Pedalar na ciclovia da Avenida Ipiranga requer atenção redobrada, cuidado extra e paciência. Obras ao longo da via, falta de sinalização e buracos na pista atrapalham os ciclistas.
Por esse motivo, a reportagem de Zero Hora decidiu verificar a situação da via de ponta a ponta no sentido Centro-bairro, desde a orla do Guaíba até a Avenida Antônio de Carvalho. Ao longo do percurso, foi possível compreender melhor os problemas que os ciclistas enfrentam diariamente.
A reforma não tem previsão de estar 100% liberada aos usuários antes do primeiro trimestre de 2026, conforme a prefeitura de Porto Alegre.
A pedalada
Os primeiros metros a partir da Orla já revelam adversidades: a sinalização é antiga, o asfalto apresenta rachaduras e buracos que obrigam a reduzir a velocidade. Logo depois, no cruzamento com a Avenida Erico Verissimo, a ciclovia está interrompida por uma obra parada. O desvio precisa ser feito pelo lado contrário.
Na altura do bairro Santana, outro trecho interditado, desta vez por trabalhos de recuperação do talude. Nesse momento, o ciclista é forçado a improvisar. É preciso atravessar por dentro da área de obras até chegar à Rua Ramiro Barcelos, onde o cenário se repete: um canteiro de obras, bloqueio total e nenhuma orientação. A solução é dar a volta, cruzar no meio dos carros e dividir a calçada com pedestres.
Na esquina com a Rua Silva Só, um desvio mal sinalizado confunde os usuários. Sem saber o ponto exato para retornar à ciclovia, a pedalada seguiu por calçadas até perceber que o acesso estava novamente liberado. Para retornar, foi preciso atravessar a rua.
Poucos metros adiante, já no bairro Santa Cecília, galhos de árvores recém-podadas e outros obstáculos ocupavam a pista, exigindo atenção redobrada. De lá até a Terceira Perimetral, é possível pedalar com um pouco mais de tranquilidade.
Já nas proximidades da PUCRS, um novo desvio para obras obriga o ciclista a seguir pela calçada sem condições adequadas para pedalar, com muitos desníveis e a necessidade de contornar uma parada de ônibus.
A partir desse ponto, o caminho se mantém livre, mas ainda sem barreiras de proteção em trechos longos até o final dos cerca de nove quilômetros.
Previsões do Dmae
Todas as obras no talude e, por consequência, na ciclovia, são de responsabilidade do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae). Atualmente, há três delas em andamento e outras seis que ainda não começaram.
Em relação às intervenções atuais, duas delas estão em processo final e devem ser entregues dentro do próximo mês, conforme o Dmae. São os trechos próximos das ruas São Luís e São Manoel. Já a obra próxima da Rua Silva Só somente ficará pronta no primeiro semestre de 2026, dependendo das condições climáticas.
Os demais seis pontos que ainda não receberam reforma devem estar liberados ao longo de 2026, mas não possuem prazos exatos de início ou fim. As execuções dependem de questões burocráticas, como ordem de início dos trabalhos, e de um nível adequado do Dilúvio.
Também ao longo da pedalada, a reportagem observou que mesmo as obras em andamento pareciam paradas. Questionado, o Dmae informou que as recuperações que já estavam ocorrendo “foram interrompidas temporariamente pelas últimas chuvas ocorridas e pelo alto volume de água do Arroio Dilúvio e mesmo do Guaíba”. Mesmo assim, manteve o prazo de entrega para o final de setembro, caso as condições climáticas ajudem.
Reconstrução do talude do Arroio Dilúvio:
Obras em andamento
- Ipiranga esquina com a Rua São Manoel - previsão de entrega: setembro de 2025
- Próximo à Rua São Luís, junto ao Planetário - previsão de entrega: setembro de 2025
- Em frente ao antigo Ginásio da Brigada Militar, próximo à Rua Silva Só - previsão de entrega: primeiro trimestre de 2026
Obras para serem iniciadas
- Próximo à Rua Vicente da Fontoura;
- Próximo à Rua Santana;
- Próximo à Rua Lício Cavalheiro;
- Próximo à Rua Vicente da Fontoura;
PUCRS, próximo à parada de ônibus do campus (sentido Centro-bairro); - PUCRS, próximo à Rua Prof. Cristiano Fischer (sentido Centro-bairro).
Previsão de que todas sejam entregues ao longo de 2026.
Custos:
- Trecho Esquina da Av. Ipiranga entre as ruas Silva Só e São Manoel: R$ 2,2 milhões
- Trechos em frente ao CREA e esquina Rua Silva Só: R$ 4,3 milhões
- Trechos no quarteirão da PUC (quatro pontos): R$ 2,6 milhões
Ainda há outros três trechos com projetos prontos aguardando orçamento para a licitação.
O que diz a Prefeitura de Porto Alegre e a EPTC
A Secretaria de Mobilidade urbana (SMMU) reconhece a necessidade de manutenção, não só na ciclovia da Ipiranga mas também de outras infraestruturas cicloviárias da cidade, e já trabalha no levantamento destes pontos e está empenhada em buscar recursos para um programa maior de manutenção da rede cicloviária de Porto Alegre.
Obras no trecho da Santana
EPTC diz que irá verificar a sinalização, mas o bloqueio inicia na Rua Santana e o ciclista está orientado a circular pelo passeio compartilhado da Ipiranga até a ponte com a Rua Santa Cecília.
Ramiro/São Manoel
Conforme a EPTC, o bloqueio tem início na Santana com a indicação de desvio pelo passeio, isto é, o ciclista não deveria circular por esse trecho por estar bloqueado.
Trecho da Silva Só
Devido ao bloqueio não deveria ser possível o ciclista acessar a ciclovia da Ipiranga nesse ponto. Vamos reavaliar o bloqueio, reforçar a sinalização e melhorar o que for possível.
Proteções na lateral da ciclovia
Guarda-corpos são responsabilidade da EPTC.
Avaliações de ciclistas
Ao longo de todo o percurso, a reportagem cruzou por apenas cinco ciclistas que estavam efetivamente utilizando a ciclovia. As dificuldades no trajeto têm afastado usuários, como é o caso da professora aposentada Mônica Meira, 64 anos.
— É uma luta ser ciclista em Porto Alegre. Se você for olhar de uma forma geral, as ciclovias e as ciclofaixas são péssimas, seja porque terminam em nada ou porque tem buracos ou bueiros no meio do caminho. Eu mesma, às vezes, prefiro sair de carro por falta de condições em ciclovias — reclama.
Há, porém, aqueles que não desistem, como o funcionário público Fernando Wilges, 53 anos.
— Eu saio para o trabalho todos os dias por volta das 8h e volto entre 16h30min e 17h30min. Pedalo desde o início, perto da Antônio de Carvalho, até o Shopping Praia de Belas. A propósito, levo 30 minutos no trajeto. De carro, daria de 35 a 50 minutos, dependendo do dia. Quando estou na ciclovia, tenho que sair em algumas partes (por causa das obras). Nesse trajeto, eu já verifico motoristas me xingando, buzinando — relata.




