
A Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, é conhecida como a rua mais bonita do mundo. Esse apelido passa de boca em boca e aparece até mesmo ao pesquisar no Google ou questionar o ChatGPT. Apesar da fama, esse não é um título oficial e, sim, fruto de uma história que começou em 2005.
Naquele ano, moradores e admiradores da Rua Gonçalo de Carvalho descobriram que seria construído um edifício-garagem de sete andares junto ao novo teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), na área do Shopping Total. Conforme o grupo conseguia informações sobre a obra, indignava-se: a saída do estacionamento ficaria na Gonçalo de Carvalho. O projeto previa remoção de parte das árvores e colocação de asfalto no lugar dos paralelepípedos.
Moradores e admiradores passaram a alertar que a construção levaria ao aumento no fluxo de veículos e à poluição sonora e ambiental na região. Pouco a pouco, se organizaram e se manifestaram contra o empreendimento.
Foi parar na internet
Uma das formas de divulgar a defesa da rua foi por meio de um blog. À época, Rodrigo Cardia já tinha o costume de usar a ferramenta, que funcionava quase como uma rede social. Hoje servidor público e aos 43 anos, ele conta que o pai, o artista gráfico já falecido Cesar Cardia, decidiu pedir ajuda para criar uma página voltada à mobilização.
— Em uma tarde, sentamos e criamos (o blog) — comenta Rodrigo.
Nascia ali o Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho - Resistir é Preciso: goncalodecarvalho.blogspot.com.

Os integrantes da mobilização formaram também a Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Independência (Amabi). Um dos ex-presidentes da entidade é o arquiteto Marcelo Ruas, 65 anos. Segundo ele, a associação buscava conscientizar moradores, criar uma sensação de identidade, pertencimento e solidariedade, assim como pensar na preservação do patrimônio da rua como um todo, e não só das árvores.
Rua virou patrimônio
Em junho de 2006, o empreendimento foi cancelado. Naquele mesmo mês, a Rua Gonçalo de Carvalho foi decretada Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre — a primeira rua da Capital a receber o título.
O decreto data de 2 de junho de 2006 e determina que a rua não pode ser asfaltada. O documento também reforça a responsabilidade da prefeitura em realizar o manejo permanente na vegetação.
De acordo com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, a via se tornou o primeiro túnel verde oficial do município. A Gonçalo aparece na lista do decreto de 5 de junho de 2012, sobre os túneis verdes da Capital.
Como destaca Rodrigo Cardia, apoiador do movimento em prol da Gonçalo, a preservação da rua foi a principal conquista de quem se mobilizou. E como gosta de comentar, seu pai contribuiu para essa história.
— Me sinto orgulhoso, muito orgulhoso porque a rua ganhou uma fama que não teria. Seria só mais uma rua com árvores — pontua.
De onde veio a fama
Na primeira década dos anos 2000, textos e fotos da rua se espalharam pela internet. De alguma forma que não se lembra, um professor português de Biologia teve acesso a um desses conteúdos. Pedro Nuno Teixeira Santos, hoje aos 52 anos e morador de Braga, no norte de Portugal, lembra que se encantou pelo túnel verde e pela história que aquele conjunto de árvores guardava.
Inspirado, decidiu fazer uma postagem no blog que mantinha, A Sombra Verde. Como título: "A rua mais bonita do mundo". A publicação foi feita em 4 de março de 2008 e tem menos de 100 palavras. O novo apelido viralizou.
— Túneis de árvores, uns mais altos, uns mais antigos, outros mais recentes, existem um pouco por todo o lado. Mas com essa dimensão de poderem ter sido destruídos, mas terem sido salvos porque houve pessoas que se movimentaram e convenceram as autoridades a poupar essas árvores e a não cortá-las, isso é que não é fácil de encontrar. E, portanto, é isso que faz, a meu ver, da Rua Gonçalo de Carvalho especial — destaca ele ainda hoje.
Pedro reforça a exceção desse feito ao explicar que, embora reconheçam a importância das árvores, as pessoas costumam ter mais reclamações: seja porque as árvores bloqueiam a visão, ou porque atraem pássaros que sujam os carros, ou ainda porque as folhas entopem as sarjetas por onde a água deveria escorrer.
Sem a intenção de que a postagem fizesse a rua ter a fama que tem desde então, o professor pontua que patrimônio é algo que "nunca está totalmente protegido", sobretudo se não for conhecido.
— Só protegemos aquilo que conhecemos, que amamos. E, portanto, se essa postagem ajudou de alguma maneira a tornar a rua mais conhecida e a dar visibilidade à rua, a Porto Alegre e a luta dos seus moradores, obviamente que fico orgulhoso por isso, não propriamente pela visibilidade que possa ter dado ao blog — acrescenta.
O português não conhece a rua ao vivo e a cores, mas tem a certeza de que a Gonçalo estará no seu roteiro se vier ao Brasil.
Anos depois da postagem, em 2011, Zero Hora contava que, de tempos em tempos, links e referências à rua viralizavam. Em julho daquele ano, o blog do movimento Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho recebeu mais de 25 mil acessos de países como Ucrânia, Lituânia, Belarus e Rússia. Meses depois, a maior parte dos cerca de mil apoiadores do movimento era da Europa.
Antes e agora
— Na Copa de 2014, era impressionante o que tinha de turista do mundo inteiro ali, visitando a rua, pedia informações e tirava fotografia — lembra o economista e professor Paulo Renato Rodrigues, de 73 anos, fundador da Associação dos Moradores da Gonçalo de Carvalho (Amogonçalo).
Paulo morou por 30 anos na Gonçalo. Ele se mudou em fevereiro deste ano, por uma questão familiar. O economista explica que, do andar onde residia em um dos prédios, conseguia ver o meio da copa das árvores. Para ele, morar na rua era "um deleite". O túnel verde visto de cima é um "espetáculo da natureza", como descreve.
Toda a beleza, porém, não esconde um obstáculo que era notado por Paulo:
— O grande problema que eu vejo é a falta de manutenção. São árvores centenárias e a prefeitura não cuida, não dá devida atenção. Inclusive, esses problemas de luz (já existentes no passado) estão voltando agora. O que aconteceu? Os galhos foram crescendo, estão cada vez maiores. Então, quando cai um galho grande, é um estrago enorme. Não tem o que resista.
A questão também é levantada por Marcelo Ruas, que morou de 2002 a 2019 na Gonçalo de Carvalho. Ele foi um dos primeiros presidentes da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Independência (Amabi) e conta que foram feitas várias reuniões com apoio do Ministério Público, junto a outras associações e à Secretaria do Meio Ambiente do município, em busca de soluções para problemas que encontravam. Entre as solicitações, estavam a poda das árvores e a substituição das mais velhas por novas da mesma espécie, assim como um melhor uso do potencial turístico da rua.
— A Gonçalo de Carvalho, pelas árvores e por tudo, exige cuidados — resume. — Se não tem cuidados, começa a ter problemas.
Outro problema citado por Marcelo é a insegurança, devido a assaltos na região, como mostrou Zero Hora em 2018.
O que diz a prefeitura
À reportagem, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade informa que fez um inventário arbóreo total da via e que os dados estão sendo avaliados por técnicos em estudo específico sobre os túneis verdes. Após a conclusão, segundo a pasta, as informações devem ser disponibilizadas à população. A partir dos resultados, a secretaria deve tomar decisões, seja pela troca de fiação, replantio de árvores ou manejo.
A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, responsável pela poda na rua, afirma que, em áreas declaradas túneis verdes, como é o caso, "o manejo arbóreo é realizado somente no caso de oferecer risco à população". Diz, ainda, que é feito apenas o manejo preventivo e atendendo pedidos via telefone 156, "quando apontado através de laudo técnico respeitando à legislação".
No caso de podas em contato com rede de alta tensão, a responsável é a concessionária de energia elétrica. Questionada, a CEEE Equatorial informa que "realiza inspeções periódicas para identificar árvores próximas ou em contato com a rede de distribuição". Sobre a Gonçalo, ressalta que "há árvores de grande porte, sendo que a maioria se projeta sobre a rede, embora sem contato direto". A companhia acrescenta também que, na região, a rede de distribuição utiliza cabos protegidos em média e em baixa tensão, "o que ajuda a reduzir os riscos de interrupções causadas pelo contato direto com a vegetação". Reforça também que a avaliação do risco de queda não é atribuição da distribuidora.
Que árvores são essas?

- De acordo com a coordenação de arborização urbana da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, a Rua Gonçalo de Carvalho possui 156 espécimes vegetais, com predomínio das tipuanas (98 espécimes)
- As tipuanas são árvores de grande porte, com altura média superior a 12 metros. A floração ocorre no inverno e na primavera e a frutificação acontece de janeiro a abril
- Essas árvores teriam sido plantadas no final da década de 1930 por trabalhadores de origem alemã empregados em uma antiga cervejaria local, mas não há documentos na secretaria que comprovem a história
Afinal, qual a rua mais bonita do mundo oficialmente?
Um dos rankings existentes com esse enfoque foi feito pela revista especializada Architectural Digest, dos Estados Unidos. A lista é de 2024 e traz as 71 ruas mais bonitas do mundo, embora nem sempre informe o logradouro específico, mas, sim, a cidade.
O top 5 é formado por:
- Centro histórico de Colmar, na França
- Brunngasse, em Brienz, na Suíça
- Setenil de las Bodegas, na Espanha
- Ruas de Águeda, em Portugal
- Washington Street, no Brooklyn, em Nova York, nos Estados Unidos
Entre as cidades brasileiras, aparece Recife, que ocupa o sexto lugar, principalmente devido à Rua do Bom Jesus. A outra brasileira citada é Ouro Preto, em 39ª posição, especialmente a Rua Conde de Bobadela.
