
Conhecida como Alto da Bronze, a região onde fica a Praça General Osório, no Centro Histórico de Porto Alegre, está vinculada a uma personagem real do passado da cidade da qual pouco se sabe com segurança. Trata-se de uma mulher chamada Felizarda, que viveu nas imediações do local no século 19.
A menção mais antiga a seu respeito é do cronista Antônio Álvares Pereira Coruja no livro Antigualhas — Reminiscências de Porto Alegre. Contemporâneo da misteriosa moradora da região, o autor a descreveu como "uma mulher que para falar pelos cotovelos não precisava arregaçar as mangas, porque se apresentava de saia e camisa, sendo por isso a indivídua mais notável do bairro".
O cronista do passado deu indicativos de como era vista pela sociedade de então: "Por ditos e palavras, fatos e feitos, era conhecida pelo nome de não sei quê de bronze, mas por conveniência de pessoas sérias a chamavam simplesmente a Bronze".
Coruja sugere que Felizarda seria uma prostituta. Não há referências sobre o sobrenome dela, a idade, as características físicas e de onde teria vindo antes de viver nessa região da cidade.
Também é desconhecido o tempo em que permaneceu na Capital. O cronista menciona que a viu em 1827, por acaso, em um sobrado no Rio de Janeiro, onde teria ido morar.
Felizarda não deve ser confundida com a prisioneira do Castelinho do Alto da Bronze, outra história conhecida de Porto Alegre. Felizarda é uma figura mais antiga, que se mistura com a região.
Segundo o historiador Sérgio da Costa Franco, em Porto Alegre — Guia Histórico, o nome Alto da Bronze aparece em atas da Câmara Municipal de 1833 a 1866, quando a praça ali implantada recebeu a atual denominação. Ainda houve outras designações, como Alto do Manoel Caetano, Alto do Senhor dos Passos e Alto da Conceição.
Uma espécie de vidente
O historiador Charles Monteiro, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e autor do livro Breve História de Porto Alegre, cita como uma das referências sobre Felizarda a obra Os Sete Pecados da Capital, da historiadora Sandra Jatahy Pesavento.
— A casinha de Felizarda ficava nessa região da cidade que ainda não tinha passado pela remodelação urbana que aconteceria no início do século 20. Ela recebia muitas pessoas e inclusive políticos. Era muito conhecida, tinha muitos atributos. Isso aparece um pouco nos jornais e nos cronistas — contextualiza Monteiro.

O professor afirma que Felizarda também teria sido uma espécie de vidente da época:
— Ela atendia pessoas, lia a sorte e sabe-se que até alguns deputados se aconselhavam com ela. E ela fazia seus feitiços para ajudar essas pessoas. Tem quase uma mitologia a seu redor. Era uma mulher que, seja por seus atributos sexuais, seja por sua capacidade de prever as coisas, infiltrou-se na teia política, conseguiu certo grau de influência e ficou famosa na época. Seu nome passou a estar na boca das pessoas que a invejavam também por sua proximidade com o poder.
Para o historiador, Felizarda teria vindo das classes populares, destacando-se como uma espécie de líder comunitária da época. O professor diz que provavelmente ela tivesse a pele negra e, como prestava serviços que não podiam aparecer para a sociedade de então — a prostituição —, sua história foi praticamente apagada dos registros oficiais.
Parece um anedotário, mas ela era uma personagem real, como tantos outros vendedores, ambulantes e artistas de rua que foram apagados da história.
CHARLES MONTEIRO
Historiador
"Terrível e temida"
Em Porto Alegre — Crônicas de Minha Cidade, o cronista Ary Veiga Sanhudo escreve que ela seria "uma mulher do povo, procurada por ele e verdadeira pitonisa (mulher que tem o dom de predizer o futuro) da cidadezinha envolvida na sua lábia".
"O seu nome vivia de boca em boca, e boa ou ruim, violenta ou carinhosa, a Bronze às vezes era ouvida como uma benfeitora e outras vezes, porém, fugiam dali como o diabo da cruz", segundo o cronista, que ainda registrou: "Fazia longas sessões de batuque em sua casinha acanhada, que mal comportava os visitantes, despejava despachos nos monturos da Várzea e entregava-se desbragada e ardentemente aos seus preferidos... Era uma mulher terrível e temida".
Entre fatos e mitos
Apesar de tudo que se escreveu sobre Felizarda, o historiador Sérgio da Costa Franco destacou, em A Velha Porto Alegre, o relato de Coruja como o mais digno de fé entre os cronistas do passado.
"A boa verdade é que sobre a Bronze (...) muito pouca coisa se sabe com segurança. A única fonte confiável, a seu respeito, é o depoimento de Coruja em suas crônicas das Antigualhas. Coruja a conheceu (...). Nada (se sabe) de preciso sobre raça. Nem qualquer referência à atividade em 'casa de religião'. E quem a viu no Rio de Janeiro foi certamente o próprio Coruja, que por lá andava no ano mencionado", escreve o historiador.
Estereótipos sobre as mulheres
A professora Natalia Pietra Méndez, do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), observa que no final do século 19 a presença de mulheres no espaço público de Porto Alegre era grande, principalmente aquelas vindas das camadas populares. Isso contrastava com as mulheres da elite, educadas a partir de um ideal vitoriano de pureza, castidade e domesticidade.
— Os registros dos cronistas estão influenciados por essa percepção a respeito do espaço público tomado por mulheres trabalhadoras das mais diversas ocupações. Seria como algo indesejável, ao passo que o ideal de mulher desejável desse período era o da castidade e da domesticidade — explica.
De acordo com a historiadora, os poucos registros sobre Felizarda foram deixados por cronistas homens daquela época, representando uma percepção sobretudo masculina:
— A visão que desenvolveram sobre as mulheres no espaço público são permeadas por uma visão patriarcal, racista e eivada de estereótipos do que se esperava de uma conduta adequada das mulheres desse período.
A historiadora exemplifica que as crônicas descreveram Felizarda como uma mulher "temida", o que não aparece em nenhum registro ou processo judicial.
Em se tratando de uma personagem popular, a imagem de Felizarda vai sendo reconstruída e relida a partir das concepções do tempo de quem está escrevendo.
NATALIA PIETRA MÉNDEZ
Professora do Departamento de História da UFRGS
Natalia contrasta os relatos dos cronistas do passado com a perspectiva oferecida pela caminhada "As mulheres na história e arquitetura de Porto Alegre", realizada em março último, que passou pelo Alto da Bronze.
— No roteiro, estava escrito que a Bronze seria uma mulher bondosa e discreta, que acolhia mulheres vulneráveis. Mais interessante do que saber o que era verdade ou mentira sobre Felizarda é identificar como uma personagem pode ser modificada aos olhos da cidade a partir dessas diferentes percepções — conclui.




