem de prioridade definida pela prefeitura. As intervenções na área onde ficam a pista de skate e as quadras esportivas começaram em novembro de 2024, com esforço para reconstruir os banheiros e os espaços que o município aluga para bares.
No domingo (17), a reportagem de Zero Hora esteve no trecho 3 e encontrou diferentes estágios da reforma. Os espaços para banheiros e vestiários já têm paredes de concreto erguidas, mas seguem inacabados. Em uma das salas comerciais, foi possível observar vidros recém-instalados, azulejos e aparelhos de ar-condicionado nas áreas internas. Em outros pontos, no entanto, faixas laranjas restringem o acesso e materiais de construção espalhados pelo chão dificultam a circulação.
— Estamos aqui quase todos os domingos de manhã neste trecho, no máximo passando a pista de skate. Tem pouca estrutura para passear. Eu passo aqui diariamente, trabalho no Menino Deus, e a impressão é de que tem pouca evolução nas obras, não está andando — pontuou o corretor de imóveis Edinei Machado Cavalheiro, 47 anos, que passeava com a família.
Segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre (Smamus), as intervenções estão 88% executadas e devem ser concluídas até setembro, cinco meses após o primeiro prazo estipulado pela prefeitura. O investimento é de R$ 5,2 milhões, vindo de uma contrapartida da construtora Cyrela Goldsztein.

Cavalheiro, que mora em Porto Alegre desde os anos 1980, e a esposa, a assessora jurídica Sílvia Alcino, 41, também notaram que a área está suja. Um pouco antes da pista de skate, era possível ver no domingo uma caçamba de lixo cheia e uma montanha de galhos de árvores. O responsável pela Smamus, Germano Bremm, explica que os resíduos fazem parte do processo de reformas:
— Recentemente, tivemos novamente uma enchente, veio bastante galhos. Então tem um processo de retirada daqueles resíduos que vieram dessa última, de junho. E, claro, estando em obra, essa movimentação de caminhões na estrutura, certamente não vai ficar com aquele refinamento que gostaríamos, como o cartão postal da cidade. Ao longo desse período, vão ter alguns transtornos, mas lá na frente vai ter resultado positivo.

Insegurança e falta de opções no trecho 1
As obras de recuperação dos estragos causados pela enchente no trecho 1 foram divididas em três etapas e começaram no dia 22 de maio de 2025. A área, que foi completamente revitalizada em 2018, está sem banheiros e bares desde maio do ano passado. No domingo, os espaços ainda aparentavam estar desocupados, sem materiais de construção ou entulho nas proximidades.
O que os frequentadores mais sentem falta é da estrutura dos banheiros. A funcionária pública Marisa de Fátima Rodrigues Martellet, 63, que caminhava com o companheiro, o também servidor público Luiz Santos da Silva, 58, e com dois cachorros, relata que as obras afetaram os passeios.
— Estamos tomando chimarrão, então o banheiro faz falta. Os bares também, porque nós estávamos acostumados a vir à tarde, tomar um chopezinho e conversar. Era muito bom e faz falta. E sentimos um pouco da limpeza, também. Viemos com os animais e eles fazem cocô e não temos onde colocar. Antes da enchente tinha bem mais lixeiras por aqui — relata.
Como o casal frequenta a Orla todos os finais de semana, eles afirmam que notam pequenos avanços nas obras. O secretário Bremm defende que 35% das intervenções projetadas para o trecho já foram realizadas. A previsão é de que as obras sejam finalizadas no primeiro semestre de 2026.
A demolição dos bares, vestiários e lojas faz parte da primeira fase. Orçada em R$ 4 milhões, a segunda etapa deve começar em setembro, com a reconstrução dos espaços dos bares e dos banheiros. Para a assistente social Mariana Moura, 34, as obras estão demorando e as estruturas fazem falta:
— Além de não estar pronto, é um ambiente hostilizado, que não é seguro quando começa a anoitecer. Aqueles tapumes, as obras e os bares abandonados se tornaram um ambiente no qual é propício acontecer outras coisas. E os restaurantes fazem falta, estou aqui com a minha família e estamos nos organizando para ver onde vamos comer, porque aqui não tem nada.
Para o secretário do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, a construção de um novo espaço para a Guarda Municipal, parte da primeira fase, foi priorizado para garantir a segurança no trecho:
— O container da Guarda Municipal era uma demanda que nós, dentro da ordem das prioridades, colocamos em primeiro, justamente para que eles estejam sempre presentes ali, possam acompanhar a evolução das situações na Orla.
Terceira fase
Por fim, a terceira parte da reforma prevê a construção de estruturas para reforçar a proteção contra enchentes, como gaiolas metálicas preenchidas com pedras nas áreas de deques de madeira. Taludes também serão recuperados e reforçados.

Deques de madeira e metálicos também passarão por processo completo de reforma, com limpeza, substituição de peças danificadas, tratamento e pintura, assim como os postes de iluminação ao longo do trecho. No domingo, as áreas estavam interditadas.


