
Comuns em empreendimentos imobiliários de alto padrão, os geradores de energia têm se tornado uma exigência entre pessoas que buscam um imóvel para comprar em Porto Alegre.
Impulsionada por eventos climáticos e pelas falhas no fornecimento de energia elétrica, a demanda pelos equipamentos tornou-se um diferencial competitivo — e, em muitos casos, decisivo — no mercado da construção civil da Capital.
A prática, no entanto, não é nova. Segundo o Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), começou há cerca de 15 anos. Na época, os geradores alimentavam apenas áreas comuns, mas a situação mudou após a enchente de 2024.
— Qualquer chuva que dava, voava alguma coisa para a rede e faltava luz. Era um incômodo. Depois da enchente, acabou tendo um movimento maior ainda de insegurança de falta de luz. Aí não bastava mais ser somente para as áreas comuns. Tinha que ter para os apartamentos — diz o presidente do Sinduscon-RS, Claudio Teitelbaum, salientando que o investimento vale a pena:
— A diferença de preço de um gerador que abastece apenas áreas comuns para o gerador que alimenta as áreas privativas não é tão grande, em troca do benefício que ele traz.

Entre as vantagens está a comodidade de poder continuar as atividades da rotina mesmo quando o serviço não está disponível na rede.
— Se faltar energia da concessionária, a pessoa tem o elevador funcionando, a academia funcionando, consegue sair de casa com o carro, na casa dela tem iluminação, mesmo que em um ou dois pontos. A pessoa não fica no escuro. Tudo subiu um nível — diz Marcelo Guedes, vice-presidente do Sinduscon-RS.
Quem está buscando
A economista Ana Machado comprou recentemente um apartamento neste modelo. Ela buscava um imóvel cujo edifício tivesse gerador para as áreas comuns, pois quem morará no condomínio será sua mãe, de 78 anos.
— Desde a enchente isso ficou mais relevante. Minha preocupação é que, em emergências, ela (mãe) tenha segurança para entrar e sair da casa dela. Na enchente, colocamos ela em um apartamento alugado com gerador, e ela estava lá até comprarmos algo nosso — diz Ana.
Depois da enchente, ela e o marido também se mudaram para um apartamento onde tivesse o equipamento nas áreas comuns.
— Naquela época ficamos muito tempo sem luz. Depois que voltou, eram muitas oscilações. Uma vez a luz faltou quando estávamos fora do prédio e ficamos do lado de fora, pois o portão não podia ser aberto — conta.
Quais empreendimentos possuem geradores
A corretora Andreia Severo afirma que há quatro anos começou a provocar as construtoras com quem trabalha para instalarem geradores em seus edifícios. De lá para cá, ela aponta que a maioria adotou a medida.
— Tem sido o novo ouro dos empreendimentos. Os compradores, com todas situações que tem ocorrido, já chegam procurando por isso — diz a corretora.
No entanto, ela pondera que nem todas instalam o gerador que abastece integralmente as áreas do prédio.
— Na maioria das vezes é para uma ou duas tomadas, que o cliente usa para abastecer a geladeira e carregar o celular.
A incorporadora Woss afirma que os apartamentos com "gerador full”, que garante funcionamento completo dos apartamentos, incluindo aparelhos de alto consumo, como ar-condicionado, são vendidos por valores que partem de R$ 6 milhões e podem chegar a R$ 10 milhões.
Nos empreendimentos recentes, todos já incluem geradores para abastecimento das áreas condominiais, como portões e elevadores. É o caso de prédios como Alameda Moinhos e Barão 428, no bairro Moinhos de Vento. Outros, ainda em fase de lançamento, como o Soneto, no bairro Menino Deus, e o Marquês, também no Moinhos, foram atualizados durante o desenvolvimento para incluir o sistema.
— Para muitos clientes, ter um gerador full é um deal-breaker (fator decisivo na hora da compra). No altíssimo padrão, com tickets muito altos, é questão de comprar ou não. Muitos clientes não toleram menos do que isso (um gerador full) — afirma Daniel Goldsztein, sócio da incorporadora Woss.
A Melnick, que atua em diferentes faixas do mercado, optou por não divulgar os preços, mas confirma que o recurso ainda tem maior presença em empreendimentos com ticket médio mais elevado.
Desde 2020, a empresa já construiu 22 edifícios com geradores em Porto Alegre, sendo quatro com cobertura total.
— Nós temos o hábito, há bastante tempo, de fazer a instalação de geradores nos empreendimentos. Mas isso acabou ganhando uma intensidade maior com os recorrentes temporais e falta de energia. O equipamento passou a ser percebido como um valor agregado por parte dos clientes — afirma Guedes, também vice-presidente de Operações da Melnick.

A construtora e incorporadora Cyrela Goldztein trabalha com geradores em seus edifícios desde 2012. Porém, instalava o equipamento apenas em edifícios com apartamentos de luxo — com unidades acima de R$ 1,5 milhão.
Desde a enchente, começou a instalar também em empreendimentos que ela considera de médio padrão (com apartamentos de R$ 800 mil a R$ 1,5 milhão). Por outro lado, seus edifícios de luxo passaram a vir equipados com geradores que abastecem também os apartamentos, mas apenas lâmpadas e algumas tomadas.
— É uma demanda dos próprios moradores. Vem em feedbacks que vamos recebendo sobre o que é mais importante de ter no condomínio. Imagina subir 19 andares de escada em um dia que falta luz? É um incomodo muito grande — indaga o diretor de Incorporação da Cyrela, Luiz Paludo.
Desde que começou a adotar a prática, a construtora já ergueu cerca de 60 empreendimentos com geradores. Ao menos outros seis que estão em obra virão com a tecnologia.
Outra construtora que vem instalando geradores em seus prédios é a UMA Incorporadora. Dos oito empreendimentos erguidos desde a sua criação, seis vêm com gerador full.
— Os dois primeiros prédios de alto padrão que fizemos tinham geradores apenas para áreas comuns. Depois, fruto de quedas de luz com muita frequência, passamos a colocar geradores para a totalidade em nossos empreendimentos — conta o sócio da UMA Antonio Ulrich.
O empresário, inclusive, mora com sua família no primeiro edifício construído pela UMA.
— Sempre que cai luz na região, minha mulher me cobra por que não coloquei gerador pleno (full) no nosso prédio lá atrás. Só me resta ouvir — brinca Ulrich.
Alternativa
Para projetos voltados a público de menor poder aquisitivo, uma estratégia alternativa tem sido adotada por algumas construtoras, como a Melnick: a instalação de infraestrutura básica para a futura colocação de geradores nas unidades.
A chamada “espera por gerador” reduz o custo inicial e permite que, se houver demanda, os moradores possam investir na instalação deste "upgrade" futuramente.

