
Uma loja de produtos audiovisuais carrega histórias de superação em mais de sete décadas de atividades em Porto Alegre. Situada na Avenida Farrapos, a Zaniratti já funcionou em outros endereços da cidade e conviveu de perto com personalidades políticas, como o ex-governador Leonel Brizola, e artistas da envergadura do cantor Teixeirinha e do pintor Francisco Brilhante.
A proximidade com o primeiro ocasionou perseguições da ditadura militar (1964-1985), quando uma série de filmes foram recolhidos em 1966. Além disso, amigos dos proprietários foram detidos nos anos de chumbo. Na enchente de maio de 2024, metade da loja foi perdida. Porém, não passa pela cabeça da família fechar as portas.
Atrás do balcão e com mais de meio século de serviços prestados, aos 77 anos, José Antônio Zaniratti — filho do fundador Geraldo Zaniratti, já falecido — cuida dos negócios. O proprietário exibe um olhar sereno e compartilha a sensação de participar há tantos anos de uma empresa familiar consolidada na Capital. O empreendimento começou com o cinema, adaptou-se à fotografia e hoje trabalha especialmente com produtos óticos.
— A gente vem sofrendo alguns problemas de se adequar da área analógica para a digital. Mas vêm entrando outras gerações da família, com outras ideias e conhecimento. Começamos sem a existência da televisão, depois tivemos de adaptar a empresa. Estamos sempre nos adequando a situações mais modernas — diz José Antônio Zaniratti.
Metade da loja foi embora na enchente
Desde o começo dos anos 2000, a loja funciona no atual endereço. Antes, durante mais de uma década, ficava localizada no outro lado da via, onde agora pode-se ver o que restou da Pousada Garoa, incendiada no ano passado.
Entretanto, a Zaniratti abriu em 1953 na Rua dos Andradas, em frente à Praça da Alfândega. Em seguida, estabeleceu-se na Caldas Júnior, onde foi a âncora da cinematografia na via. Após os anos 1970, transferiu-se para a Avenida Mauá, esquina com a Rua da Conceição, na frente da Estação Rodoviária da Capital.
Por estar situado na Avenida Farrapos, um dos pontos mais impactados pela inundação de maio de 2024, o negócio sofreu danos consideráveis. A cheia atingiu 1m50cm dentro do espaço. Os prejuízos não foram colocados no papel. Muitos equipamentos foram descartados e balcões precisaram ser trocados.
— Nessa enchente, metade da empresa foi embora. Trabalhamos com muito material eletrônico, então o que não pegou água ficou danificado pela umidade. Ficamos 30 dias fechados com água dentro e depois, mais 30 dias para limpar. Perdemos metade da empresa — revela o proprietário.
História de resistência

Irmão do proprietário, José Augusto Zaniratti, 66, conhece em detalhes a história da família. No ano 2000, publicou o livro Geraldo Zaniratti - Memórias projetadas na tela de um livro. O próximo será lançado ainda este ano e deverá se chamar Eu preciso contar. Trata-se de uma espécie de sequência da primeira obra, mas abordará mais situações e amizades vividas pelo pai e fundador Geraldo.
Conforme José Augusto, o início da trajetória da Zaniratti tem conexões com um avião que precisou fazer um pouso forçado no Aeroporto Salgado Filho em 1951. O procedimento danificou projetores de cinema vindos na aeronave da Alemanha e dos Estados Unidos, destinados à comercialização pela Casa Bayton.
— O pai era aficionado por cinema. Começou varrendo os cinemas para poder assistir aos filmes quando estava com 12 anos. Ele tinha um amigo que disse: "Olha, tem uns projetores para vender danificados e estão com um preço bom". E, como o pai sonhava alugar filmes para as pessoas verem, resolveu comprar os projetores e começou a buscar filmes para adquirir os direitos de distribuição — compartilha José Augusto.

Aos poucos, vários cineminhas para exibições foram abertos pela Zaniratti em locais como um salão recreativo da Vila Nova; no Passo da Mangueira; no Sarandi; no salão do João Satte — que era sócio de Geraldo nos cinemas —, no salão da Sociedade Baluarte, onde hoje fica a Igreja Cristo Redentor; na Sociedade Erechim, no bairro Nonoai; e na velha igreja de Teresópolis.
Uma característica desse período de cinematografia da Zaniratti foi exibir filmes em salões de cabeleireiros infantis. Um deles ficava no prédio das Lojas Renner, que foi destruído por um incêndio, em 27 de abril de 1976. Na ocasião, 41 pessoas morreram e houve dezenas de feridos. Geraldo recebeu indenização posterior em função dos filmes de sua propriedade terem sido queimados.
Dois momentos distintos
A Zaniratti pode ser dividida em dois momentos. O primeiro concentrava-se na locação de filmes 16 milímetros, pupularizados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – projeções desse tipo foram utilizadas tanto pela Alemanha de Adolf Hitler quanto pelos aliados, serviam como propaganda e eram exibidas em salas de cinema antes do filme principal.
Os filmes de 16 mm foram os primeiros a aparecer em Porto Alegre. Eram de pequena bitola, de onde origina-se seu nome. Era possível projetar em máquinas pequenas com cerca de 20 quilos, de fácil utilização e transporte. E com a possibilidade de ser ligada em baterias. Por essas facilidades, muita gente assistia em casa, salões de clubes e paróquias.
— Na década de 1950, isso estava muito em alta. Só que tinha que encontrar um mercado. E esse mercado eram pessoas com mais posse e poder aquisitivo que tinham o entretenimento dentro de casa. Então, alugava-se filme. A pessoa procurava a Zaniratti e alugava o filme — conta José Augusto.
Segundo o filho do fundador, entre os clientes mais assíduos estava o ex-governador Leonel Brizola, que exibia as películas em 16 mm para os filhos pequenos.
Geraldo teria conhecido Brizola em uma situação curiosa. Durante a exposição de 1935 que comemorava o centenário da Revolução Farroupilha (1835-1845), na Redenção, o então garoto Geraldo cuidava de três estandes no local. Em certa noite, um menino ainda mais novo aproximou-se e perguntou se poderia dormir no estande do Pará, um dos espaços sob os cuidados de Geraldo. Esse menino carregava livros embaixo do braço e trabalhava como ascensorista da Galeria Chaves. E seu nome era Leonel Brizola. Posteriormente, em 1979, depois da anistia aos exilados políticos, os dois se encontraram e lembraram desse encontro quando Brizola era apenas uma criança.
O cantor Teixeirinha, que teve uma expressiva carreira cinematográfica no Rio Grande do Sul, tornou-se chegado na família. Tanto que Geraldo adquiriu os direitos de distribuição de quase todos os filmes do amigo. Além disso, o dono da Zaniratti participou de algumas películas de Teixeirinha como ator coadjuvante, assim como outros integrantes de sua família.
Por sua vez, o pintor Francisco Brilhante trocava quadros de sua autoria por equipamentos e filmes. Por isso, na casa da família Zaniratti, na Vila IAPI, havia nas paredes uma série de obras do artista.
Nos anos 1960, começou o segundo momento do estabelecimento.
— Para viabilizar o cinema tinha que ter o projetor. O pai não gostava de trabalhar com projetor, gostava do filme em si. Então, ele criou a Zaniratti Audiovisuais. As duas andaram juntas até 1975, quando separaram-se fisicamente a parte audiovisual e a de cinematografia — detalha, citando que a primeira foi para a Rua Comendador Manoel Pereira, mas posteriormente voltou a se unir na Farrapos.
De 1953 a 1998, a família manteve a Zaniratti Filmes, a maior distribuidora cinematográfica de filmes de 16 mm de obras nacionais e regionais do Sul do país. Em 1969, foi aberta a Zaniratti Audiovisuais.
Problemas com a ditadura militar
Durante os anos de chumbo, a Zaniratti costumava atender até generais em busca de equipamentos no balcão. O então fundador chegou a interceder pela soltura de amigos detidos pelo regime, mas a própria loja foi alvo dos militares naquela época.
No golpe de 1964, Geraldo e um parente chegaram a pegar em armas nos subterrâneos do Palácio Piratini para defender o governo estadual.
— Pela proximidade do pai com o Brizola, ele tinha muitos filmes das brizoletas (nome popular das escolas construídas no governo do político), que ficava na ponta dos filmes que nós distribuíamos (parte que era exibida antes de o filme começar nas telas). Na primeira, teve a apreensão dos filmes que nunca mais voltaram. E na segunda também. Ele teve que recomeçar nessas duas vezes a empresa novamente — narra José Augusto.
O Auto de Apreensão da Censura de Diversões Públicas, executado em 14 de junho de 1966, foi reproduzido no livro com a história da família.
Lâmpadas para equipamentos de hospitais e telescópios
Nos tempos atuais, quem entra na loja percebe uma série de equipamentos como máquinas fotográficas, tripés, lâmpadas e instrumentos astronômicos, como telescópios variados.
— A Zaniratti hoje tem uma especialização muito forte em lâmpadas, geralmente procuradas por hospitais para equipamentos médicos. A outra parte é de lunetas e telescópios. As pessoas estão procurando coisas físicas para sair da tela do celular e poder agregar a família e os filhos — ilustra José Augusto.
Dessa maneira, o público consumidor é composto por profissionais que produzem conteúdo em busca de equipamentos de áudio e vídeo, desde o tripé até a câmera fotográfica, além de pessoas que procuram telescópios, lunetas e binóculos. Além dos hospitais atrás de lâmpadas específicas.
A Zaniratti tem um espaço adjacente, junto à própria loja, utilizado para locação. Diversas gravações de áudio e vídeo são executadas no local, que possui um pequeno estúdio. Os antigos equipamentos, inclusive da parte de cinematografia, ficam expostos em cima de uma mesa. Em um mostruário de vidro são vistas diferentes câmeras fotográficas.
Atualmente, quatro funcionários trabalham na Zaniratti. A loja possui cerca de 400 metros quadrados, onde aproximadamente 15 mil itens são comercializados. Os produtos podem ser comprados pelo site oficial da loja.
Saiba mais
- O quê: Zaniratti Audiovisuais Ltda
- Endereço: Avenida Farrapos, 302 (bairro Floresta, em Porto Alegre)
- Contatos: (51) 3221-8818 ou zaniratti@zaniratti.com.br
- Dias e horários de funcionamento: de segunda a sexta-feira (8h às 18h) e aos sábados (8h às 12h). Não abre aos domingos
- Para acessar o site, clique aqui

