A proposta de revisão do Plano Diretor de Porto Alegre foi apresentada publicamente pela prefeitura no início de julho. O documento funciona como guia de princípios para o desenvolvimento da cidade, orientando, por exemplo, regras para construções em declives.
Zero Hora conseguiu um levantamento exclusivo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade da Capital para saber quais as ruas mais íngremes da cidade (confira abaixo).
A lista leva em conta trechos a partir de 100 metros, que podem aparecer, inclusive, na mesma rua. Coronel Aparício Borges (11), Cascata (seis) e Vila São José (cinco) são os três bairros com trechos mais íngremes.
A rua que lidera o ranking é a Daniel Job, no Cascata, com uma declividade de 30,18% — em graus, 16,8°.
Percepção enganosa
Diversas vias da cidade conhecidas pela forte inclinação, como a Avenida Coronel Lucas de Oliveira, na região central, não chegam a estar entre as mais íngremes. No ponto mais extremo, essa via tem 12,82% de declividade (ou seja, a inclinação da superfície em relação à horizontal). Apesar disso, para quem circula pela avenida, a percepção pode ser diferente.

O desnível pode ajudar a explicar o motivo desse engano. A suspeita é levantada pelo físico e professor Fernando Lang da Silveira, integrante do Centro de Referência para o Ensino da Física, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
— O que acontece quando você chega ali na parte debaixo da Lucas de Oliveira? O que você vê é o desnível: tem um baita desnível na sua frente, mas você não tem ideia de quanto tem que andar para passar por esse desnível. Você vai passar por esse desnível ao longo de muitas quadras e isso acaba dando uma inclinação pequena. Mas olhando uma rampa extensa de baixo, você não tem ideia sobre isso, só do desnível e o desnível te impressiona — explica.
Como medir a partir de fotos
De forma mais rigorosa e detalhada, a medição da declividade das ruas pode ser feita com uso de topografia, por profissionais, utilizando aparelhos como o inclinômetro ou clinômetro, que mede ângulos de inclinação.
Para os curiosos, uma possibilidade é fazer a mediação a partir de fotografias.
— O que temos que medir é o comprimento de dois lados de um triângulo: um lado que está na vertical e outro que está na horizontal — esclarece o físico e professor.

Com editores de imagem, é possível traçar as retas e medir cada uma em pixels.
Depois, o cálculo requer dividir a altura pelo comprimento horizontal. O resultado multiplicado por cem levará à declividade, que, apresentada em percentual, facilita o entendimento. O especialista dá um exemplo:
— Quando eu digo que é 20%, estou dizendo que, a cada 100 metros que eu ando na horizontal, eu tenho que subir 20 metros.
O que fazer ao se deparar com uma lomba?
A subida pode trazer receio para motoristas. De carro ou de moto, ao se deparar com uma lomba, o que fazer? O especialista em tecnologia automotiva Eduardo Dozol Flores, professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), responde:
— A providência é reduzir a marcha, se você está com um veículo manual. Então, você tem que reduzir a marcha, mesmo que o giro fique alto. Por quê? Porque é nas marchas inferiores que temos aumento de torque e da capacidade de tração do veículo.
Em casos de veículos com menor potência, recomenda-se primeira ou segunda marchas. Veículos com maior torque podem aceitar segunda ou terceira.
Evitar parar no meio da ladeira é outra dica. Afinal, existe uma diferença entre superar uma rua íngreme já com o veículo andando e vencer a subida arrancando no meio do caminho. Uma opção é ficar de olho no trânsito para manejar a velocidade a fim de não parar na inclinação. Mas, segundo Eduardo, se o plano não for bem-sucedido, a alternativa é acionar o freio de mão, engatar a primeira e soltar o freio de mão assim que o veículo arrancar.
O especialista destaca que veículos fabricados de 2010 em diante têm capacidade de superar as rampas existentes nas cidades, independentemente se forem veículos 1.0 ou com outra cilindrada. O que tende a interferir na capacidade são as condições meteorológicas: isto é, em dias de chuva, a pista fica molhada e se torna escorregadia. De outro lado, o veículo também deve estar em boas condições: os pneus não podem estar "carecas".
Principalmente no caso daqueles com menor potência, Eduardo indica evitar a combinação de lotação máxima, carga no porta-malas e ar condicionado ligado. A ideia é não chegar no "limite da máquina".
Em relação a descidas, a orientação é deixar a marcha engatada, por questões de segurança, uma vez que assim é possível utilizar o freio motor.
O que pode estragar?
Se o motorista força demais o veículo em subidas, alguns problemas podem aparecer. De acordo com o especialista, tanto em carros quanto em motos manuais, a embreagem pode estragar:
— Tem pessoas que aceleram demais e soltam muito devagar a embreagem. O carro fica patinando, chega a dar um cheiro estranho. Isso danifica a embreagem.
Outro ponto de atenção é o conjunto de peças chamado diferencial, que serve para compensar diferenças de rotação em curva.
— Quando eu vou arrancar e uma roda fica patinando e a outra fica parada, se eu ficar muito tempo nessa situação, posso vir a estragar esse conjunto de peças dentro do câmbio, chamado diferencial. Então, o que fazer? Para e tenta arrancar de novo — destaca.
Em relação a carros automáticos, o especialista reforça a necessidade de manutenções preventivas com mais frequência em relação aos carros manuais, principalmente para conferir o nível de óleo dentro do câmbio.





